Skyfall e A Sociedade dos Heróis Mortos

Quando tudo vira só uma tênue esperança, é usual nos agarramos ao inesperado, ao mágico, ao sobrenatural. E aos heróis, sejam eles precedidos ou não do prefixo super. Estamos talhados para isso desde nossos primórdios, é nossa formação. A capacidade Humana de gerar inovações neste novo Milênio só parece poder ser superada para nossa igualmente voraz capacidade de gerar crises, cataclismos e catástrofes. E não importa que cada vez mais saibamos mais sobre tudo. O problema é que o Tudo insiste em se expandir inconteste, gerando novos problemas, estes ainda mais complexos que os anteriores, atingindo fronteiras antes impensáveis. Ok, achamos o Bóson de Higgins, e agora?

Como ensinou Jean Monnet, “só aceitamos a mudança na necessidade e só vemos a necessidade na crise”. A crise está por toda parte e, conseqüência natural, as mudanças que ela causa. A nova moda é a descrença na crença. Assolados pelas inúmeras catástrofes, exógenas ou auto impostas, passamos a  duvidar de nossa própria imaginação e potencial de resposta.  A Humanidade poucas vezes teve tantas possibilidades de dar errado como Raça. Colapso climático, superpulação, choque de asteróides, falta de água, hecatombe nuclear, mega-giga-tera bactérias, terrorismo desenfreado, explosão zumbi, you name it. Parece não haver saída. 

O Homem, então, revisita seus símbolos e se questiona se sairá vivo desta. Há um fortíssimo núcleo de desesperançados correndo solto por aí, tomando de assalto a liderança e provocando a mudança. No cinema, eles fazem nossos heróis sucumbir inapelavelmente.

Webb já havia humanizado o Homem-Aranha e Chris Nolan matou Batman sem dó nem piedade, transformando-o em um impotente contra o Mal avassalador que vem das Sombras. O último Batman de sua trilogia é um inflamado discurso nesta direção. Batman tenta, ressurge depois de oito anos na obscuridade, mas é cada menos o Salvador. É estoico, mas sabe que é falível. E as sombras penetraram fundo na alma de Gotham.

As mesmas sombras estão muito presentes em Skyfall, a 23ª aventura de James Bond, onde Sam Mendes assume o papel de iconoclasta da vez.  O inimigo vem de dentro do próprio MI-6, bastião da honra e da retidão. Não há escapatória. Tanto que M, papel de Judi Dench, a certa altura da trama, revela: “não sabemos quem são nossos inimigos, eles estão nas Sombras. Vocês se sentem seguros?”

Bond não se sente. Sucumbe. Daniel Craig é o Bond mais viril, truculento e carismático, ombreando Sean Connery, sem dúvida alguma. Mas Mendes descaracteriza o herói por completo, tirando-lhe mulheres, gadgets e os martinis, e lhe entregando um efeminado Javier Bardem como alvo. Bardem longe de seu melhor, aliás. E mesmo este Bond viril ao extremo não termina bem suas lutas. Não finaliza com precisão, hesita, erra. Quem é Bond agora? Um Highlander dos grotões da Escócia, defendendo a mãezinha, ajudado por um menino imberbe. O Mito cai. Bond é um Humano comum.

O filme é instigante e tem todos os méritos ao repensar o personagem, um dos mais emblemáticos e longevos da indústria do entretenimento. O Mundo sem Esperança precisava de um novo tipo de Bond. Mendes, Sam Mendes faz o serviço e entrega este Bond duro, leal e rude. Sua grande estratégia é o constrate com o Bond idealizado. Em uma cena emblemática, os espectros de Bond e um de seus algozes lutam com um grande telão do assombroso skyline de Shanghai como pano de fundo. O brilhante mundo novo com velhos heróis foscos a lhe fazer apenas sombra.

Bond, James Bond. Fui um bom herói, mas não sirvo para os novos tempos. Estou envelhecendo. Falho como qualquer outro. Preciso de muita  ajuda para o combate e de trapaças para voltar à ativa.

A tela flui rápida e duas horas e vinte minutos depois a sensação é agradável, todos entregam muito, o filme tem elenco e não apenas Craig. Ralph Fiennes parece ser uma ótima aquisição para a série.

Mendes inova muito. Q encontra Bond diante de uma tela de Turner e faz M, de novo, ter o momento mais ímpar do filme, ao recitar Tennyson e resumir tudo (embora ainda deixando uma última gota de esperança):

We are not now that strength which in old days

Moved earth and heaven; that which we are, we are;

One equal temper of heroic hearts,

Made weak by time and fate, but strong in will

To strive, to seek, to find, and not to yield.

Será?

Nosso heróis ainda não morrem de overdose, mas falta pouco.

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13 filmes imperdíveis para este restinho de ano

Meus caros, olho vivo que já tem gente planejando a ceia de Natal. Fica aqui a minha lista de 13 prioridades para os cinéfilos de plantão. Isto não é um ranking, por isso todos os filmes são precedidos do número 1. Mas a lista segue mais oou menos a ordem prevista para a estréia no Brasil.

  1. Carnage (Deus da Carnificina)

De Polanksi, com elenco bárbaro. O homem continua bem, sarcástico ao máximo. Ghost Writer provou.

  1. The Mill and the Cross (O Moinho e a Cruz)

Verei por interesse artístico. Baseado na tela abaixo Brugel, tal como já foi feito com A garota do brinco de pérola, de Vermeer.

  1. On the road – Na Estrada

Waltinho não levou prêmio mas seu filme sobre a obra “infilmável de Kerouac arrasou em Cannes. Beatnicks, uni-vos!

  1. Prometheus

Em Imax. Ridley Scott, o homem que quer fazer uma sequência para Blade Runner. Vamos ver como ele se saiu na prequel de Alien. Pelamordedeus!

  1. Dark shadows (Sombras da Noite)

Burton. Será que ele já sarou, depois de ter caído na toca do Coelho Maluco?

  1. Fausto

incrível versão da lenda de Goethe. Incrível como já remarcaram a estréia deste filme. Leão de Ouro em Veneza 2011. Não garanto que saia este ano.

  1. To Rome with Love ( Para Roma com Amor)

Allen. Ponto.

  1. Dark Knight rises ( Batman, O Cavaleiro das trevas ressurge)

o último Batman. Bale. Nolan com alguns dos vícios de Inception , mas e daí?

  1. Somos tão jovens

Este é o ano Legião.

        1. Skyfall (Operação Skyfall)

Bond. certas coisa não envelhecem.

        1. Frankenweenie

Burton. Já totalmente curado, com certeza.

         1. Gambit

com roteiro dos irmãos Coen. Detalhes aqui.

         1. The Hobbit

My precious.

2012: Ascensão e Queda dos Pequenos Homens

Este parece ser o ano onde os pequenos homens chamarão muita atenção. Para o bem e para o mal. Muitos cairão. Vão sucumbir ao peso de seus sonhos de grandeza ridículos. Outros infestarão por aí como pequenos mosquitinhos da dengue: você mal os vê, mas eles causam uma barbaridade. Ocuparão espaços. Em 2012, não estaremos sossegados, não teremos paz com estes pestinhas.

A ameaça de uma grande queda vai atormentar o baixinho Sarkô, o nem tem verticalmente privilegiado Obama e o minúsculo ursinho da estepe Putin. E acima de tudo, o ínfimo, o minúsculo, o infinitesimal Chavez. Este, se tudo correr bem, será finalmente levado para a sua máxima pequenez absoluta. Os demais até podem se safar, mas sofrerão, e terão de diminuir ainda mais para se manter acima da linha d’água.

Os pequenos  J Edgar Hoover (mal chegava a 1,70), de Clint, Hugo, de Scorcese e Tintin, de Spielberg aportarão por aqui em grande estilo e terão a árdua e provavelmente inglória tarefa de combater a Dama de Ferro (Meryl Streep). O pequenino Oscar já se movimenta na prateleira. Na direção da Grande Dama, é claro.

Expectativas dignas de Dickens para os italianinhos Modigliani (1,65cm), Caravaggio (1,70) e De Chirico (ok, grego, mas de mãe e pai italianos). Para quem puder, e para fazer contraponto a esta série de piccolli ridotti, em Londres até 5 de fevereiro pode-se admirar as obras de Da Vinci, o grande, que era grande mesmo (1,90cm!), na National Gallery.

O pequeno Michael Bloomkvist vai se curvar, de novo, diante da grande, apesar de miudinha, Lisbeth, já em 27.01.

O cavaleiro das trevas se erguerá, diz o título do filme, mas na boa na boa este quarto filme decretará seu fim nas telonas. E Chris Nolan pelo jeito terá sua pequenez revelada, já que parece que ele não conseguiu se livrar muito de A Origem.

De grandes homens mesmo em 2012, comemoraremos os 100 anos de Nelson Rodrigues e veremos em São Paulo Thiago Abravanel encarnando o Tim Maia. Grande personificando Grande.

Maria Rita vai cantar Elis em março. Grandes mulheres.

Voltando aos pequenos, os endiabrados, enfurecidos espanhoizinhos seguramente vão levantar outra taça, na Euro 2012. Mesmo sem Messi, o pequeníssimo maior de todos, que não pode jogar a Eurocopa, porque, apesar de toda a crença de seus compatriotas, a Argentina não fica na Europa.

O Brasil Grande apareceu muito neste final de 2011, indo para sexto lugar no ranking do PIB. Em 2012, o Brasil Maior Ainda se aproximará ainda mais dos Tigres Asiáticos e mostrará de forma inequívoca toda a sua pujança. Teremos a Golden Week brasileira, da noite de 14 novembro, pré-feriado da República,  até a manhã do dia 21, pós-feriado da consciência negra. Duas pontes seguidas, 6 dias de folga in a row, coisa de país gigantesco, enorme, esparramando em seu bercinho nem tão esplendoroso assim. 

Pequeno, aliás.  Que se fará notar em 2012. Na Rio+20 em julho, para escancarar as deficiências da cidade maravilhosa, nas eleições em outubro para alçarmos de novo vários políticos incompetentes, homens mínimos, homens nulos, aos cargos públicos. É muita pequenez.

Um bando de diminutos, porém, vai vingar a raça destes seres ínfimos e nos fará alegres de novo. Terra Média,  O Anel e, este sim uma pequena grande maravilha, o precioso Gollum. Os Hobbits chegarão em Dezembro, oxalá, salvando o ano da praga de indefectíveis seres mal acabados que não prestam para nada.

Porque A Origem não é um filme 5 estrelas

5 estrelas do Estadão é algo que não vejo faz muito tempo, e “A Origem” (Inception), as ganhou. Veja deu apenas 3. Eu fico com 4, bem meio termo, dirão alguns, mas eu sustento que não. Inception não vale 5 pelos seguintes motivos:

1. Porque Ellen Page não está a altura do papel que lhe foi confiado. Ela não passa a autoconfiança e a atitude necessárias como Ariadne, “a” arquiteta super-super, de nome óbvio (Ariadne, da mitologia grega, a que ajudou Teseu no Labirinto). Além disso, ela tem de cumprir o papel de “terapeuta” de Cobb (Di Caprio), a única que é capaz de desvendar o segredo da mente perturbada do Extrator. Não dá. Ainda bem que ela não será Salander.

Pouco convincente esta garotinha

2. Porque Nolan escolheu uma música de Edith Piaf para servir de alarme para o despertar dos nosso heróis-ladrões e esta música (“Non, je ne regrette rien”) fala de alguém que não se arrepende de nada do que fez, ao passo que Cobb é a Culpa em pessoa (o próprio personagem declara isso). E uma coincidência também infeliz, porque Marion Cotilliard fez o papel de Piaf, no qual ganhou até Oscar.

Non, je ne regrette rien...

3. Porque não bastam os cenários espetaculares. Falta credibilidade à trama, ainda que esta esteja muito bem “arquitetada”, com o perdão do trocadilho. Vejamos pelo menos dois pontos estranhos:

a) nossos heróis estão conscientes de que estão sonhando, mas sofrem para derrotar os bandidos-projeções, por que têm pistolinhas ao invés de lançar mão de bazucas, ou qualquer coisa mais potente. O que, em um dado momento, é um recurso utilizado por um deles, incoerentemente. Das duas uma: ou é o inconsciente que predomina, e não se pode influenciar nada em um sonho, ou se sonha conscientemente, e eu domino o sonho como eu quero, e não só de vez em quando.

b) a “volta” de Cobb, já quase no final, é totalmente inexplicável pois ele perdeu o “gatilho”.

Para contrabalançar esses probleminhas, resta a hipótese perturbadora de que tudo não passa de um único grande Sonho…..(que justifica a minha quarta estrela).

Caiu ou não caiu?

De resto, é inquestionável que Inception é um filmaço, talvez o melhor do ano até agora. Disputa difícil com “A Fita Branca”.

É isso aí.

O novo Batman

Foi bom, foi muito bom. É uma grande fábula moderna. Os questionamentos surgem a todo instantes: o que é o Bem e o Mal? Vale a pena fazer o Bem? O que é ser ético ?

A riqueza da construção deste roteiro para mim sobrepuja-se ao tão aclamado trabalho do ator H. Ledger como o Coringa. O Coringa serve como instrumento perfeito para o autor expressar suas inquietações, mas também assim servem o próprio Batman, o Procurador e Morgan Freeman. 

Querem exemplos?

1.  O dilema em que o Coringa coloca Batman, quando mantém reféns dois personagem caros ao Morcego. Quem Batman vai escolher salvar? A cilada moral em que o Coringa coloca Batman, desencadeia uma virada espetacular em um personagem.   

2. O Coringa invade com muita ousadia uma reunião da Máfia de Gotham. O lugar é altamente escrutinado, até com aqueles aparelhos que detectam metais nos aeroportos, mas o Coringa está lá com o bolso cheio de granadas. A platéia nem liga. Como ele lida com o momento é que vale, como ele enfreta toda a Máfia sozinho.

3. Ao final do filme,  o Coringa usa de novo de uma cilada moral, no jogo de vida ou morte com os presidiários maus e os cidadões comuns. Pode render boas horas de discussão com seus amigos a solução dada pelo Diretor.

Em resumo, além de grand eespetáculo, faz pensar. Grande filme.