Depois de comer os chocolates, será que Forrest Gump sabe o que tem na caixa?

Forrest Gump
Forrest Gump (Photo credit: Wikipedia)

O óbvio é o desenlace esperado, o resultado provável, o cheiro de pólvora depois do tiro. Sempre que a pólvora for disparada, haverá o cheiro. Mas este é um exemplo de um óbvio ululante. Muitas coisas que aparentam ser óbvias, porém, carecem da mesma, digamos, e agora crio um neologismo muito necessário, ululice. A ululice é a qualidade que nem sempre podemos atachar (outro neologismo) a algo que se espera óbvio. O óbvio, porém, mesmo quando não ocorre, não deixará de ser óbvio. Tem a qualidade rara de ser mesmo sem existir. É pelo simples fato de ser aquilo que antecipamos que seria. Como na estória das partículas que teriam viajado a uma velocidade superior à da luz. Partiram antes de terem chegado!

Os adeptos da obviedade permanente apenas alegarão que aquilo que deveria ter sido e não foi (a não ocorrência do fato esperado) foi exceção que confirma a regra. Ainda assim, somos constantemente enganados por estes ditas exceções. Esperamos tranquilamente pelo óbvio, e, puf, como Godot, ele não vem. Decepciona-nos, espanta-nos com sua falta de critério, sua ousadia mesmo, de não aparecer sempre que antecipamos que ele estaria ali, mas ele não está.

A falta de ululice nos atordoa, nos embasbaca, nos destrambelha. Esperamos A, e vem B. Ou C. Pode ?

Reposta, é óbvio que pode!

Não espere o óbvio. Espere o inesperado. Esta regra básica vale quanto mais variáveis forem necessários na relação de causa e efeito. Explico: se para ocorrer o óbvio B (o cheiro de pólvora), é necessário apenas que ocorra A (o tiro), aqui não há escapatória. O óbvio virá. Agora, em situações onde para que ocorra Z (efeito), é necessário ocorrer antes A, B, C, D, e várias outras causas, é neste momento que a ululice some, evapora, escafede-se.

Dito de outra maneira, em relações complexas, o óbvio não existe, a resultante de uma equação com tantas forças distintas atuantes pode ser qualquer coisa.

Dito isto, imagino um diálogo entre Forrest Gump, Duncan Watts, que escreveu o ótimo “Tudo é óbvio”, e Taleb, do também sensacional “Cisne Negro”.

– Watts: Forrest, diz aí, depois de comer os bombons, aí sim você sabe o que tinha na caixa de chocolates, certo ?

– Gump: ué, depois de eu comer os bombons não sobre nada na caixa….isto é o que eu sei! Mamãe sempre dizia: “a vida..

– Watts: sei, sei. Sua mãe usava o senso comum, sabia? Mas ela certamente se estropiou com isso…

– Taleb: sempre surgem cisnes negros inesperados…

– Gump: eu nunca vi cisnes negros, e olha que eu andei por este mundo…

– Taleb: eu não estou falando literalmente, eu me refiro a cisnes negros imaginários…

– Gump: você é estranho, Taleb. O Coronel, ele via coisas estranhas, que não existia, mas só depois de mascar aquele fumo cheirosinho que ele sempre tinha no bolso da calça…Eu nunca vi coisas estranhas que não existem, só coisas estranhas que existem…

– Watts: a distorção da realidade causada por alucinações é tão óbvia

– Taleb: Duncan, agora você está se contradizendo…

– Gump: Hã?

– Taleb: nada não…

– Watts: hei, Forrest, o que realmente quero dizer é quando você sabe a resposta, tudo fica óbvio. Por isso, depois de comer os bombons, você sabe como eram os bombons..

– Gump: Jane sempre queria deixar os bombons na caixa, para ter alguns para depois.

– Taleb: o dilema entre ter o queijo e comer o queijo

– Gump: eu nunca vi uma caixa de bombons com queijo dentro..mas minha mãe sempre dizia: “a vida é como uma caixa de bombons…você nunca sabe o que vai encontrar..” quem sabe não pode encontrar queijo?

– Taleb: um grande e escuro queijo negro!

– Watts: absolutamente contra o senso comum!

– Gump: eu acho que vocês dois tem o fumo do Coronel aí…

10 bardagens totalmente inúteis

1. Falava as maiores platitudes, mas não era platônico.

2.  Neste mundo convergente, ir até o extremo significa voltar ao ponto de partida. Vá sempre só até o meio.

3.  A conquista é 90% transpiração e 10% uso regular de desodorante.

4. Longe é um lugar que não existe, desde que você não esteja falando da Ilha Bouvet

5. Em um elevador, contenha suas manifestações corporais. Não arrote, não espirre, não solte flatulências. Em todos os casos, leve a mão à boca. Para dar certo no caso das flatulências, antes comprima-se ao máximo. Este movimento de compreensão levará você a arrotar, por isso, leve a mão à boca.

6.  Uma meia-verdade é uma mentira inteira, mas isso não torna uma meia-mentira uma verdade.
7.  To be or not to be, I love you e yes we can. As melhores frases da língua inglesa. Mas use-as corretamente: Yes, we can para o seu chefe, I love you para a sua companheira e to be or not be para o seu terapeuta. Não vá falar to be or not to be para a sua companheira, yes we can para o seu terapeuta e, principalmente, nunca fale I love you para o seu chefe.

8.  Paradoxo: quanto mais buraco, menos queijo.

9.  Paradoxo: quanto mais túnel, menos falta para não precisar fazer túnel

10.  Todo futuro é óbvio quando vira passado. Todo passado é incerto quando vira futuro.

As Bardagens

Caros, com vocês, as bardagens. Longe de ser meras bobagens sobre o tudo e o nada, as bardagens são importantes considerações filosóficas sobre a vida cotidiana. Usualmente elas veem em pacotes de 5 ou mais unidades, agrupadas por um tema de fundo comum, como politica, economia, religião, futebol, etc. As bardagens não tem contra-indicação e podem ser consumidas a qualquer hora do dia e da noite, por indivíduos de todas as idades. E se você tiver dicas ou um tema especifico que gostaria de ver abordado com bardagens, escreva para nós. Para inaugurar a série, aí vao as bardagens sobre “O chefe”, esta figura tão…tão….bem, tão adequada para umas bardagens.

  1. Atire como Harry, fuja como Bourne, use o seu taco como Corleone, explique como Gump: Vire CEO.
  2. O campeonato alagoano de futebol tá se profissionalizando. Agora já tem CEO.
  3. Para a grande maioria dos CEOs não existe chefe psicopata, existe empregado com mania de perseguição
  4. Nada está tão ruim que não possa ficar pior, mas o que está bom raramente melhora, então se mantiver a média a sua performance será excepcional. Agora é só explicar isso para seu chefe.
  5. Para certos CEOs triple bottom line não é substantivo, é ação.
  6. Em alguns casos a única saída é usar Change management como verbo. To change the management.
  7. A palavra Chefe vem do inglês, chief, que você deve ler ‘tife”, tá ligado? Em Portugal, para chamar o chefe então fica: Tife.. Ô pá, tife!
  8. Diga-me com quem almoças que eu te direi se és um puxa-saco ou um borra-botas

10. O chefe era tão alienado e a empresa ia a passos tão largos para o abismo que o pessoal começou a usar camisetas com a inscrição: A bordo, Cazzo!

Rasgando o futuro

O homem, provavelmente indignado com os resultados, adentra o recinto onde são declarados os vencedores, apanha as cédulas de votação, foge e rasga os papeis todos, em um ato de fúria. Mas o que parece um ato isolado de destempero, certamente não o é.  Seguro que a turba o incentivou, todos os companheiros que ali se sentiam prejudicados, enganados, só precisavam de um sujeito com menos conflito entre razão e emoção para concretizar a barbárie que muitos almejavam. E este não tardou a aparecer.

O que me interessa, porém, não é analisar o comportamento de um indivíduo incitado pela massa, ou sequer analisar porque aquela votação era mais rudimentar que eleição de síndico de prédio pequeno.

O que me interessa é pensar que aquela atitude, perpetrada por um, mas seguramente desejada por muitos, é o reflexo de um modo de ser que prefere “reagir contra o sistema”, a fazer qualquer tipo de autocritica. É querer impor-se pela prepotência e não pelo Saber.

Pois Brasil afora nos seguimos rasgando orçamentos que não queremos cumprir, seguimos rasgando os boletins da escola que saíram ruins, seguimos rasgando as avaliações dos consumidores que apontam falhas em nossos produtos, seguimos rasgando os votos contrários ao nosso partido. Rasgamos sempre, ao invés de tentar entender nossas deficiências.

Enquanto persistir esta cultura não sairemos do lugar. O primeiro passo para o crescimento é reconhecer seus pontos fracos. O autoconhecimento precede a capacidade do ser de melhorar. Só quem tem autocritica apreende e avança.

2012: Ascensão e Queda dos Pequenos Homens

Este parece ser o ano onde os pequenos homens chamarão muita atenção. Para o bem e para o mal. Muitos cairão. Vão sucumbir ao peso de seus sonhos de grandeza ridículos. Outros infestarão por aí como pequenos mosquitinhos da dengue: você mal os vê, mas eles causam uma barbaridade. Ocuparão espaços. Em 2012, não estaremos sossegados, não teremos paz com estes pestinhas.

A ameaça de uma grande queda vai atormentar o baixinho Sarkô, o nem tem verticalmente privilegiado Obama e o minúsculo ursinho da estepe Putin. E acima de tudo, o ínfimo, o minúsculo, o infinitesimal Chavez. Este, se tudo correr bem, será finalmente levado para a sua máxima pequenez absoluta. Os demais até podem se safar, mas sofrerão, e terão de diminuir ainda mais para se manter acima da linha d’água.

Os pequenos  J Edgar Hoover (mal chegava a 1,70), de Clint, Hugo, de Scorcese e Tintin, de Spielberg aportarão por aqui em grande estilo e terão a árdua e provavelmente inglória tarefa de combater a Dama de Ferro (Meryl Streep). O pequenino Oscar já se movimenta na prateleira. Na direção da Grande Dama, é claro.

Expectativas dignas de Dickens para os italianinhos Modigliani (1,65cm), Caravaggio (1,70) e De Chirico (ok, grego, mas de mãe e pai italianos). Para quem puder, e para fazer contraponto a esta série de piccolli ridotti, em Londres até 5 de fevereiro pode-se admirar as obras de Da Vinci, o grande, que era grande mesmo (1,90cm!), na National Gallery.

O pequeno Michael Bloomkvist vai se curvar, de novo, diante da grande, apesar de miudinha, Lisbeth, já em 27.01.

O cavaleiro das trevas se erguerá, diz o título do filme, mas na boa na boa este quarto filme decretará seu fim nas telonas. E Chris Nolan pelo jeito terá sua pequenez revelada, já que parece que ele não conseguiu se livrar muito de A Origem.

De grandes homens mesmo em 2012, comemoraremos os 100 anos de Nelson Rodrigues e veremos em São Paulo Thiago Abravanel encarnando o Tim Maia. Grande personificando Grande.

Maria Rita vai cantar Elis em março. Grandes mulheres.

Voltando aos pequenos, os endiabrados, enfurecidos espanhoizinhos seguramente vão levantar outra taça, na Euro 2012. Mesmo sem Messi, o pequeníssimo maior de todos, que não pode jogar a Eurocopa, porque, apesar de toda a crença de seus compatriotas, a Argentina não fica na Europa.

O Brasil Grande apareceu muito neste final de 2011, indo para sexto lugar no ranking do PIB. Em 2012, o Brasil Maior Ainda se aproximará ainda mais dos Tigres Asiáticos e mostrará de forma inequívoca toda a sua pujança. Teremos a Golden Week brasileira, da noite de 14 novembro, pré-feriado da República,  até a manhã do dia 21, pós-feriado da consciência negra. Duas pontes seguidas, 6 dias de folga in a row, coisa de país gigantesco, enorme, esparramando em seu bercinho nem tão esplendoroso assim. 

Pequeno, aliás.  Que se fará notar em 2012. Na Rio+20 em julho, para escancarar as deficiências da cidade maravilhosa, nas eleições em outubro para alçarmos de novo vários políticos incompetentes, homens mínimos, homens nulos, aos cargos públicos. É muita pequenez.

Um bando de diminutos, porém, vai vingar a raça destes seres ínfimos e nos fará alegres de novo. Terra Média,  O Anel e, este sim uma pequena grande maravilha, o precioso Gollum. Os Hobbits chegarão em Dezembro, oxalá, salvando o ano da praga de indefectíveis seres mal acabados que não prestam para nada.

Os 12 trabalhos de Hércules, versão Pós-Modernidade

Hercules killing the hydra
Image by ἀλέξ via Flickr

E o grande Hércules, será que daria conta da lista abaixo?

1. Passear no shopping com os filhos, mas sem carteira.

2. Passar mais tempo com os filhos que com gadgets.

3. Encontrar candidatos certos para votar.

4. Exercitar a mente, pensar e aprender sempre. Não sucumbir pela idade. Tornar-se idoso sim, velho não.

5. Ver coisas novas regularmente. Mas no mundo real, não no virtual.

6. Cumprir com todos os papéis sociais, mas manter-se sempre você mesmo.

7. Trabalhar sem ferir nenhum valor.

8. Rejeitar o egoísmo exarcebado e engajar-se socialmente.

9. Não causar nenhuma externalidade ou pelo menos reduzir a sua pegada ecológica ao mínimo.

10. Entender a razão de quase tudo e aceitar o inexplicável.

11. Amar sólida e plenamente.

12. Encontrar a sua causa, aquilo porque vale a pena você estar aqui. Saber qual é sua Ítaca.

Francamente,  diante destas tarefas, capturar o touro de Creta e a Hidra de Lerna, matar o Leão de Neméia e prender o javali de Erimanto, tudo isso é baba.

O Facebook quer saber em que você está pensando

12 Angry Men (1957)
Image by Profound Whatever via Flickr

Curioso, não?  Paradoxal, até. Nestes tempos de tudo ao mesmo tempo, onde você só tem 140 caracteres para sintetizar tudo, a pergunta soa desfocada. Atrevo-me a dizer até que poucos a percebem, passam por cima dela com a velocidade habitual do ato contínuo. Mas vá lá olhar atentamente sua barra de status e confira. A pergunta está lá, como pano de fundo: No que você está pensando agora?

Ora,  e quem tem tempo para pensar?  E, mais, para que pensar, se já está tudo aí pronto, dado de bandeja?

O que vale é o que estamos fazendo, não é mesmo?

Bem, na boa, na boa mesmo, em alto e bom som, NÃO !

Precisamos sim pensar, pensar muito mais, e principalmente antes de fazer.

Só o pensamento transforma o mundo. Ou você acha que Newton estava fazendo algo embaixo daquela macieira?

Só o pensamento inova. Ou você ainda acha que executar as mesmas coisas, do mesmo modo de sempre vai te propiciar algum resultado diferente? A essência da diferenciação é a criação de alternativas, o estudo de opções, a análise de dados. Depois a ação. Para se obter resultados diferentes, é preciso repensar as coisas primeiro e fazer diferente depois. Para ser sustentável é preciso destruição criativa constante. E para criar é preciso pensar.

Pense nisso antes privilegiar a ação acima de qualquer. E pense nisso antes de escrever naquele espaço, a sua barra de status.

O gratificante é que parece que temos uma retomada da consciência em relação à importância do Pensar. A quantidade de informação disponível nunca foi tão alta, mas o tempo para digerir tudo nunca foi tão escasso. A velocidade do copy-paste é tentadora, mas é bom saber que alguns se recusam a adotá-la como modo de vida permanente. Alguns poucos ainda tem vontade de se debruçar sobre o joio e sacar o trigo.

Por isso foi um alento deparar-se com dois textos brilhantes que tem como pano de fundo esta temática, cujas essências reparto aqui. Primeiro, Sergio Augusto, no editorial do caderno Sabático do Estadão, aproveitando um ciclo de palestras sobre a preguiça (veja link aqui, lamentavelmente já esgotado), acabou nos brindando com o que considero as pérolas dos Papas do ócio, aqueles caras que sabiam que o não-pensar era a condenação da raça: O ócio, não confundam, não é entregar-se a uma espécie de “deixa assim para ver como é que fica”, o ócio é o tempo para pensar por excelência.

São os ociosos que transformam o mundo, pois os outros não têm tempo (Camus)

“A primeira prova de uma inteligência ordenada é poder parar e aquietar-se consigo mesmo” (Sêneca)

“Quem não tem dois terços do dia para si é escravo” (Niestzche)

Segundo, o grande artigo de Neal Gabler, reproduzido no Estadão, mas acessível aqui, sobre o mundo pós-ideia, que joga uma luz e tanto sobre o tema.  Neal advoga, no que tem absoluta razão, sobre a vitória inequívoca da Lei de Gresham, que adaptada da Economia para a Nuvem, quer dizer que informação ruim expulsa informação boa. E informação ruim é o que mais tem na Nuvem, o que mais orbita em torno dos sóis da Web.

E ficamos a ver navios, em uma grande Nuvem que condensou o mundo, mas que faz chover apenas fel, uma vez que dela nada frutifica.

Finalizando, deixo uma recomendação de um filme, que, entre outras coisas, evidencia a qualidade do pensar. Estou falando de “Doze homens e uma sentença”, no original: 12 angry men, (pode ser tanto a versão original, com Henry Fonda, como a refilmagem de 1997, com Jack Lemmon, no papel do velhinho obstinado). Não dá para dizer muito sem entregar o ouro. Veja e tire (pense) suas conclusões.

É isso aí!