Trilogia Millennium: as datas de exibição na TV de Millennium 2 e 3 (os originais suecos)

Aproveitando-se do furor que causa o lançamento do filme de David Fincher “The Girl with the Dragon Tattoo”, a refilmagem de Millennium 1 “Os Homens que não amavam as mulheres”, e que estréia em 27 de janeiro no Brasil, mas ao mesmo tempo sem nenhum marketing, a TV brasileira vai exibir os originais de “A Menina que brincava com fogo” (Millennium 2) e a “A rainha do castelo de ar” (Millennium 3). Tais películas entraram na grade do canal HBO Max com diversos horários de exibição agora em janeiro e fevereiro. Os filmes aqui no Brasil nunca chegaram ao mercado, nem em cinema, nem em vídeo. Os direitos de distribuição pertenciam à Imagem Filmes, que optou por abrir mão dos mesmos, devido à baixa repercussão do primeiro filme da trilogia, lançado no Brasil em maio de 2010, atingindo apenas 37.000 espectadores, após 7 semanas em cartaz.

Os filmes serão exibidos na sua versão para o cinema. A versão extendida, que foi exibida como minisérie nas TVs nórdicas e que agrega algo como 3 horas de filmagem na soma dos três filmes, esta continuará inédita entre nós.

Para ver os horários de “A Menina que brincava com fogo”, clique aqui.

Para ver os horários de “A Rainha do Castelo de Ar”, clique aqui.

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Stieg Larsson versus Jo Nesbo

A 19th-century propaganda image of (from left ...
Image via Wikipedia

Stieg Larsson everybody knows. With Jo Nesbo it is not the same, despite the many books this guy has already written.  After the whole buzz about Stieg and its world-famous Millennium series, the seek for the next thing to read was unstoppable. So I stumbled upon Jo Nesbo, also Scandinavian, but from Norway.  Now I dare to do this comparison, although one might argue that it might be too soon, as I have read 1800 pages of Stieg and only 480 from Nesbo. Nevertheless, crime fiction has its rules and Nesbo also writes a series with one character (Harry Hole). So allow me to infer that all Nesbo’s books with Harry may have similar content and characteristics. So, here we go:

  1. Personas. Stieg have created Lisbeth Salander, the most innovative and intriguing character in decades. Also others like Bloomkvist and the Vanger family are very well constructed personas. Nesbo’s Harry is a detective with some peculiar aspects, but does not surprise that much. Stieg wins by far.
  1. Plot. Stockholm against Oslo, most of the time. A Tie. But when Nesbo puts Harry in Brazil, for instance, he describes the country, its people and some cities with enormous veracity. Nesbo wins.
  1. Rhythm. The first 150 pages of The Girl with the Dragon Tattoo were hard to overcome. A real challenge, but once you’ve done with them, the remaining 500 pages of the first book are pure magic. The other two Millennium books suffer also from this sort of valley, but all in all their pace is fine. Nesbo starts his book already at an incredible speed, but strangely is not capable to keep it throughout the entire journey. Stieg wins, but also a tie could be an option.
  1. Climax. The chain of action that leads to the superb end in Millennium 1 is not so well repeated in The Girl who played with Fire and also not in The Girl who kicked the hornet’s nest. The book I’ve read from Nesbo is also not so fantastic in this regard. Stieg wins only by a nose.
  1. Extras. Stieg builds some other very astonishing stories around the main one. These stories are also involving and interesting and they give you many insides on Sweden, on financial crimes, on violence against women. All of a sudden, it is not anymore just crime fiction, but something else. Stieg wins undoubtedly.

So, in a nutshell, Stieg 4, Nesbo 1 or Stieg 4, Nesbo 2. You chose. But Stieg wins and the search continues.

Um Oscar para Noomi? – Millennium 3, “The Girl who kicked the hornet’s nest”

Academy Award for Best Foreign Language Film
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A finalização da trilogia Millennium nas telas (estamos falando dos filmes originais suecos) termina muito bem com esta parte 3, baseado no livro “A Rainha do Castelo do Ar”.  Tal como nos dois primeiros filmes, este também é bastante fiel ao livro.

O filme assenta-se no tripé composto pelo julgamento de Lisbeth, a solução das questões políticas assossiadas à toda a trama e o acerto de contas familiar dos Salander.

Mas o mais correto talvez seja dizer que o filme levanta voo pela presença de Noomi Rapace como Lisbeth Salander, uma verdadeira “encarnação”, a exemplo do que já havíamos visto nos dois primeiros filmes da série. O papel de Salander foi “tomado” por ela de tal forma que já é difícil falar da personagem sem “ver” Noomi. Tanto que um movimento para dar um Oscar a Noomi anda solto na Web e uma indicação é mais do que merecida. Porém, como o Oscar não é só um tema de performance, e sim também de recursos investidos em campanhas de marketing, etc, há pouca lógica em se acreditar neste investimento nem por parte dos produtores (que já lucraram no mundo todo com os filmes), nem pela distribuidora americana, que também já lançou os filmes e não ganharia muito mais com a premiação. Sem falar no lobby do remake, que quer deixar terreno limpo para David Fincher em 2012.

De resto, para os fãs da série, esta terceira parte é um final digno para a trilogia nas telonas.

é isso aí,

Millennium 2 e 3 no Brasil só em 2011

Noomi Rapace at the San Sebastián Film Festiva...
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A Imagem Filmes confirma que adiou os lançamentos dos filmes “The Girl who played with Fire” e “The Girl who kicked the hornet´s nest” (direto em DVD) para o primeiro semestre de 2011. O público brasileiro portanto corre já o risco de ver o remake americano do primeiro filme, “Os homens que não amavam as mulheres” (com lançamento nos USA em dezembro de 2011) antes de ter acesso à trilogia sueca.

O atraso do Brasil em relação ao circuito mundial ficará enorme, pois cabe lembrar que a trilogia original sueca acaba de ter o seu lançamento concluído, com a estréia de Millennium 3 no final de Outubro em vários países.

Millenium 3, que aliás, encerra dignamente a série, com nova ótima performance de Noomi Rapace (foto). A moça, aliás, parte para carreira em Hollywood (veja link abaixo). Crítica do filme em breve aqui no blog.

É isso aí,

Uma análise do filme “Os homens que não amavam as mulheres”

A transcrição da primeira parte de Millennium para as telas é impregnada pelo cuidado com a fidelidade à obra literária que a originou, e isso fica claro logo na primeira cena, uma tradução quase que literal. O diretor Niels porém, soube depurar o essencial, e o roteiro faz escolhas corretas dentro da oferta do calhamaço que é o primeiro livro de Stieg Larsson. A morosidade das primeiras 150 páginas, por exemplo, é deixada de lado rapidamente e vai-se direto ao cerne da trama: a investigação do assassinato de Harriet Vanger, a filha do magnata Henrik Vanger (papel desempenhado magistralmente, diga-se) e a relação de Mikael Bloomkvist e Lisbeth Salander, os responsáveis pela retomada das pesquisas sobre o referido crime.

Personagens até certo ponto importantes para Stieg, com Érika Berger, a editora-chefe da revista Millennium, onde trabalha Mikael, e Armanjski, o chefe da empresa de segurança onde trabalha Lisbeth, são praticamente esquecidos na tela, e vários outros são meros figurantes na trama em celulóide. Praga, no entanto, um tipo mais estranho e estereotipado, e consequentemente mais “visual”, ganha espaço.

Niels, embora filme uma Suécia na maioria das vezes escura, fria e um tanto desleixada, deixa de fora boa parte da grande crítica ao welfare-state que faz Stieg. A sociedade tão organizada, tão meticulosamente zelosa do bem-estar comum, falha no individual, pois Lisbeth é tratada como uma ignóbil, ao invés de como alguém que precise de cuidados. Também o panfletismo contra o capitalismo selvagem é arrefecido no filme.

Bloomkvist e Lisbeth, o incomum casal, cada um a seu modo, são elétrons livres desta sociedade elevada, vivem sós e são totalmente egocentrados, mas o processo investigativo os une, ainda que por interesses bem diversos. Na tela, a busca pelo assassino de Harriet é bem ritmada, as descobertas dos dois são bem embasadas e dão credibilidade à narrativa. A reconstituição da cidade fictícia de Hedestad é um primor. Em relação ao livro, Mikael Bloomkvist perde a sua aura de Don Juan e super-herói, tornando-se um homem mais comum, o que é bom. Já Lisbeth Salander é uma personagem incorporada por Noomi Rapace de uma forma espetacular, mas percebe-se uma perda de densidade na sua personalidade. Ela fica muito mais hacker do que qualquer outra coisa e fica difícil para quem não leu o livro entender a complexidade de sua personalidade, embora esta primeira parte já antecipe alguns pontos que na trilogia só são revelados no segundo tomo. Um recurso para tornar as coisas mais simples para o espectador que desconhece os livros.

Outro ponto forte está na trilha sonora, que sustenta muito bem a trama e o suspense. No mais, os 153 minutos passam rápidos, prendem a atenção, despertam a curiosidade do espectador. Com apenas ligeiras alterações em relação ao livro, o desfecho deste primeiro capítulo é muito bom e chega a emocionar.

Vai ser difícil Hollywood superar este com sua já anunciada refilmagem. Corremos o risco de ver mais uma versão americana que fica muito aquém do original, como em tantos outros casos (alguém aí lembra de Nikita?). Mas, por enquanto, é ótimo poder curtir o original. E vai ser curioso ver o puritanismo americano ter de lidar com as fortes cenas imaginadas por Stieg e que neste filme são tratadas dignamente. Toda a crueza do universo duro de Stieg Larsson é exposta sem sequer tangenciar o vulgar.

É isso aí,

Tudo sobre Millennium e Stieg Larsson

Além do que podem ler aqui, gostaria de deixar o link para o site do jornal espanhol “la vanguardia” que tem uma das melhores páginas sobre a série Millennium e seu autor. Acessem clicando aqui.

Vale a pena!

Trilogia Millennium: uma análise dos três livros de Stieg Larsson

Que Millennium é, na maior parte do tempo e de suas mais de 1800 páginas, uma leitura prazerosa, vejo como quase incontestável. O sucesso de vendas retrata isso e a profusão de fãs no mundo todo, com a passagem para o cinema, só vêem reforçar ainda mais o fenômeno mundial em que ela se converteu. Muito além do entretenimento proporcionado pela série, porém, findada a leitura do terceiro e último tijolinho da série, é momento de se refletir sobre o interessantíssimo mundo que a imaginação de Stieg Larsson criou, além de trazer à tona bons pontos de discussão na sua peculiar forma de ver por onde andam os Homens neste novo século e na Suécia em particular.

Das coisas interessantes que o microcosmo sueco do livro nos traz, emerge como grande pano de fundo de sua obra, primeiramente, uma grande crítica do welfare-state. A sociedade tão organizada, tão meticulosamente zelosa do bem-estar comum, falha no individual. Falha ao não cuidar bem dos seus entes que mais precisam de cuidado, o que é bem curioso. É o que parece nos querer dizer o autor, ao nos brindar com o aparato do Estado dentro do Estado, representado pela Seção, revelação do segundo livro. Uma instituição criada para o “jeitinho”, para fazer as coisas fora das regras, para subverter a ordem. É o retrato que sobressai também quando vemos o tratamento dispensado a Lisbeth nos hospitais psiquiátricos da Suécia. Todos os tipos estranhos com os quais cruzamos ao longo da trilogia parecem desambientados na sociedade perfeita que é o estereótipo da Suécia para o mundo. Desviados de toda ordem, como o grupo de motoqueiros, os que lucram com a prostituição, os que vendem drogas, os imigrantes, espelham perfeitamente o “lixo da pós-modernidade”, como nos fala Zigmut Baumann. E a Suécia parece cheia dele. O preconceito da polícia contra Lisbeth, a “lésbica satânica” de Faste, é a jóia da coroa deste lixo e a que mais prontamente deve ser eliminada.

Como sabemos que Stieg tem uma tradição jornalística de esquerda, só podemos interpretar isto como uma grande denuncia ao “sistema”. Stieg porém, algumas vezes exagera no panfletismo, e sua visão muito peculiar e deturpada do capitalismo sobressai por exemplo na estória paralela de Bjorslo, e suas privadas de milhares de coroas, feitas com mão-de-obra infantil no Vietnã. Nunca passou pela cabeça de Stieg que o mercado paga o preço que quer pagar pelas privadas ?

Bloomkvist será o alter-ego do autor? Isto importa pouco, mas o personagem é de tal forma sagaz , sexy, inteligente, que é difícil entender de outra forma. E o adjetivo Super-bloomkvist…..pelamordedeus! Mas não deixo de ver na incrível inteligência de Lisbeth Salander também parte do desejo do autor de se vangloriar. Seria ela também a heroína que ele sempre quis ser?

Lisbeth é a melhor contribuição do autor, sem dúvida. Através desta personagem temos a amarração dos três livros e de uma participação quase que coadjuvante no primeiro, ela passa a protagonista no segundo, e “mentora intelectual” no terceiro. A ética de Lisbeth é talvez o mais interessante a se analisar. Parece ser justa, gostar da mãe, mas rouba e viola a lei sem o menor pudor. Contestadora, afronta as regras de convivência sócia e debocha da autoridade. No livro, tudo justificado pelos abusos, mas para quem é tão intelectualmente bem dotada…

A relação de Bloomkvist e Lisbeth é extramente curiosa e cumpre notar que no segundo livro, há apenas um encontro entre os dois personagens, e ele se dá na última página!

Bloomkvist e Lisbeth, cada um a seu modo, são elétrons livres da sociedade, vivem sós e são totalmente egocentrados. Retrato do país?

A Suécia do imaginário coletivo, aliás, implode, restando apenas a liberdade sexual como uma bandeira, quase nenhum personagem tem uma família tradicional, e o casal Berger é o supra-sumo do liberalismo.

Fruto da incrível criatividade de Stieg, que em três livros, nos brinda três roteiros totalmente distintos, ainda que enredados entre si e derivados um do outro. Um show.

O mistério do primeiro livro deslancha a partir da página 150 e fica difícil de largar. O segundo livro tem um desenrolar muito parecido, demorando a engrenar, mas nele não há o mistério impenetrável e aprisionado no passado, e sim uma caçada ao assassino declarado. O final deste, porém, muito cinematográfico, prejudica e tira um pouco da credibilidade da narrativa (claro que é ficção, eu não consigo sair totalmente da realidade ao analisar) . Como esperado, o terceiro volume começa exatamente de onde parou o segundo, mas logo se converte em um outro enredo encantador, embora a profusão de personagens desgaste um pouco. Mas este último volume culmina bem com a elucidação de (quase) todos os mistérios levantados pela trilogia desde o principio e a ótima cena do julgamento. Quase que Stieg resvala de novo para o fantasioso, mas desta vez ele soube dosar melhor o seu apetite pelo hollowoodiano

O uso de alguns casos reais se confunde com a criação de outros, e Stieg chega a usar o nome verdadeiro do primeiro-ministro sueco Falldin e citar casos de corrupção reais. Bem curioso.

Enfim, ótima leitura e porta de entrada para um grande milênio.

É isso aí!