Vejo Ítaca ao longe

O Tempo é perene, o Vento passa.

Coisas ruins passam, os teus valores são como o Tempo, perenes.

Temos o Tempo para cultivar os nossos propósitos, mesmo que em outras paragens. Propósitos perenes, mesmo que bata um ventinho indigesto de vez em quando.

Os desrespeitosos sucumbem, as tuas habilidades só crescem e serão nutridas ao teu Tempo. Para a perenidade.

Atitudes não éticas podem demorar para emergir, mas emergem. As tuas fortalezas idem. E as últimas o Tempo eterniza, as primeiras o Vento mesmo varre.

A tua credibilidade é para durar todo o Tempo que permitires.

Certifica-te de que tens processos bem robustos e uma estratégia flexível, que te acompanharão ao longo do Tempo. Os ventos até poderão vergá-los, mas somente para que incorporem mais energia para revidar a contento.

A crise, como o Vento, pode até te dar um friozinho na barriga, mas o Tempo,  o Tempo meu caro, tu sabes que ele está ao teu lado.

Quem está obcecado pelo curto-prazo, está preocupado com o Vento, o Tempo é para os que veem ao longe. E para quem te responder que não existe longo prazo sem o curto primeiro, responda que, sob a perspectiva do Tempo, quem não existe é este ventinho tolo.

E o que é um Ventinho, para quem mira Ítaca ao longe?

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When the Winds of Change hits the Wall

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The world might be closing in and we are more and more like brothers, but not every wall is broken down so easily and under festive handshaking and hugs among everybody, like the famous song celebrates. In many cases, such as the creation of a JV or in a M&A, resistance is not to be underestimated.

In every organization, when the winds of changes blows there is much more than just the magic of the moment that plays a significant role. Normally there is also a bitter taste for many of the involved, specially from the side of the ones acquired or with a minority share in the JV. The ability to identify, engage and respect these ones is the key that ultimately will define that the change agents will win or not, and if they win, whether it is going to be a pyrrhic victory or not.

When the winds of change blows straight into the face of time and in the faces of the ones reluctant to change, they tend to act as if they were the Night’s Watch guarding the Wall. They really feel it like a storm wind, like if the coldest winter of them all would be coming (and it is coming!). Peace of mind, and organizational order will only be reached if you conquer them. They can never be defeated.

The Night’s watch normally takes nothing easy. Nothing shall pass. They defend bravely their positions, they have a history, and they feel belonging to something bigger. They do not want to take any crowns or glory. But they see themselves as shields guarding something real big. You cannot just come and blow everything into the air. They will need to believe in you. You have to make them see that the change is best for them and for the children of tomorrow.

No change agent wants to reign over a devastated land, a land depressed under a permafrost of ice and snow, like Pyrrhus had to. This is no victory, this is no change. It is only destruction. A true change agent wants to hear the balalaika.

Mudança

De saber-se um crápula exalava com precisão os maiores impropérios. De achar-se um divino executava as maiores imprudências. De ter subjugado a todos mantinha os olhos fixos no nada.

A tudo e a todos igualava na baixeza dos tratos, na imundície dos pensamentos, na agressividade dos gestos. Pensava-se o maior. Aquele que não tem nem nunca tivera nenhum igual, a referência, o Um.

Foi quando se sentiu apunhalado vigorosamente, a espada cravando-lhe o coração bem no meio. Da horda de seguidores surgira aquele vergalhão imenso. Da multidão disforme havia se sobressaído Algo Novo, ganhado altitude e força e sobre o Um lançou-se como um bólido de videogame. O atingiu e se foi. De relance, Um viu Algo Novo voltando a se imiscuir entre todos, mas não sem antes poder perguntar:  “Como te chamas”. Algo Novo,  já percebendo a vitória iminente, responde, altivo: “Sou a mudança,  o que ainda não vês, mas que já te rondava havia muito. Fostes demasiado obtuso, o teu riso sempre presente, e não te destes conta, o poder te fragilizou”. O que antes era o impiedoso Um se desmantela diante de Algo Novo. “Incorpore-se a mim, implorou o Um,  juntos seremos ainda maiores e imbatíveis”. Algo Novo contesta: “Não percebes que já estás caído. Logo, logo te farei arder, já não podes mais. Resigna-te”.

E o Um fenece. Um que antes era tudo, já nada. E resplandece Algo Novo. Instantes depois, porém,  já se percebe neste os mesmos certos sinais que eram tão comuns em Um, os lábios vão se aproximando das orelhas lentamente, o que com certeza surge é um sorriso.

Na multidão, candidatos já se agitam. Algo Ainda Mais Novo já desponta célere e começa a sobressair da horda de seguidores com uma faca afiada na bainha.

Vou te contar…RH

Saiu de casa pontualmente às 7h40, assim, quando aquele comentarista começasse a falar no rádio, já estaria confortavelmente dirigindo pela estrada, onde podia prestar atenção aos comentários dos quais tanto debochava. Como se aqueles caras soubessem como é a vida nas empresas. Exultava de prazer, ouvindo o que considerava as maiores baboseiras e acumulava estórias para a sua palestra de aposentadoria, diante da Diretoria da empresa: Já tinha o título pronto fazia uns dois anos: “O erreagá que não se entrega e entrega”.

Desta vez o comentarista falou sobre os pecados na hora da entrevista de emprego, mas ele se distraiu, pois preocupado estava em acabar hoje a política da empresa para assédio sexual e mandar para publicação. Gostava particularmente do capítulo que definia que um abraço entre colegas poderia durar até dezoito segundos, mais do que isso, era assédio!
Ficava excitado imaginando ter a D. Rosinha por dezessete segundos contra o seu peito, diariamente. Precisaria apenas lembrar de colocar o remedinho debaixo da língua antes, para evitar uma taquicardia.

Ligou para a caixa postal, para se certificar de que não havia recados. “Você não tem novas mensagens”, repetiu a voz e ele se refestelou no banco, a mão para fora do vidro, e ajeitou o som do carro. Instintivamente, pensou no passeio do final de semana, e colocou o CD do Bruce. “born to be wild” começou a rasgar os tweeters…

Quando chegou na empresa, D. Rosinha o aguardava ansiosa.
Que foi mulher, aumentaram o salário mínimo hoje?
Pior seu Antonio, reunião extraordinária de Diretoria.
Pauta?
Fusão.

Antonio Eduardo de Souza, o enérgico, conhecido como AES por suas descargas elétricas destemperadas, coçou a cabeça e desalinhou a massa grisalha que mantinha insistentemente jogada para trás.

Por que não me telefonou para avisar D. Rosinha?
Não queria que o senhor chegasse nervoso, chefe.
Mas agora eu já estou nervoso, pronto. Nervosíssimo! Você sabe quem é a diretora de RH daquela empresinha com a qual nos estamos entrando em parceria?
Aquela sirigaita?
Ela mesma.

AES sabia que não teria chances. Toda a diretoria babava pela D. Cindy. Ele seria dispensado, ou, suprema humilhação, rebaixado a assecla da D. Cindy. Logo ele, que sempre teve o cuidado com as pessoas, que tratava cada demissão como um caso de morte. Sim, porque quando AES chamava na sala do quinto andar, risco de vida é que não havia.

Entrou na sala, todos já reunidos. Cindy tinha um decote generoso. Estratégia de ataque.

AES tomou assento e mergulhou no caos. Cindy discursava enfaticamente:

….e portanto, vamos redimensionar os parâmetros, através dos benchmarks que o survey do nosso pessoal de Business Inteligence apontou e gerar uma estrutura mais lean, mais focada no delivery, e com isso aumentamos o committment do grupo, e…

Cindy parecia acreditar naquilo. Ele estava boquiaberto. Todo aquele discurso bárbaro. E ainda tinha os peitos de bônus.

Senhor Souza, o que o senhor acha da proposta?

AES pigarreou…

Rã, ham…eu achei um risco.

Um risco?

Sim. Um risco. Devemos levar em consideração os montes, as massas sustentáveis, que sobejamente flutuam, acima de nossas expectativas. É inquestionável o valor também do vale, entre as massas sustentáveis. Ali vislumbramos o risco. Um belo risco profundo. Não podemos desprezar os vales, não, jamais! Não estaríamos sendo justos. E os bicos, quero dizer, os picos de performance, eles precisem ser melhor avaliados pelas políticas internas. Com carinho, com mãos delicadas, para não causar um frisson além do necessário. Vejo dois picos importantes em um futuro próximo, portanto, temos de nos preparar, tomar as medidas com antecedência. Sim, nada pode sair errado. Um aperto mais efusivo e pof! A coisa toda pode explodir. Eu não gostaria que fosse artificial, mas pode ser. Hoje em dia….Portanto, muito cuidado. Eu acho que eu estou qualificado para cuidar destas massas, destes vales, destes picos.

A Diretoria, embasbacada com o discurso vigoroso, e pleno de entusiasmo, aplaudiu o Senhor Souza de pé. Com ele, a fusão seria um êxito!

Vou te contar…

Não há mudança sem aprendizado, não há aprendizado sem motivação.  Segue a Fábula:

Eles chegam com a voz mansa, olhares simpáticos, gestos cuidadosos, passos sutis. Não parecem atuar através da força, querem te conquistar e te fazer seguidor do que professam pelo poder do convencimento. Nunca se mostram em desavenças, nem a mais mínima, para não macular o comportamento asséptico. Não se deixariam agarrar por qualquer trocinho. Divulgam que O Método não pressupõe impor a Visão, mas sim torná-la um objetivo comum. Nobilíssimo. Espaço aberto para o uso de figuras de linguagem. Os mais belos pepetês, com veleiros singrando o mar azul, gansos em formação, a flecha na mosca. Nenhum erro. Não há espaço para nada menos que o cume.

Uma diminuta resistência, porém, está à espreita. Quando ela se manifesta, O Método responde com ação. Então eles não cumprem o que professam. Apresento-lhes a Discórdia. O manto negro do Senhor Tempo, aliado d’Eles desde o principio, rapidinho começa a se arrastar pelos corredores, ocupar todos os espaços. Trombadas com os espectros surgem a toda a hora. O negrume é tal que não há refúgio. Breu cegante, atmosfera irrespirável, sufocação constante.

Mas há uma inércia que nada move, e então urge a execução implacável do programa. O Programa. Escrito em pedra. É o credo d’Eles. Há uma força inexpugnável n´Ele que os empurra rumo ao topo. O discurso é tudo com palavras que parecem cheias de nada, ou de vácuo. Muitos dos nossos se apequenam, somem reduzidos atrás das baias, das montanhas de papel. Se fossem pisoteados não seriam menores.

Todavia, segue a resistência, resoluta. Alguns armam a defesa em barricadas improvisadas. Um Quixote com sua lança digital atua no email, propagado com precisão. No café, trincheira ideal, vários minúsculos Brancaleones discutem o próximo plano infalível, que será obviamente dizimado com dois slides. A sala de reunião do canto, no último andar,  ao lado do data-center é o QG. Lá vemos nosso Pirro, pensando a sua estratégia final devastadora, mas também suicida, enquanto admira a chuva gotejando a janela, sua micro-conspiração abafada pelo ruído dos poderosos refrigeradores de dados.

Os Tolos Generais defendem o impossível, mas é o mínimo que podem fazer. No último andar, a Invencível Armada já está se aprontando para mais um Comunicado Oficial, que navegará virtualmente, mas tão solene quanto a própria Tábua de Moisés. É imperativo, pois da discórdia para a dissonância total a linha é um tico. Do fundo das crenças, nossos tacanhos Generais sacam uma última arma, já com os flancos desguarnecidos. É ínfima, ridícula, sôfrega, mas se pudesse ser dita literalmente sairia forte, máscula, soberba: “A hipocrisia não é válida como ferramenta, portanto como crer na excelência por uma via tão torpe”?
Ao que a Armada não pode responder, não porque não quer, mas porque o Método diz para jamais se curvar diante do reles inimigo. E sabe o que Eles fazem quando não há respostas? Quando não podem vencer pelo argumento? Citam. Todos os Grandes vêem em auxilio do Método. O Programa está salvo.

Mas os Quixotes e  Brancaleones nunca desistem. Armam às escondidas o próximo movimento sincronizado da revolta silenciosa. Pirro, porém, sempre ganhará, mas o que terá para comemorar? Onde está a Mudança?

Fusões e Aquisições – O círculo vicioso da não-mudança

Um dos grandes temas em M&A´s é a busca pelo rompimento. Há que se romper com Visões que deixam de ser válidas, com Estratégias que perderam o sentido, há que se romper também com diversos paradigmas para se avançar na construção de um novo futuro. Muitas vezes esse novo futuro será construindo com aquele que até ontem era seu inimigo ferrenho. O Brasil está repleto de exemplo recentes: Itaú e Unibanco, Gol e Varig, e agora Perdigão e Sadia, para ficar nos mais renomados.

Como lograr o rompimento é a chave do sucesso. É claro que na história de sucesso dos comprados existem coisas valiosas que devem ser preservadas. Romper sem jogar fora aquilo que é valioso é um desafio e tanto.  É como diz o professor Mário Sergio Cortella, do passado podemos ter saudade, podemos honrá-lo, mas não podemos ser nostágicos, apegados demais. Saudade é bom, nostalgia é doença.

O maior rompimento é aquele vinculado ao aprendizado. Quem não se dispõe a aprender não se atualiza, envelhece. Em uma época onde o conhecimento é imprescindível, isso é suicídio organizacional. Aquilo que eu sei e que foi útil na minha empresa antiga pode perder o sentido rapidamente e o Novo deve ser buscado.

É por isso que um dos maiores desafios em fusões é a identificação daqueles membros da organização que se recusam a revisar seu passado, se recusam a tolerar as novidades. Onde encontrá-los? Via de regra estes são os que sempre encontramos reclamando das coisas nas rodas de cafezinho, pelos cantos em geral. Não é difícil encontrá-los. Mas a chave da questão é outra: por que eles estão reclamando? Por que se recusam a aceitar o Novo? E aí vamos nos surpreender. Vamos ver que a culpa pode não estar neles, e sim no círculo vicioso da não-mudança. Explico: suponhamos que você na sua empresa anterior detivesse um certo conhecimento específico, de um processo qualquer. Bom, na empresa nova este processo não é mais utilizado, então a empresa pode “se lixar” para o fato de que você sabe o que você sabe. No momento em que isto ocorre, o seu conhecimento estaria sendo desprezado. Tudo aquilo que você aprendeu, não vale nada. Se é assim, como você reage? Passa a ver as coisas novas com muita decepção. Esta decepção é a mola propulsora da sua resistências às novidades. Você não quer mais aprender! E se você não aprende coisas novas, a empresa nova não reconhecerá você. Percebeu o círculo?

É isso aí.

Mudança e Aprendizado

Quantos de nós já não escutou os tubos sobre “Gestão da Mudança”? Desde as regrinhas de Kotter até “O Monge e o Executivo” e “Quem mexeu no meu queijo?” pululam regras e macetes para “liderar” a mudança nas organizações. Bem, neste caso, não adianta: você só muda se quiser mudar.  E é incrível como muitas vezes nós esquecemos de pensar sobre o que é, exatamente, mudar. Volta e meia eu me deparo com esta questão, e após ler um belo livro do Charles Handy, aprendi de vez: mudar é aprender. Explico melhor se partimos do começo:  o que é aprender? Muitas vezes confundimos o processo de aprendizado, lembrando-nos do tempo de escola, onde éramos obrigados a estudar e muitas vezes decorar coisas. Isto, para  a grande maioria das pessoas,  não é aprender. E por quê não? Pelo simples fato de que você não está incorporando um conhecimento novo que responda às suas próprias indagações. É um conhecimento temporário que você vai apagar da sua memória quando não lhe interessar mais.  Ou alguém ainda lembra de quem foi o primeiro conselheiro de Luis XIV, ou da capital da Bielo-Rússia? Bem, eu lembro por que me interessa, mas certamente, para a grande maioria das pessoas, este é o típico conhecimento descartável. Estudar respostas para as questões dos outros não produz aprendizado. O verdadeiro aprendizado, como nos mostra Handy, é aquele que se origina da curiosidade ou da necessidade de um saber algo novo porque eu quero saber. Eu quero resolver uma indagação que é minha. Isto gera aprendizado, mas desde que eu passe pelo ciclo completo. Sim, o aprendizado tem um ciclo: Qual é o Problema, quais são as possíveis respostas (Teorias), vamos ver a aplicabilidade das mesmas (Testes) e a Reflexão a respeito dos resultados (por que isto deu certo e aquilo não?). Quem só ênfase nas  perguntas, e não se preocupa em buscar as respostas, testá-las, etc., está só sendo um Auditor. “por quê isso, por quê aquilo?” As respostas que deem os outros. Quem só fica na teorização é um mau-acadêmico. Daqueles que adoram se intrometer nas dúvidas dos outros, colocam um monte de citações nas suas justificativas, mas não provam nada, nunca. Quem só quer partir logo para ação, os hiper-pragmáticos, não teem garantido que um eventual êxito possa ser repetido, pois ele não testou nada, só fez o que estava mais ao alcance da mão e, mais importante, não refletiu a respeito, o que é mais importante ainda. Se perguntado porque aquilo que ele fez deu certo, não saberá responder.

Para aprender, portanto é preciso transcorrer todo o percurso, etapa por etapa.

Agora, o link entre aprender e mudar fica nítido, não?

Mudar, e principalmente no jargão empresarial, não é fazer as coisas de outro jeito, melhor? Adotar o Novo? Ora, como, senão aprendendo outro jeito, aprendendo aquilo que é novo?

É isso aí.