Alice no país das maravilhas (6) – Tim Burton e os desafios do livro de Carroll

E a poucos dias da estréia do filme entre nós, se faz imperativo discutir aquele que é seguramente o enigma mais intransponível de Carroll: A charada sobre o Corvo e a Escrivaninha (the raven and the writing desk).
Nas palavras do Chapeleiro:

“Por que um corvo é parecido com uma escrivaninha?”
“Acho que posso adivinhar essa”, respondeu Alice
No que a Lebre de Março contesta: “Você acha que pode descobrir a resposta para a charada?”
“Exatamente”, diz Alice
“Então deveria dizer o que quer dizer”, comentou a lebre
Alice se põe a pensar sobre corvos e escrivaninhas enquanto a conversa degringolava para outros rumos.

E neste ponto Carroll deixa a charada suspensa no ar.

Alguma pesquisa vai levar você a algumas especulações sobre a charada, mas o fato é que o próprio Carroll admitiu que não tinha a menor idéia da resposta!

Será que Tim Burton vai ousar responder?

É isso aí,

Alice no país das maravilhas (3) – Tim Burton e os desafios do livro de Carroll

E a lagarta? Talvez nem todos se lembrem bem, pois obviamente o Coelho, o Chapeleiro e o Gato são figuras mais presentes ao longo de toda a narrativa, mas a lagarta….bem, a lagarta aparece para ajudar Alice em suas reflexões sobre mudança….E Tim Burton, aparentemente fez uma escolha muito feliz para este papel, que foi entregue a Alan Rickmann. É um ator muito expressivo, com personagem marcantes como o terrorista implacável de Duro de Matar e certamente familiar ao público mainstream por sua participação na série Harry Porter. Uma imagem da lagarta foi recentemente divulgada e pode ser vista aí abaixo:

Mas como dizíamos, a Lagarta surge na estória para ajudar Alice, que andava extremamente preocupada com suas mudanças repentinas. Para surpresa total da menina, a lagarta convive bem com as suas mudanças, e ela é uma espécie (sem trocadilhos!) de PhD em mudanças, digamos assim. Afinal, ela sabe que virará “outra coisa” em breve. Ele será Crisálida e depois Borboleta, e nada disso a espanta.

Em um momento brilhante e elucidativo, para que Alice entenda que ainda é a mesma pessoa, apesar das mudanças a que está sendo submetida, a Lagarta apela para a memória da menina: “Recite Você está velho, Pai William“. E Alice, ainda que trocando algumas palavras, e mesmo versos inteiros, lembra-se do poema. E como memória não pode ser implantada, ainda, Alice ainda é Alice.

Quase já se despidindo, Alice exclama para a Lagarta: “Gostaria de que as pessoas não se ofendessem tão facilmente”. “Você vai se acostumar”, responde a Lagarta. Sábias palavras!

Em tempo: os dois primeiros posts desta série podem ser vistos se você clicar nas tags correspondentes aí ao lado.

É isso aí,

Alice no País das Maravilhas (2): Tim Burton e os desafios do livro de Carroll

Continuamos listando as passagens emblemáticas de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, preparando-nos para o que pode ser o filme de Tim Burton.

Depois da cena da queda no poço, objeto do primeiro post desta série, um outro evento sensacional é quando Alice se encontra com 25cm de altura, após beber de uma garrafa misteriosa, tentando sair para o jardim encantador que havia avistado pelo buraco da fechadura do salão em que se encontrava. Neste momento, o conselho que ela se dá (“em geral me dou ótimos conselhos, embora raramente os siga!”) foi de tentar comer o bolo que havia no local, acreditando que ele também certamente teria poderes especiais. “Se me tornar maior, alcanço a chave e abro a porta, se ficar ainda menor, posso passar por debaixo da porta“. Genial!

A esta passagem segue-se uma que, no meu entender, resume um pouco a leitura metafórica do livro. O bolo, de fato, produz um efeito estranho, e Alice, espantada com os fenômenos que se sucedem, exclama:

Meu Deus, meu Deus, como tudo é esquisito hoje! E ontem tudo era exatamente como de costume. Será que fui eu que mudei ontem à noite? Deixe-me pensar: eu era a mesma quando me levantei hoje de manhã? Estou quase achando que posso me lembrar de me sentir um pouco diferente. Mas se não sou eu mesma, a próxima pergunta é: Quem é que eu sou? Ah, essa é a grande charada!”

Ambas passagens pode suscitar muitas interpretações, uma das mais óbvias diz respeito às inquietudes da adolescência, mas a que mais me agrada é aquele que considera que Carroll estava fazendo uma grande reflexão sobre a evolução do ser humano: como se sentir a evolução de si mesmo? Como lidar com as memórias do que fomos no passado? A integridade do ser é dada pela consciência de nossas experiências, é ou não é?

A Alice de Tim é bem crescidinha, e pode muito bem filosofar também.

É isso aí,

Alice no País das Maravilhas (1): Tim Burton e os desafios do livro de Carroll

Um dos grandes baratos do livro de Lewis Carroll é a possibilidade de lê-lo metaforicamente. Explico: Alice no país das maravilhas pode ser um mero livro de aventuras infantil, mas também pode ter mensagens subreptícias sobre muitas coisas. Ainda será preciso esperar 25 de Abril para ver como o gênio criativo de Tim Burton lidou com as muitas passagens que permitem várias leituras, mas como o filme tem a chancela da marca Disney, não podemos esperar muita ousadia. Porém, quem já teve oportunidade de ver o trailer sabe que muita inovação estará presente na telona.

Uma das passagens mais emblemáticas do livro está logo no começo, a cena da queda no poço. Alice cai, e, entre outras pérolas, Carroll põe na boca dela expressões como: “Depois de uma queda dessas, não vou achar nada demais levar um tombo escada abaixo“. A queda no poço é cheia de significados. É a símbolo de ruptura, de transição, de passagem para outro estado. E durante a queda, Alice vê, entre outras coisas, mapas e livros na parede. Outro símbolo, que representa viagem, aprendizado, conhecimento. Alice pensa em tudo enquanto caia, e o autor abusa da narrativa para nos transmitir a sensação de como a queda é demorada…..Alice pensa que está atravessando a Terra inteira, pensa que vai emergir na China, ou na Austrália. E acaba mesmo em um mundo muito estranho….ou em uma outra fase de sua vida?

E aí, Tim?

A lista dos desejos para 2010 – Cinema

Muita expectativa para o que vai rolar nas telonas em 2010. Segue uma primeira lista de filmes que prometem. Fazendo jus às minhas preferências pessoais, claro. Ou seja, não espere encontrar aqui muito mainstream (mas há exceções à toda regra). Foco no cinema de autor. A ordem procura refletir mais ou menos o cronograma de estréias conforme publicado pelas distribuidoras, mas as datas mencionadas podem sofrer alterações.

Começo com Sherlock Holmes, previsto para o dia 8 de janeiro. Já na Veja desta semana temos uma crítica muito positiva sobre esta película, e os traillers que vimos deixaram um gostinho de quero mais. Robert Downey Jr. parece que se encontra definitivamente.

Na outra semana, em 15.01, estréia Vicío Frenético, refilmagem do filme homônimo de 1992. Cage, Kilmer e Eva Mendes. Não precisa mais.

Invictus de Eastwood, em 29.1. Enquanto ele estiver fazendo filmes, nós vamos ver, certo?

O novo dos irmãos Cohen, em 19.2, logo após o carnaval. Depois do sensacional “Queime depois de ler” esperemos que eles mantenham o passo.

A fita Branca, em 5.3, porque não deu para ver na Mostra. Palma de Ouro em Cannes de 2009 e credenciado pela direção de Haneke, que nos deu Caché e a A Professora de Piano.

Os homens que não amavam as mulheres, sem data em março (veja o trailer do filme aqui)

O novo Woody, Tudo pode dar certo, sem data em março também. De volta a NY.

Alice, de Tim Burton, mega expectativa em 2.4. Leia o livro antes, vale a pena.

Wall Street 2, com Michael Douglas como Gordon Gekko, voltando ao papel, 24 anos depois do primeiro filme, em abril.

Jabor, voltando ao cinema, com A suprema felicidade, em Maio, ainda sem data.

Nada mau, não? É isso aí.