Expectativa

Não previa nada, mas tudo esperava
Confiava, curiosa do destino que se lhe impunha a Previdência
nunca iludida, apenas suspendida no ar
pairando sobre a vida
em sentinela, `a espreita
arguta, resoluta, sempre com muitos olhos
prospectando, escrutinando, acariciando o futuro
com expectativa incansável,
com esperança infinita
sem temer a esquina, a dobra da rua
ansiando pela dobra do tempo, pelo novo espaço
em vigilia, aguardando
o auxilio de Cronos, o abraço de algum deus.

Tempestade

Aquela nuveada toda ia se amontuando de mansinho, detras do morro do Bispo e vinha chegando tal qual louva-deus vai aparecendo devagarzinho por detras de uma pedra. Quando ce ve as perninhas de palito dele, ela já ta babando para te da o bote.

E começou uma barulheira dos inferno, uma trovejeda que parecia que os santos estavam carreteando todas as coisas para mudar o mundo de lugar e tudo trombava feito jegue cego no meio de um estouro de boiada.

E pois que me deu uma coceira no meio das venta, daquelas que so me dá quando o homi la em cima vai mandar lavar toda a terra, de aqui até as quebradas do Nho Tonho, que fica, lá para detrás do morro de onde se avista o riacho que dizem, vai dar no mar, depois de encher o açude dos Macedo.

E de uma hora para outra, que é modo de dizer, pois foi mesmo é de um minuto para outro, desabou um relampido, que só pode ter este nome por que é um estampido com um relho brilhante na ponta. Tinha um cajueiro que ficou mais preto que o Temedeu, o negro retinto do seu Alcebiades.

Me botei a esfolar o Jeremias, para modo de vê se o tonto ia mais velozmente, se se metia a balançar as ferradura, mas o danado preferia se arrastar mais manso que o balofo do seu Ramao vira na rede na hora de sestiar.

E veio o agueiro. Vinha de cima e vinha de baixo, repicando na terra e voltando para cima como que os pingo querendo voltar de donde tinha vindo.

E vinha de lado, pelo volteio da dobra do vento que soprava feito gaita.

De modo que eu e o Jeremias viramo um barro só. Para modo de aproveita aquela barrama eu fui juntando nums montinho que ia tomando forma de tijolo. Resolvi guarda aquilo que me alembrei que tinha de completar o muro de arrimo la do meu sobradinho.

Quando vi passar o Temedeu, correndo para o outro lado, todo amarronzado também, tava que só os fundo dos oio se via

Pois já tinha visto de tudo, menos tempestade de branquear neguinho e pretiá caju. Ô coisa tremenda.

Beije-me

O beijo secava, como se sua boca estivesse provando um vinho de taninos altíssimos.

Tirava a sua capacidade de salivar, exigia que engolisse o ar para ver se recuperava algo de umidade de dentro de teus pulmões.

Mas ao mesmo tempo em que a secura se estabelecia, produzia-se algo de inesperado em outras partes do corpo. Suava pela cabeça, como quando comia algo apimentado. Teve de tirar o lenço do bolso e enxugar o couro cabeludo algumas vezes. As pernas tremiam, como quando tinha calafrios.  Os olhos, estes sim, ficavam úmidos, chorando devagarzinho pelos cantos. Aproveitou uma lágrima e a puxou com a língua, que instantaneamente foi sugada por aquela boca que tudo tomava para si. Entrou em um círculo vicioso, chorava para umidificar-se e continuar beijando e quanto mais beijava, mais secava por dentro e mais precisava chorar. Parou também de enxugar a cabeça, queria que o suor descesse por sua fronte e suas bochechas e chegasse à sua boca, para aliviar a secura. E beijava, e secava, e beijava e secava. E suava e tremia, suava e tremia.

Achou que aquilo não iria acabar bem, tentou se desvencilhar daquela boca, mas não conseguiu descolar os lábios. Empurrou-a todo o que pode com as mãos, mas sua língua estava retida entre os lábios daquela boca. Tentou chutá-la, mas ela bailava bem, se distanciava dos golpes com facilidade. Não havia saída. Implorou com gestos para que ela parasse com aquilo, o estava matando. Ela não dava ouvidos e seguia beijando e sugando tudo, todo o seu ser.

E assim seguiu até, de uma hora para outra, ela desistiu. Largou-o ali, sem o beijo, sem o suor, sem as lágrimas, sem a tremura. Ele relaxou, respirou e recuperou a umidade. Mas assim mesmo definhou.

A sombra e a luz, fábula em um ato.

A sombra e a luz
Passeava a luz alegremente pela floresta quando se depara com uma arvore frondosa, de galhos amplos, de cujas folhas pendiam muito frutos de aparência saborosa.
A luz decide descansar e se acomoda sob a arvore, encostando-se no tronco. Ao adormercer, se apaga por um instante.
Nisso vem a sombra, e a tudo engole e a todos remete a uma escuridão terrível.
Diz a arvore: levanta-te, luz, devolva-nos o dia, a vida, a alegria!
A luz, inabalável, retruca:
Eu não, cansei de tudo iluminar, de ser radiante, quero o ostracismo
A sombra, embora ninguém possa ver, sorri à larga.
A arvore indigna-se e grita, exasperada:
Mas feneceremos todos neste breu, neste mar sem fim de negrume inóspito!
Cala-te ente, o mundo precisa de um pouco de Nada agora. 99% do universo é assim, breu total. Já escutaste alguém reclamando disto?
E a árvore, apelativa: Mas somos nós, este 1%, que fazemos a diferença! Luz: volte por favor!
Esqueça. Detesto minorias, quero me juntar ao grande e democrático Nada Total. Vamos! Ao breu!
Não consta que o Universo tenha reclamado de agregar o ultimo bastião de resistência.

Minicontos

  1. Tira o teu da reta, sai da frente do cara. – Não. Deixo o meu na reta. O que nasce torto nunca se endireita. Tô seguro.
  2. De pequenas e efêmeras circunstâncias surgem duradouras consequências. Do furo no látex, por exemplo.
  3. Entra em cena o albatroz. Curioso animal, me circunda do alto, como que atônito com o meu deslizar sôfrego sobre a areia fofa.
  4. Entro pelo algoritmo, me hospedo na nuvem. Oráculo portal não me virtualiza. E não há app para existencializar. Não pio.
  5. Adentrou o bar e viu o alvo junto ao banheiro. Sem vontade, simulou se aliviar. Mão no zíper, sentiu a lâmina fria no pescoço.
  6. A todos igualava na baixeza dos tratos. Pensava-se o maior. O que não tem igual, o Um. Mas pereceu diante de Algo Novo.
  • Todos preparados com no máximo 140 caracteres para entrar na disputa do #saraunoar, promovido pelo Marcelino Freire, via Twitter.  Ótima experiência.

Amuleto

Aksar Dratov adentrou o bar e em três milissegundos mapeou o terreno. Sua visão aperfeiçoada era de grande auxilio quando precisa executar missões como aquela. Identificou o alvo em uma mesa próxima a entrada do banheiro masculino. Dratov simulou que precisava ir até o mesmo somente para passar bem em frente àquele que em breve sofreria a sua fúria. Ao passar calmamente em frente ao homem, sua mão direita foi ao bolso da calça, em busca de seu amuleto. A certeza de que ele estava lá o tranquilizou. Dratov nunca executava uma missão sem ele.
O estranho é que ao adentrar o banheiro ele realmente teve necessidade de se aliviar. Acomodou-se em frente a um mictório livre, e pôs-se a urinar calmamente.  Quando começou a fechar o zíper da calça, sentiu a lâmina fria junto ao lado esquerdo do seu pescoço.
Era a sua vitima.

Antes que pudesse reagir Dratov viu, pelo espelho, o amuleto indo parar na mão do homem.

O último Gênio ou quem vai salvar o mundo?

– O meu rapaz pedalava tranquilamente na ciclovia quando foi atropelado por um Porsche desgovernado, acho que conduzido por um motorista bêbado. O jarro que estava na garupa caiu, espatifando-se em pedacinhos. Um rasgo de ar foi formando-se e..puf! eis-me aqui.

– pois o meu menino carregava uma cumbuca com todo o cuidado, mas o calçamento da rua estava deficiente, então ele tropeçou e a cumbuca caiu, espatifando-se em pedacinhos. Um vaporzinho de ar também saiu de dentro da cumbuca, e…puf! eis-me aqui.

– minha garota entrou por um instante no banheiro da balada e de repente ouviu os gritos dos seus amigos lá na pista de dança. O arrastão foi rápido e deu-se aquela correria. Ela tentou ficar quieta dentro do pequeno cubículo do banheiro onde havia um vaso sanitário, mas os bandidos a encontraram. O pequeno vaso que estava em cima da pia foi ao chão com a invasão abrupta e espatifou-se todo. Saiu uma névoa espessa, e…puf! eis-me aqui.

– Pois bem o que faremos? –  disse o primeiro

Ao que o segundo respondeu:

– Vamos dar queixa?

O terceiro logo intervém: – nem pensar! Deixemos estes malucos, que sucumbam sozinhos.

– Mas isso não vai contra os desígnios naturais?

– Pode ser, mas este pessoal não merece mais nossa ajuda. Bando de sem-noção!

– Não há ninguém que mereça nossa ajuda? Nenhum?

– ……

-……

(minutos depois)

Está bem. Vamos embora!

– Espere! Soube que ainda tem uma botija inteira.

– Onde? onde?

– É, onde?

– Se bem me lembro, ela está com o ….

Andrei Tchernenkov, de Chelyabinsk, Rússia, caminhava despreocupado pela rua de sua casa, carregando a botija que sua mãe pedira para ele levar para a loja de antiguidades, para uma avaliação. Foi quando um enorme facho de luz surgiu a sua frente, cada vez mais intenso, se tornando uma bola de fogo, cobrindo o céu inteiro. Quando aquilo estourou a poucos quilômetros de distancia, tudo tremeu ao seu redor. Quando Andrei conseguiu se levantar, viu a botija espatifada no chão, e uma névoa estranha encobriu tudo.