O outro “cara”

Ele já estava lá fazia muito tempo. O cara. The Dude. The one and only. The guy inside the guy, behind everything.

E ao longo do tempo ele veio se transformando, ganhando espaço, expandindo-se lá dentro, até chegar ao ponto de explodir feito uma enorme pipoca em uma panela sem tampa. Querendo saltar para fora.  De dentro de mim. Mas pedindo para sair.

Uma coisa assim meio “pede para sair, zero-um, pede para sair”!

E enfim saiu. Defequei-o abruptamente (ué, e por onde mais poderia sair coisa tão grande?) . A tal pipoquinha havia se convertido na única forma de combate possível contra tudo isso que está aí.

Virei The Dude.

Quando o liberei, libertando-o das minhas entranhas nojentas, ele foi logo tomando a minha forma e saiu pelo mundo.

Descompassado. Fora do ritmo. Trôpego. Mas era o novo Eu.

Nem aí para neguinho buzinando, fulano gritando, sicrano zoando. The Dude não se abala. The Dude reveste-se de leveza, paira sobre todas as circunstâncias, flana sobre as emergências. É  a própria incarnação d’ “o acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído“, (valeu, Arnaldo)!

The Dude é um cara (olha a redundância aí!) legal. Um cara sempre na boa. A modernidade não o pegou, da pós-modernidade então ele não conhece nem o cheiro. Não há o que faça The Dude correr, não há o que o faça sequer acelerar o passo ou trotar.  The Dude só anda arrastando os pés, tamborilando suas sandálias gastas nas calçadas e com as meias furadas (sim, The Dude usa sandálias com meias, The Dude tem algumas coisas de Alemão) . Quando não anda assim ele está deitado, descansando de seu constante estado de exaustão imaginária. The Dude não se deixa acelerar, mas freia por qualquer inutilidade. Ele tem seu não-ritmo próprio, seu estilo inconfundível de se mover sem sair do lugar.  The Dude não tem chefe, ninguém manda em The Dude a não ser sua ocasional vontade de comer algo ou fazer necessidades.  Não assume compromisso com nada, não tem nenhum papel social a cumprir. Não desempenha nada, não faz performances. Não observa religião, tampouco advoga em prol de alguma causa. The Dude evita desgastar-se, ainda que pague algum preço por isso. Mas nada importa para The Dude, nem o fato de ele não ter nada. A vantagem disso é que ele tampouco reclama. The Dude simplesmente é.  Live and let live.

The Dude é The Dude e pronto final, como diz uma conhecida.

(inspirado por “The Big Lebowski” , dos irmãos Coen) . The Dude abides….

Vou te contar…O 29

Meu Tio vinha no 29. Quando eu ia para a escola, esperava no ponto pelo 29, mesmo que demorasse mais, e na volta também o esperava. Outros da minha linha, da mesma viação, passavam e eu ali, estanque. Eu tinha de embarcar no 29. Meu tio liberava a catraca para mim. Era o meu momento de impunidade, de exercício (passivo!) de nepotismo, de abuso de poder. O 29 não era dos melhores, mas e aí? O 29 cumpria o seu objetivo. E meu tio, não sei como, fechava o caixa no final do dia, mesmo sem me cobrar duas vezes. Provavelmente ele não bancava a conta, o salário dele não daria para isso. Nunca perguntei para ele, porque favor não se explica, mas desconfiava que os demais passageiros pagassem a fatura. Eu nem aí. Muitas vezes. ia até o fim da linha com ele, os passageiros iam saltando,  e eu ficando, no fundo do carro, vendo meu tio iniciar os trabalhos de contagem e ensacamento daquela moedama toda…Era uma diversão ir até o fim da linha, ser o último a sair. Nas últimas paradas já não havia movimento algum, e meu tio começava a cochilar, mesmo com aquela trepidação toda das ruas de paralelepípedos. E a moedama tilintando loucamente.
No tempo do meu tio, sem a tecnologia de hoje, era tudo no dinheiro, nada de cartões magnéticos previamente carregados. Os saquinhos de moedas, cheirando a níquel, azulados, eram imensos. Moedas de um, dois, cinco, dez, e cinqüenta centavos. E as enormes moedonas de um cruzeiro. Notas, quase nenhuma. Os bolsos do meu tio estufavam de saquinhos de moeda, pesadíssimos, uma bolsa de naca que ele levava no ombro e caia sobre sua barriga imensa também. Uma vez imaginei meu tio sendo tragado por um imã gigantesco, que alguém içava pela janela de um andar alto de um prédio. Imaginei que o prédio ficaria penso para frente pelo peso de meu tio, subindo grudado ao imã. Peso que eu supunha já ser absurdo com ele nú, quanto mais com os sacos de moedas.

E meu tio vinha com aqueles sacos todos os dias para casa, morava com a gente, que era mais perto para ele sair para o trabalho. Os ônibus largavam cedinho do fim da linha. Daí lá ia meu tio, para o fim da linha, cedinho, a camisa para fora da calça, os botões estourando, a barrigona aparecendo, e ele já suando logo de manhãzinha, uma cinza de cigarro dormindo na curva da pança, outra quase caindo do canto da boca para lhe fazer companhia. Achava que meu tio dormia fumando e com os sacos de moeda nos bolsos. Parecia usar sempre a mesma roupa. Aliás, o estado do 29 parecia combinar com o meu tio. Nem dava para imaginar meu tio no 33, aquele carro novíssimo, com freio a ar, cujo assento do motorista subia e descia com ajuste hidráulico e que tinha um painel era luminoso, anunciando a linha com galhardia. Não, definitivamente, meu tio pertencia ao 29, onde ele sentava de lado para a barriga não encostar na caixa do dinheiro.

E chegava o carro ao destino, e subia o fiscal:

– Fim da linha, salta aí rapaz, ou tá pensando que vais voltar sem pagar?

Vou te contar…O Bolo

Desde que o vi me interessei. Assim, à primeira vista, tinha um aspecto ótimo, e literalmente, exalava uma aura super cheirosa. Era, mal comparando, sardentinho, salpicado de pintinhas brancas, passado por uma chuveirada de açúcar como certamente foi e que o teria deixado dulcíssimo na superfície, esta era a expectativa. Era para ficar ali, na forma, intacto, até esfriar um pouco mais. Pena. Aquela tentação olfativa, tinha de ser deixada sem tampa, para evitar que se formasse vapor no interior da forma, vejam só, vapor este que o poderia deformar. O que seria lamentável. Portanto, aberto e exalando o aroma irresistível, assim ele iria nos acompanhar na viagem. Por várias vezes, minhas papilas queriam saltar da língua. Mas fui bravo, heróico até, pois a viagem foi excruciante, com ele ali por perto, perturbadoramente inalcançável. Cheguei tarde, e fui deitar. Mas não o esqueci. Fiquei com ele, me revirando na cama. Dormir seria abdicar do seu aroma, ir para o desconhecido sem a sua companhia. Acordei com um apetite avassalador, como se meu subconsciente, ou o inconsciente mesmo, tivesse se mantido alerta, inebriado pelo desejo. E eis que o vejo ali, um pedaço dele sobre o balcão. Quieto, inerte. Tinha se convertido em uma presa fácil. Conservava a postura galante, firme, retesado, mesmo sendo só um pedaço. Vislumbrei que não seria como aqueles que se esfarelam ao toque da faca. Não, lógico que não. Imagina. Seria um bolo estupendamente correto, agüentaria bravamente que o sacrificássemos na lamina fria da faca. Afinal, para isso que servem os bolos, para serem trucidados em cortes ríspidos e certeiros, para se submeterem aos nossos desejos farináceos os mais torpes. Pois então, rrráaa, o ataquei de súbito e fui logo cortando uma fatia, cobrindo-o com nata, esta outra dádiva láctea inefável, outra hora falamos dela. Aí a coisa ficou inigualável, imbatível, insubstituível. Um belo bolo de fubá com um algo mais (será laranja? Será canela? Serão ambas as coisas? Uma formula secreta?). Não importa. Aquilo foi para a ávida boca e senti como se a umidade relativa do ar estivesse em 100%. Salivei os tubos, poderia ter dado uma enorme contribuição para acalmar o clima seco do Sudeste. Muito hesitei entre mordiscar suavemente, e saborear por mais tempo aquela gostosura, ou deglutir vorazmente pedaços e mais pedaços, para saciar de vez o tesão por aquele bolo. Hummmm. Fiquei com os dois. Ora maltratava a minha Gula, ora sentia as reclamações de minha Glote, que não parava de desviar para dar passagem àquelas maravilhas. Nunca antes nesta boca houve semelhante bolo.

Vou te contar….O Teste

De repente, desenvolvi a necessidade de aplicar um método para classificar os amigos. Pedi uma vez para um deles faltar à formatura da filha, porque seria imprescindível que nós fôssemos juntos ao futebol, acompanhar nosso time do coração no amistoso pré-temporada em Cacimbinhas da Serra. O cara topou, e eu o classifiquei. Em outra ocasião, solicitei que o amigo desse um banho na minha cadela dobermann, que estava muito raivosa porque eu a estava deixando sem comer por uns dias, para participar de uma pesquisa do veterinário. Eu mesmo não poderia dar o tal banho, porque estava resfriado. Meu amigo topou e foi classificado. Creio que cheguei ao ápice com um outro camarada que me acompanhava desde os tempos da escola primária, tínhamos ido à faculdade juntos, compartilhamos os mesmos ideais políticos, as mesmas estratégias para conquistar as mulheres, que não davam certo para nenhum de nós, fumávamos tudo e bebíamos todas sempre juntos na juventude. Pedi para o cara, assim do nada, dirigir na contramão de uma via expressa, para provar que o que deveria importar não eram as regras convencionais do transito, e sim a força do veiculo. Eu mesmo não podia fazê-lo, pois não tinha um carro adequado. O cara topou, e depois de regressar incrivelmente ileso, o classifiquei. Mas classifiquei, porém, todos os três, sem exceção, não mais como amigos, mas como loucos, atarantados mentais de primeira categoria. Sim porque não queria eu amizades incondicionais. Eu estava convencido de que não existia nada incondicional, nem amor de filho, nem amor de mãe, nada. Tudo dependia. Portanto, desconfiava muito, muito mesmo, daqueles que se diziam amigos e eram à prova de tudo.

Vou te contar…”Foi fascinante” – Frase vencedora do concurso do Estadão

Foi fascinante, era como estar envolto em uma atmosfera especial, própria só daquele único dia, momento, um instante inigualável e inesquecível, as notas eram alcançadas com graça, os tons viajavam na sala, e adentravam ouvidos perplexos e víamos olhos mirando estupefatos, e víamos bocas boquiabertas, o que se entende porque todos os sentidos estavam fascinados, e a pele arrepiada faz tempo já.”

Esta minha frase acabou vencedora do concurso do Estadão, que premiou com convites para o Concerto de Anna Caterina Antonacci, na Sala São Paulo em 20.07.2010.

Portanto, hoje é dia de desfrutar! Aos olhos estupefatos e aos ouvidos perplexos!

ANNA CATERINA ANTONACCI soprano
DONALD SULZEN piano

Echi della belle epoque

Gabriel Fauré (1845-1924)
Cinq mélodies de Venise (Paul Verlaine)
Mandoline
En sourdine
Green
À Clymène
C’est l’extase

Reynaldo Hahn (1874-1947) Mélodies françaises
Tyndaris from Ètudes latines (Leconte de Lisle)
Phyllis from Ètudes latines (Leconte de Lisle)
Fumée (Jean Moréas)
L’énamourée (Théodore de Banville)
Le printemps (Théodore de Banville)

Alfred Bachelet (1864-1944)
Chère nuit (Eugène Adenis)

INTERVALO

Paolo Tosti (1846-1916)
My Memories (Clifton Bingham)
Love Me! (Githa Sowerby)
Summer (Malcolm Salaman)
Once more (Githa Sowerby)
Love’s way (Ethel Clifford)

Pieradolfo Tirindelli (1858-1937)
Amor, Amor! (Ada Negri)
Pietro Cimara (1887-1967)
Scherzo (Carlo Zangarini)
Arturo Toscanini (1867-1957)
Nevrosi (Pagliara)
Ottorino Respighi (1879-1936)
3 canti all’antica (Giovanni Boccaccio)
L’udir talvolta
Ma come potrei
Ballata

Pioggia (Vittoria Aganoor Pompilj)
Nebbie (Ada Negri)

Riccardo Zandonai (1883-1944)
“Paolo, datemi pace!” from Francesca da Rimini (Tito Ricordi)

É isso aí.

Vou te contar…

Pois agora me ocorre este pensamento complicado, perturbador. Como sob uma teopsia, deixei-o entrar. E agora é tão extenuante ficar pensando este pensamento, que o melhor a fazer é narrá-lo logo, expulsá-lo daqui, colocá-lo aqui, no preto, para que tudo se alivie, e eu possa voltar a pensar sem medo. Quisera poder expurgá-lo assim, sem mais nem menos. Mas como pô-lo aqui, indolor, leve, e ainda minimamente compreensível, para que todos entendam, ou pelo menos, minimamente, visualizem o que eu quero dizer com ele? Se ele é assim tão escapante, tão saltitante, priscante, retirante, ecbólico? Não sei, na verdade não sei como traduzir este pensamento oblíquo, obtuso, ofegante. No começo ele vem assim questionador, inquisidor e matador, mas logo se volta em si mesmo e, curvado assim, se corrompe, se rompe, se esvai, me trai. Torna complicado descrevê-lo, eu me perco nas voltas, volteios e surrupios. Nem mesmo o acho. Às vezes penso que ele está ali no córtex, mas logo o vejo saindo para o hipocampo, para o pré-límbico, ou outra parte qualquer. Puxar algo do pré-límbico é duro demais. Há pouco fiz algumas sinapses a mais e o vi saindo pelo lado do cerebelo, talvez tenha ido para trás do hipotálamo, ou ainda do miliocefalo. Ficou ali como envolto em súber. Só resgatando-o com um exercito de entoptoscópios, talvez. Falar nisso, preciso renovar minha hoploteca. Percebem como ele é complicado? Metê-lo aqui nestas linhas é ato cada vez mais impossível e inexeqüível. Faço um esforço adicional da minha memória, todo o pré-lombar no uso pleno de seus recursos disponíveis, pois já fechei todas as outras janelas, mas ele segue escapando, rastejando como um réptil astuto e asqueroso. Não há como faze-lo parar, só parando de pensar, mas aí se paro não o tenho mais para transcrever, me entendem? Óbvio, não? Isto não é um experimento de Schroedinger. Se bem que poderia ser, assim o teria e não teria, e ao não tê-lo, teria mais condições de limpar a mente para pegá-lo. Mas ele muda e remuda.

Bem, lá se vai ele de novo, desta vez para os confins da massa, na entranhas mesmo desta nuvem oca. Lá onde ninguém o pegará, nem se eu sonhar com ele. Escapou de vez! Lamento não ter podido coloca-lo aqui. Ele era ótimo. Tirando sua complexidade, era bárbaro, instigante, revolucionário. Não estou touteando. Teria sido muito bom compartilhar com vocês. Bem, na próxima vez, prometo pensar algo menos titubeante, evasivo. Ele se foi, assim, de repente, nicles, já não está.

Nicles: nada
Súber: tecido impenetrável de células mortas
Toutear: dizer bobagens
Ecbólico: com propriedade de expelir, abortivo
Teopsia: aparecimento súbito de uma dividande
Priscante: que salta para os lados
Miliocefalo: saliência da íris, atrás da córnea
Entoptocóspios: aparelhos para observação do interior do olho
Remudar: mudar novamente
Hoploteca: lugar onde se guardam armas

Vou te contar….JFK

-…..mas você prometeu que este final de semana ficaríamos com as crianças.
– eu sei, meu amor. Mas vai ser rápido, vou lá na sexta de manhã para este almoço e te prometo que organizo o retorno no mesmo dia.

– mas…Dallas, por que Dallas?
– precisamos ganhar no Texas…aquilo é um reduto conservador ao extremo. Minha ida lá é importante.
– quer saber? eu vou com você.
– sério…mas isso..é…erh..é muito bom. Você me traz votos, sabia?
– sei. E tenho receio de que você não possa voltar.
– como assim?
– ah…você sabe como é…as coisas atrasam, se arrastam…estou sentindo, do ar.
– tens razão. Mas vai ser ótimo você ir comigo!

Depois de desligar, pega o telefone novamente e faz uma chamada.
– alô, John, é você?
– claro que sou eu, só eu tenho este seu número, não é?
– claro, querido. Que tolinha que eu sou!
– olha, hoje não vai dar.
– como, por quê?
– Jackie estará comigo.
– oh John, mas você havia prometido…teríamos todo o fim-de-semana…eu me livrei das filmagens só por isso.
– na próxima semana, baby.
-…(muxoxos)
– não fique triste. Na próxima semana. Mando o Air force one. Traga aquele vestido do aniversário na bagagem.
– …(risinhos guturais)

O odor da pólvora era fortíssimo, Lee quase não conseguiu seguir o plano para sair do edifício. Tremia, nauseado. Dois tiros. Não podia acreditar que havia errado ambos! Droga, a oportunidade era perfeita, dia de sol, o carro conversível, em marcha reduzida, visão do alto, ampla. Como iria explicar aquilo? O comandante de verde iria ficar uma fera. Mas era melhor enfrentá-lo de frente, direto. Antes que ele desse aquelas baforadas nojentas depois de chupar aquele charutão imenso e ele tivesse de tragar aquela fumaceira.

O almoço era um sucesso. Os cheques eram escritos e assinados em velocidade espantosa. Os fundos da campanha iriam crescer muito. O aroma da vitória passeava soberano em Dealey Plaza.

Na reeleição, em 1965, John ganha com mais de 65% dos votos úteis. O povo havia entendido a importância da tomada de Cuba, em 1964, após o assassinato de Castro por um maníaco desconhecido. A ilha ficou uma balbúrdia, mas a tese da conspiração americana nunca foi provada.