Uãnuei – Duplo Retorno

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Como comentar uma peça que não será a mesma que você vai ver? No teatro do improviso, não há texto pronto, não há pré-concepções, não há nada. Cada apresentação é única. Os atores criam um enredo a partir de um texto sugerido pela platéia. No caso de Uãnuei, Pedro Cardoso e sua esposa, Graziela Moretto, conseguem em duas partes curtas, de 30 minutos cada, criar situações cômicas que cativam o público, que, se desde o início se confessa inexperiente com a proposta, ao mesmo tempo, está curioso para ver no que aquilo vai dar. E o que resulta é explosão de talento em estado bruto, sendo lapidado na hora, diante da platéia. A criatividade é a tônica do espetáculo, e mesmo o “erro” deixa de sê-lo, pois ele é interpretado como apenas mais uma opção de narrativa, que deixa então de ser emergente e passa a ser a principal. Quando os atores se veem diante de um beco escuro, sem saída, até um corte abrupto e a rapidez com que eles incorporam novos personagens é evidência de virtuosismo e se converte em pontos ganhos junto ao público.

O mais bacana, porém, é a disposição da dupla de discutir esta abordagem inusitada, o que eles fazem em um descontraído bate-papo no encerramento de cada sessão. Só esta parte vale pela possibilidade de desmistificar os ídolos, desnudar o processo criativo dos atores, pelo seu didatismo. Pedro já havia recentemente nos brindado com uma excelente performance em Os Ignorantes. Agora nos mostra, no mesmo nível, o ato teatral mais visceral. Ainda dá para ver antes do Natal, hoje e amanhã.

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Os 39 degraus – uma avaliação

Cheio de soluções criativas, principalmente na cenografia, Os 39 degraus agrada bastante.  A peça, em cartaz no Teatro Frei Caneca, é uma boa adaptação. Embora os produtores tenham mantido a ambientação em Londres e na Escócia, o texto foi recheado de referências ao cotidiano brasileiro, com ênfase, nestes tempos de eleições, ao cenário político. E tudo entra à perfeição, com sutileza e graça.  As soluções encontradas para a ambientação (em um trem, em um carro, a ponte, a fuga, entre outras) são brilhantes. Invariavelmente, ao optar pelo mais simples, estas soluções abram mais espaços para o brilho dos atores. Eles são quatro, e três deles (Danton Mello, Fabiana Gugli e Henrique Stroeter) se revezam em inúmeros personagens, cabendo a Dan Stulbach manter a linha narrativa sempre como Richard Hannay, o inglês por excelência, que é “envólvido” em uma trama de espionagem, acusado de um assassinato que não cometeu.

Alguns personagens são impagáveis, como a espiã alemã de sotaque marcante e trejeitos hilários e o pobre fazendeiro escocês. As trocas de caracterização, no entanto, não são tão sutis como em Irma Vap, com a direção tendo optado por uma linha mais escrachada.  Funciona, mas escapa-se do clássico em favor do histrionismo.

As homenagens a Hitchkock vão se sucedendo, pelo menos três outros filmes do diretor  são citados e o enredo funciona bem até a cena final, que, para mim, ficou exagerada demais. Único senão em uma montagem que, do contrário, acerta em cheio no ritmo e no tom.

É isso aí,

Revisitando o Patinho Feio – Gypsy

Se alguém não conhece a história de Gypsy, e o espetáculo começa com você no teatro, (na platéia, bem entendido), pode pensar que está diante de um equívoco e que acabou entrando em uma peça infantil por engano. São muitos números protagonizados por crianças, por isso o espanto deste cronista. Mas tais números dão uma certa graça à montagem, apesar da simplicidade. Não há nenhuma música excepcional, mas a maioria delas funciona, apesar de algumas rimas muito pobres em várias. Quanto ao enredo, (spoilers) é a história do patinho feio, quase tal e qual, com nuances interessantes, principalmente na parte final, da transformação em cisne (sem aqui entrarmos no mérito dos caminhos trilhados pelo patinho para virar cisne, que fique claro).

O primeiro ato, apesar de inteligente, é pouco atraente para entusiasmar o público com o que o intervalo fica com um gosto meio-amargo. Alguns ensaiam o desejo de ir embora. Mesmo assim, há um espaço excelente para o vozeirão de Totia Meireles reverberar pelo Teatro inteiro.

A transição para a fase adulta dos protagonistas, com um número de sapateado, que simboliza a passagem do tempo, é muito bem orquestrada e se dá como que conjuntamente com a passagem para a segunda parte. Onde temos, na verdade, um salto de qualidade e emoção. Este ato basicamente retrata a vida adulta de Gypsy, e agora explicamos um pouco quem ela é, a irmã esquecida, ou deixada em segundo plano pela mãe durona e competitiva, na sua tentativa desesperada de “vender” a irmã supostamente mais capaz, mas que na verdade ostenta as projeções de sucesso dela mesma (da mãe). Projeções infrutíferas, pois de fato, não se traduzem em talento real. O burlesco toma conta e alguns personagens muito criativos entram em cena, como as strippers e seus números bizarros, mas sem nunca ser demasiadamente vulgar ou escatológico. Há mais vivacidade, cor e entusiasmo. A tensão entre Gyspy, nossa teórica cisne, e a mãe cresce até o limite e se converte em um ponto alto da encenação.
Gypsy, então, enfim mostra a que veio e se converte em um bom musical. A saída tem a todos mais aliviados e satisfeitos, desfezando-se no ar a impressão do intervalo pesado. Resumo: vá ver.

É isso aí.

As meninas da Maitê

Elas estão sensacionais, elas ocupam os espaços, nos transportam para onde querem. Várias vezes nos esquecemos que é um velório. Os recursos cênicos são poucos e trazem leveza para o palco. Como o tema é pesado, gostei do uso excessivo do branco, que relaxou o ambiente. Os grandes painéis que giram também agradam e fazem bem o papel de mostrar/esconder os atores nas transições do mis-en-scene, e também na transição vivo/morto.

A riqueza e a beleza do espetáculo independe de ser o mesmo autobiográfico ou não. A propriedade de encantar se faz quando o espectador mergulha de olhos fechados no que está vendo, mesmo que não tenha referência nenhuma sobre o enredo, a trama, o ambiente apresentado, e se deixa embriagar pelo que vê.

É o que acontence nesta peça. As atrizes entreguem performances a maioria delas excelentes e o texto é leve, sugestivo, recheado de momentos saborosos. É um universo por muitas vezes feminino demais, quase impenetrável, mas eu tomei um porre.

As “crianças” fogem de qualquer momento taciturno e impedem que aflore a pieguice. Há que se aplaudir especialmente Clarisse Derzié Luz, que interpreta com brilhantísmo vários pequenos papéis. Não só mudava o figurino para compor a nova personagem, mas mudava também toda a sua forma interpretativa, descortinando nuances em cada nova encarnação.

Elas são as meninas, as moças, as senhoras, as velhas e as defuntas da Maitê. Não perca.

É isso aí,

Dois atores, duas cadeiras. E só.

Em tempos de malabarismos tecnológicos, onde pipocam as maiores bizarrices, como câmeras na mão dos atores e telões ao fundo do palco, duas peças nos brindam com o melhor que o teatro pode oferecer, mesmo que seja no século XXI: um texto inteligente e ótimas performances dos atores. É o caso em duas montagens hiper-minimalistas deste começo de ano: Anatomia Frozen e In on It.
Cenário: zero, somente os atores e duas cadeiras (bem, três no caso da primeira, mas é a mesma coisa).
Texto: fortes, criativos e densos. Anatomia Frozen tem um tema extremamente difícil, que é a pedofilia e assasinatos em série. O texto de Byrony Lavery é direto, e a montagem opta por uma linha linear para a condução do drama, o que facilita o entendimento. Já em In on it, as idas e vindas do texto de David MacIvor, e o fato de que os atores assumem 10 personagens distintos, demanda mais do público. Veja no blog roll aí na coluna do lado o link para o blog da peça, aqui no wordpress mesmo. Tem muitas informações sobre a peça.
Performance: um primor, os atores dão um show em ambos casos. Em Frozen, a sutileza dos movimentos do ator que interpreta as duas mulheres é o melhor e em In on It, a suave transição entre comédia e drama é sempre muito bem feita. Belo jogo de iluminação e criativo o posicionamento em cena dos atores.

Ambas valem o ingresso. É isso aí,

Ridículo?

Dostoevsky

Fui ver “Sonho de um homem ridículo”, em cartaz em SP no teatro Ágora, que é uma nada ridícula empreitada do Celso Frateschi. O monólogo é brilhantemente interpretado pelo ator e o acanhado espaço do ágora em uma noite quente de verão ajudou a deixar tudo sufocante e exasperante ao extremo. Mas me interessa mais o texto de Dostoyevski: nele temos o desespero de um homem acometido pelo desejo de acabar com a vida. Desiludido com a natureza humana. Em seu sonho, temos a figura do bom selvagem, na imagem do planeta de pessoas puras, sem vergonhas, medos e inveja, que são “pervertidas” pelo homem civilizado, pela ciência. Aí está o supra-sumo da verdade absoluta da Tábula Rasa: o homem é bom, essencialmente bom e a mente pode ser construída inteiramente pelas experiências, pela formação. Essa crença, sabemos, perspassa a Cultura Ocidental desde Descartes e vinga por todo o Iluminismo e chega até os nossos dias. Há quem só veja em Levi-Strauss, por exemplo, erroneamente, esta visão também, e aí já adentramos o século XX. Mas eis que a Genética Moderna surge e nos coloca de volta no prumo..Ora, ora, incrivelemente, Dostoyevski escreveu o “sonho” em 1877 e apenas quatro anos depois, em 1881, em “Os Irmãos Karamazov”, temos este trecho esclarecedor:

“Imagine: dentro, os nervos, na cabeça –isto é, esses nervos estão lá na cabeça…(malditos sejam!) há uma espécie de rabichos, os rabichos desses nervo, e assim que começam a tremular…quer dizer, eu olho para alguma coisa com meus olhos e quando começam a tremular, esses rabichos…e quando tremulam aparece uma imagem…não de imediato, passado um instante, um segundo..e então algo como um momento aparece: quer dizer, não um momento – ao diabo com o momento!-, mas uma imagem, isto é, um objeto, ou uma ação, droga! É por isso que vejo e então penso, por causa destes rabichos, e não porque eu tenha uma alma nem porque eu seja alguma espécie de imagem e semelhança. Tudo isso é bobagem! É magnífica essa ciência! Um novo homem está surgindo – isso eu entendo…mas lamento perder Deus”.

Curiosa passagem da “Tabula Rasa” para o geneticismo absoluto. Mas não deixem de ver o Celso, é teatro da melhor qualidade.

É isso aí!

Vestido de Noiva

Bem, não gostei da montagem de Vestido de Noiva atualmente em cartaz no Teatro Vivo em SP. Leandra Leal ficou muito artificial, toda cheia de trejeitos estranhos, acho que não foi uma boa caracterização da personagem. Quanto aos demais atores, que dizer? Nenhum papel tinha força suficiente para que o desafio da interpretação ficasse interessante, a exceção talvez do papel chave de Madame Clessi que foi bem encarnado por Luciana Carnieli. Tirando isso, uma profusão de desacertos.