Entreouvidos no debate eleitoral brasileiro

– “é o cão chupando manga”…

Candidata rosa: a candidata vermelha está demonizando a raça canina brasileira. E tem mais, as mangas estão neste contexto como as maças no Paraíso. É uma metáfora rasa. A verdade prevalecerá!

Candidata vermelha: os rosas estão entregando nossas mangas, plantadas pela natureza, aos interesses escusos dos cães-banqueiros, digo, banqueteiros. Nós vamos promover uma maior inclusão da manga, assim como da goiaba, o nosso modelo jabuticaba é inclusivo, nós vamos possibilitar o acesso de milhões de mangas a uma vida digna.

Candidata roxa: nós temos que acabar com essa submissão da manga, nós pregamos, lembrando as manifestações de junho, uma grande aliança da sociedade civil para tirarmos as mangas desde cenário onde são inapelavelmente chupadas, sugadas até o final.

Candidato verde-limão: nós sempre achamos que os cães, assim como toda a sociedade brasileira, deveria ser livre para chupar, sugar e também tragar o que quiser.

Candidato (cor: qualquer uma, ou todas) : veja bem, nós acreditamos que o mercado deve regular, ora a manga é chupada, ora o cão chupa. Enfim, o que quero dizer é que há espaço para as mangas, para os cães, em um grande avanço que está alicerçado no tripé macroeconômico. Lá no meu estado, por exemplo, houve um grande crescimento da chupação de manga durante meu mandato. Nós vamos levar isso a todo o Brasil.

E o cão chupou a manga até o bagaço.

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O Brazil é o novo Brasil?

O final de semana era de decisões nas Olimpíadas. Tudo mundo dava seu pitaco. Tudo mundo errou. Eu não dei pitaco e não errei nenhum prognóstico, rá!

Daí eu vou assistir o show da Maria Rita cantando Elis Regina e me deparo com aquela música, Querelas do Brasil, entre outras pérolas. Tudo o mais é decorrência.

O Brazil não conhece o Brasil. Nem o Brasil conhece o Brasil. Nas Olimpíadas menos ainda. Ganhamos o que não sabíamos que podíamos ganhar. Perdemos o que acreditávamos barbada. O auto-conhecimento é a chave do sucesso. Quem não conhece a si mesmo, não faz idéia de onde pode chegar, menos ainda sabe o que tem de fazer para melhorar. O Brasil não sabe o que é o Brasil. Ruma, portanto, a esmo, para lugar nenhum.

O Brasil nunca foi ao Brazil. Hoje o Brasil deita e rola no Brazil. E se acha. Daqui a pouco o Brazil vai começar a reclamar que sofre bullying do Brasil. É que só está lá por tamanho. Parece mesmo que quer se impor por força, e não por competência. Qualquer ranking de competência deixa o Brasil no chinelo, vide nossas performances em Educação, em Inovação ou Ambiente de Negócios. Urgh! Agora, ultimamente o Brazil também vem muito ao Brasil. E se espanta. O espanto mais bacana da última semana é o da Forbes sobre o preço dos carros por estas bandas.

O Brazil não merece o Brasil. Ecos de uma postura totalmente anti-globalizada, anti-participativa, anti-tudo, que era a cara do Brasil pseudo-intelectualizado. Na verdade, o Brasil quer porque quer pertencer ao Brazil, o Brasil quer ser o Brazil.
O Brazil está matando o Brasil. Falso corolário da frase anterior. O Brazil cansou de jogar bóia para cá, para o Brasil. Agora este Brasil lindo e trigueiro acha que pode jogar bóias para os outros. Na verdade, é o Brasil que está matando o Brasil. Ora, joguem bóia primeiro nas nossas mazelas, criem um país direito. Mas se deixar, o Brasil também pode faz um estrago considerável no Brazil.

Do Brasil, SoS ao Brasil. É isso aí. Ponto.

Fui ao Futuro e não gostei

A moda agora é falar que o Brasil não é mais o país do futuro. Nosso tão aguardado futuro teria chegado. Agora é se desfrutar, correr para o abraço. O mundo se curva diante do gigante recém acordado do Sul.

Será?  

Pois eu olhei, vasculhei, e não vi futuro algum.  

Todas as mazelas sociais estão aí para se ver. Desnecessário listar o descalabro geral, mas cito apenas um dado incrível: apenas 55,4% dos 57,3 milhões de domicílios estavam ligados à rede geral de esgoto em 2011. Então alô classe média emergente: as vossas novas babás paraguaias ficarão doentes também.

Não resolvemos nenhum dos problemas crônicos nacionais. Não fizemos nenhuma reforma (política, fiscal, previdenciária), não solucionamos nada. Apenas fomos capazes de eliminar a aberração da hiperinflação e colocar a locomotiva nos trilhos minimamente alinhados para crescer de maneira mais constante e firme. Isso equivale a entrar no jardim de infância sendo que o objetivo é fazer uma graduação em nível superior. E os 2,7% do crescimento do PIB ano passado já põe bastante em dúvida nossa capacidade de sequer sermos alfabetizados, digamos assim.

Crescimento este longe de ser sustentável. Fica muito abaixo do potencial, pois temos os mais incríveis gargalos de infra-estrutura. Aeroportos-lixo, portos ineficientes, estradas-buraco, obras intermináveis e burras. Não temos política industrial e em nossa pauta de exportação, oito produtos geram metade da receita. O nível de globalização de nossa economia é baixíssimo e mal as importações aumentam um pouquinho, lá veem medidas protecionistas.

Todo verão os mesmos desastres naturais são causados sempre por chuvas “nunca vistas neste país” e nunca por falta de planejamento, isto sim algo “nunca visto neste país”.

Em pouco tempo, a janela demográfica vai acabar e teremos de confrontar o fato de que por volta de 2030 cada trabalhador na ativa terá de financiar 1 aposentado. Na década de 70 eram 4 para cada 1, hoje já são  menos de 2.

Na educação, não saímos dos últimos lugares no PISA, com qualquer outro paiseco, com o perdão do trocadilho, pisando na nossa cabeça.

Insistimos em não querer aprender com ninguém. Repudiamos os modelos de êxito, sejam asiáticos, europeus, africanos, sempre queremos criar as nossas jabuticabas, as nossas tomadas genuinamente nacionais. Continuamos atravancando exemplarmente qualquer iniciativa empreendedora, seja por impostos, seja por burocracia. Nos últimos 30 anos fomos ultrapassados por Coréia do Sul e outros países em diversos quesitos. Ficamos como uma carroça à beira da estrada olhando os bólidos passar. Para quais países perderemos a corrida nos próximos 20 / 30 anos? Romênia, Bulgária, Cazaquistão, Bósnia? (Ops, todos estes já tem melhor IDH que o Brasil). E lá vem o vietnã, logo alí atrás, dobrando a curva já e nos colocando na alça de mira…

Para terminar, como mudar? Não sei. Só sei que é preciso haver vontade e determinação. Elevar a capacidade de planejamento, alterar prioridades, privilegiar a inovação. Tudo isso pressupõe que pessoas capazes e altruístas estejam à frente do processo, liderando a sociedade. Na democracia, isso se chama votar certo. Cobrar os eleitos e penalizar culpados.

Eu sempre aprendi que futuro é consequência de atos que já ocorreram no passado e dos que estão ocorrendo no presente. Futuro não cai do ceú, é construído. Portanto, vamos parar de acreditar nesta bobagem de futuro que já está aí e mãos à obra!

Os Über-bobos

Carga tributária, Senado Federal
Confusão dos fretados, mensalão
Juros da poupança
que lambança!

Satiahagraha
queda do superávit primário,
alô Brasil, sai do armário!

Lá vamos nós
para mais um futuro atroz?

Os über-bobos
a reboque
de toda essa gente escroque.

É isso aí!