Publicado por: bardagi | fevereiro 5, 2010

Sobre Sherlock Holmes – Resposta a LFV

Caro Veríssimo,

Li sua crônica do último dia 14, e, sim, Robert Downey Junior! Ok que grande parte da construção, ou melhor seria dizer, descontrução de Sherlock Holmes, caiba a Guy Ritchie, mas Robert personificou exemplarmente o mito, com uma modernização que era devida. SH segue sendo o super-cérebro, segue não acreditando em sobrenatural e segue colocando a sua inteligência rara à serviço do Império. Mas agregou um toque excêntrico bem desenvolto, que nada tem a ver com apenas fumar um cachimbo esquisito. O brilhantismo do filme está na criação desta excentricidade com uma amplitude muito maior e mais densa, passando pela aspereza com que SH trata os amigos, pela sua sempre difícil sociabilidade e pelo gosto pela clausura/reclusão. Até quando está praticando uma das coisas que aparentemente mais gosta, a luta, o ambiente é sombrio, claustrofóbico, evidenciando sua personalidade fechada. Muito consistente.

Ah, e pode ir ver o filme, além do Robert Sherlock, dá para curtir a inventidade de Guy Ritchie e sua recriação da Londres do século XIX.

É isso aí,

Atenção fãs da série Millennium: Finalmente confirmado pela distribuidora Imagem, o tão esperado primeiro filme da Trilogia Millennium estréia em circuito comercial no Brasil em 23.04.2010. Confira no release da Filme B aqui.

Arrá!

Um dos grandes baratos do livro de Lewis Carroll é a possibilidade de lê-lo metaforicamente. Explico: Alice no país das maravilhas pode ser um mero livro de aventuras infantil, mas também pode ter mensagens subreptícias sobre muitas coisas. Ainda será preciso esperar 25 de Abril para ver como o gênio criativo de Tim Burton lidou com as muitas passagens que permitem várias leituras, mas como o filme tem a chancela da marca Disney, não podemos esperar muita ousadia. Porém, quem já teve oportunidade de ver o trailer sabe que muita inovação estará presente na telona.

Uma das passagens mais emblemáticas do livro está logo no começo, a cena da queda no poço. Alice cai, e, entre outras pérolas, Carroll põe na boca dela expressões como: “Depois de uma queda dessas, não vou achar nada demais levar um tombo escada abaixo“. A queda no poço é cheia de significados. É a símbolo de ruptura, de transição, de passagem para outro estado. E durante a queda, Alice vê, entre outras coisas, mapas e livros na parede. Outro símbolo, que representa viagem, aprendizado, conhecimento. Alice pensa em tudo enquanto caia, e o autor abusa da narrativa para nos transmitir a sensação de como a queda é demorada…..Alice pensa que está atravessando a Terra inteira, pensa que vai emergir na China, ou na Austrália. E acaba mesmo em um mundo muito estranho….ou em uma outra fase de sua vida?

E aí, Tim?

Publicado por: bardagi | janeiro 27, 2010

Mais Vermeer: Análise de mensagens

Como prometido em um post anterior, trago aqui um pouco mais de Vermeer. Fui motivado pelo título de um curso que estava sendo oferecido na Casa do Saber, em SP, “como ver um quadro“.

Não deu para assistir, mas resolvi publicar aqui uma idéia de como é “ver um quadro”. Tomemos o exemplo de “Mulher com a balança”, de Vermeer, o mestre da captura do momento, do instante único. No quadro, pintado entre 1662 e 1665 e que reproduzo abaixo, temos aparentemente uma mulher pesando jóias.

Um olhar mais atento vai nos possibilitar descobrir que ela apenas estava aferindo a balança, uma vez que não há nada ainda nos recipientes.

E partir daí, nossa visão pode ser treinada para captar todas as mensagens que o grande mestre, muito provavelmente, quis passar. Senão, vejamos: Se apurarmos o olhar mais para o alto do quadro, à esquerda, veremos a moldura de um espelho. O Espelho, para muitos, tido como símbolo de vaidade, egoísmo. O ato de pesar jóias diante de um espelho, portanto.

Mais ainda, há ainda a polêmica acerca da provável gravidez da moça (veja o detalhe da parte amarela da vestimenta, na primeira imagem). Se ele estiver grávida, o ato de estar prestes a pesar as jóias, reveste-se de um caráter mais dramático, pois pode indicar a necessidade de vender os bens para fazer frente às despesas com um nome membro na família.

Bem atrás da mulher, finalmente, temos de dedicar nossa atenção ao quadro na parede. A pintura dentro da pintura. Neste caso, temos uma representação do juízo final. Não sabemos se Vermeer tomou emprestado um quadro existente e o reproduziu, ou se ele mesmo criou, direto na sua tela, este quadro dentro do quadro. Como sabemos, a Balança também é considerada um símbolo de Justiça, de ponderação. O Juízo final é um momento, segundo a religião, de acerto de contas.

Tudo isso levado em consideração, o nos quis dizer Vermeer?
É consenso entre os estudiosos, que a mensagem principal do quadro é que devemos conduzir a vida com temperança e justiça. Devemos cuidar bem ao tomarmos qualquer decisão na vida. Devemos ser responsável pelos nossos atos. A alegoria do Juízo Final, a balança, o espelho, tudo diz mais do que originalmente poderíamos pensar.

É isso ai!

Publicado por: bardagi | janeiro 22, 2010

Crítica do cinema francês : Grandes Mulheres

Curioso como em um curto espaço de tempo o cinema francês acabou produzindo dois filmes muito semelhantes na temática, abordando a vida de duas grandes damas da França no século XX. Piaf e Coco avant Chanel são obras similares até na estrutura narrativa, pois ambos iniciam-se na infância pobre das duas personagens, falam das tragédias particulares dessas grandes personagens e enaltecem ao máximo suas personalidades fortes. Dois filmes que souberam fazer uma reconstrução primorosa de época. De forma muito curiosa, a música também tem um papel importante para Coco, não só para Piaf.

A sinalar também a relação destas mulheres fortes e seus companheiros. Enquanto Piaf parece sempre estar à frente de seus homens, embora dependente do amor deles, Coco, como retratada no filme, parece criar uma relação oportunística, explorando e deixando-se explorar pelos amantes. Em ambos filmes, quando o pior acontece, a reação de ambas é tão díspar, que evidencia enormemente esta diferença. O trabalho de maquiagem não é tão expressivo em Coco, pois o período retratado da personagem coincide mais com a idade real de Audrey, ao passo que em Piaf, Marion Cotilliard, para virar Piaf, necessita de todas as armas em termos de pós e máscaras.

De qualquer modo, ótimas indicações, ambos os filmes.

É isso aí,

Publicado por: bardagi | janeiro 18, 2010

Dois atores, duas cadeiras. E só.

Em tempos de malabarismos tecnológicos, onde pipocam as maiores bizarrices, como câmeras na mão dos atores e telões ao fundo do palco, duas peças nos brindam com o melhor que o teatro pode oferecer, mesmo que seja no século XXI: um texto inteligente e ótimas performances dos atores. É o caso em duas montagens hiper-minimalistas deste começo de ano: Anatomia Frozen e In on It.
Cenário: zero, somente os atores e duas cadeiras (bem, três no caso da primeira, mas é a mesma coisa).
Texto: fortes, criativos e densos. Anatomia Frozen tem um tema extremamente difícil, que é a pedofilia e assasinatos em série. O texto de Byrony Lavery é direto, e a montagem opta por uma linha linear para a condução do drama, o que facilita o entendimento. Já em In on it, as idas e vindas do texto de David MacIvor, e o fato de que os atores assumem 10 personagens distintos, demanda mais do público. Veja no blog roll aí na coluna do lado o link para o blog da peça, aqui no wordpress mesmo. Tem muitas informações sobre a peça.
Performance: um primor, os atores dão um show em ambos casos. Em Frozen, a sutileza dos movimentos do ator que interpreta as duas mulheres é o melhor e em In on It, a suave transição entre comédia e drama é sempre muito bem feita. Belo jogo de iluminação e criativo o posicionamento em cena dos atores.

Ambas valem o ingresso. É isso aí,

Publicado por: bardagi | janeiro 13, 2010

11º Congresso de Compras

Em 27.01 darei uma contribuição no já tradicional congresso de compras do IBC. Como sempre, espero poder levantar alguns questionamentos aos participantes, através de uma abordagem criativa sobre a inserção de Compras na Estratégia. O evento está recheado de palestras interessantes para os profissionais da área e para gestores em geral. Maiores detalhes aqui.

É isso aí,

Publicado por: bardagi | janeiro 13, 2010

Pandora em Avatar: Significados

James Cameron faz uma analogia óbvia em Avatar, ao denominar seu Planeta remoto com o nome de Pandora. Na mitologia grega, Pandora foi a primeira mulher e a origem de todos os males, ao abrir sua famosa caixa. Em Avatar, o planeta Pandora é um idílio, um Éden que vem a ser ocupado, explorado e devastado pelos terráqueos. A natureza que Cameron idealizou para Pandora, com suas plantas exuberantes, suas montanhas que desafiam a gravidade, seus animais puros, remetem inequivocamente ao Paraíso. Mas os terráqueos, “abrem a caixa” de Pandora e destravam a insanidade, a guerra e muita dor. Na Mitologia, Pandora abre a caixa por curiosidade, em Avatar, é a ganância que tudo dispara. Jake Scully, consciência humana em pele Na´vi é a única Esperança. Tal como na Mitologia, pois a Esperança, segundo algumas interpretações, é a única coisa que é mantida na caixa de Pandora, quando esta consegue fechá-la novamente. Eu gosto da interpretação que diz que a Esperança fica na caixa para preservar os Homens, pois a Esperança, embora nem sempre vista como um Mal, pode muito bem ser. A Esperança é uma salvaguarda, um apoio, uma bóia que nós jogamos a nós mesmos e através dela, ou melhor, por confiar muito nela, deixamos de fazer o que tem de ser feito. Deixamos de agir e ir em busca de nossos objetivos. “A Esperança é a última que morre” é o mote dos fracos. Jake Scully e Jakescully, mente e corpo, ficaram em Pandora, com mais alguns outros abnegados para preservar a Humanidade. Valeu James!

É isso aí,

Publicado por: bardagi | janeiro 12, 2010

Avatar não é um filme

É muito mais. James Cameron brinca de Deus, cria um Mundo inteiro, vê o futuro da Humanidade e vai além. Subverte a “lógica” e o virtual vira real. Há tanto em Avatar, que parece difícil que a narrativa tenha menos de três horas. E é tão bem estruturada que não as sentimos (as tais horas) passar. Digo assim, no sentido de que o teu corpo possa começar a pedir para se virar na cadeira. Por que no sentido de perceber, ser tocado por, bem aí sim, sentimos muito. Só me lembro de algo semelhante em Blade Runner e na trilogia de Senhor dos Anéis. Com a ressalva de que Ridley Scott e Peter Jackson estavam suportados por Dick e Tolkien. Um roteiro original assim, como Avatar, é raríssimo, e todo o alvoroço em torno do “filme” está plenamente justificado. Difícil até ordenar tudo o que vem à cabeça e que é passível de ser analisado em Avatar. James Cameron brinca com coisas sérias, como a degradação da natureza, critica o capitalismo predatório, faz homenagem à Alien, revive e relança o 3D, transpõe da web para o “mundo real” dos avatares (muitos já haviam feito os seus avatares, em sites como Second Life, não é mesmo?), usa da Mitologia (Pandora), trabalha a linguística e a sexualidade, enfim, tenta ser enciclopédico. E o faz com competência.

É isso aí,

Publicado por: bardagi | janeiro 11, 2010

Um livro: A Trégua, de Mario Benedetti

Mario Benedetti morreu o ano passado, e como que rendendo-lhe uma homenagem, fui ler A Trégua. Mas acabou sendo muito mais que uma homenagem, foi a descoberta de um autor espetacular. Nesta narrativa, de um homem próximo de se aposentar que acaba encontrando um novo amor, deliciei-me com a prosa fácil, ligiera, e, acima de tudo, com sua habilidade na leitura dos sentimentos masculinos. Martín, o personagem principal e narrador da história, é muito denso, inteiro, verossímel. É um homem comum, com uma vida marcada pela tragédia e impotente para mudar o que quer que seja. É tão insignificante que sua única missão parece ser a busca por mais ócio, e, obviamente, apenas para constatar que não saberá o que fazer com ele. Não sabe o que fazer com a Vida. Benedetti usa um estilo peculiar, faz a narrativa como se estivesse escrevendo um diário. Quando Martín recebe uma baforada do Destino, e tem um hiato nobre em sua existência apagada, a marca registrada do livro passa a ser o corte abrupto de cenas, deixando o leitor ávido por mais, tal como Martín. Mas no dia seguinte do diário, ele já está tratando de outra coisa. É uma forma inteligente de jogar com nossa participação na estória, diversas vezes fiquei eu mesmo preenchendo as lacunas. Hábil. Como um bonus para o pessoal do mundo corporativo, as ácidas observações sobre o cotidiano da empresa onde Martín é um contador, são pérolas que poderiam ainda estar sendo ditas nos cafezinhos de muitas empresas ditas modernas. Ressalva: Benedetti escreveu isto em 1959, há cinquenta anos.

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