Um livro : 1Q84

1q84_fan_art_by_ax3lito-d3foq38Nem bem havia lido uma dezena de páginas e fui logo procurar a Sinfonnieta de Janacek para escutar. Queria entrar no clima de uma das personagens, que escuta a tal música em um táxi antes de certos acontecimentos surpreendentes ocorrerem. A última vez em que me aconteceu algo semelhante foi quando li Clube do Filme. Tinha de sair correndo ver o filme que era citado pelo autor. Mas ouvir Janacek não me fez sentir nada de especial. Por que Murakami foi escolher logo esta música? Vai saber. Além de desencavar este quase obscuro compositor tcheco, o autor faz varias outras incursões eruditas na trama, passando por Tchekhov e Bach. Mas são enxertos muito bem encaixados, não estão inseridos apenas para mostrar o quanto o homem conhece da cultura ocidental.

Murakami propõe um ping-pong entre as duas personagens principais, Tengo e Aomame. Em capítulos alternados, vamos acompanhando as duas tramas, na expectativa de um possível entrelaçamento das duas narrativas. É curioso isto, surpreedente seria alguém escrever duas estórias realmente paralelas que nunca se cruzam…Seriam dois livros em um.

Mas parece que Murakami ficará no tradicional. As personagem devem se cruzar em algum momento e são armadas inúmeras possibilidades para o entrelaçamento das duas narrativas. Porém, vamos até o final deste que é o primeiro livro de uma trilogia, com esta dúvida.. Mas quem são Tengo e Aomame, de quem estamos falando?

Tengo não assume responsabilidades, não se envolve, é morno demais. É um professor de matemática, aspirante a escritor. Com tais fraquezas em sua personalidade, ele é envolvido a contragosto na tarefa de reescrever um livro que pode se tornar vencedor de um concurso literário, o que o joga em um conflito ético. Fica difícil engolir que alguém tão despreparado emocionalmente possa livrar-se disto sem consequências mais sérias. E mais inverossímil ainda admitir que tal figura seja detentora da sensibilidade necessária para uma escrita de qualidade.

Em contraste, Aomame é radical, extremada em tudo. Quente e fria, mas nunca morna. Tem uma profissão inusitada e válvulas de escape de alto risco. É muito mais complexa que Tengo, muito mais efervescente. Forte como uma rocha, Aomame está sempre no limite, mas não enfrenta nenhum conflito ético. Para ela é tudo muito claro, até surgirem duas luas no céu.

Vivemos a realidade ou somos todos lunáticos? A dúvida é o cerne do livro, desde o título.  A ação nunca é límpida o suficiente para diferenciarmos de imediato o que é aparência e o que é o fato. Cabe ao leitor julgar. Lamento apenas o lugar-comum da violência contra mulheres como pano de fundo, a literatura universal parece meio obcecado com o tema.

Que venha o tomo 2, prometido para março pela editora.

Vai um arzinho aí, patrão?

Existem semáforos que não servem para organizar o trânsito, eles apenas regulam onde você vai continuar parado, se antes ou depois dele. Nestes grandes nós da Urbe-mor, lá estão eles. Os ambulantes, que perambulam lépidos e faceiros por entre os carros, estes verdadeiros imóveis que fumegam, com seus pacotes e mais pacotes daquele chocolate aerado. Eles não têm nenhum outro, só este, o dos inúmeros furinhos de ar. Repito, nenhum outro. Esteja você parado onde estiver, eles só te proporão aquele. O da embalagem vermelha. E eu fico me perguntando por que esta preferência, qual a razão deste monopólio? Por que desprezam tanto os motoristas que anseiam por um outro, digamos, um mais crocante? Ou um outro que amoleça menos rápido? Ou ainda um com recheio de castanhas, passas, o que seja? Não, só te oferecem o do recheio de arzinho.

E é barato, mais barato que no mercado, mais barato que no armazém da esquina, mais barato que em promoção de site de desconto coletivo, mais barato que em qualquer outro lugar. Por que será? Será mais fácil de transportar, sendo mais leve, tendo ar?

Será falso? Terá ar de segunda injetado nele? Ou pior ainda, conterá algum tipo de gás venenoso, letal? Estariam fora do prazo de validade? Derretendo? Provavelmente não, já teriam descoberto a fábrica clandestina há muito tempo. Ninguém pode produzir tanto chocolate impunemente. Seria um ato estratégico de desova da fábrica oficial? Uma tentativa desesperada de livrar-se de um choco-abacaxi? Provavelmente não, o tal furadinho também vende bem nos supermercados, nos botecos e em farmácias. Adicionalmente, quanto mais sobem as commodities, o açúcar, o cacau e etc, melhor vender ar. Aprendi que a densidade do tal areado pode ser a metade da de um chocolate sem furos. Portanto, não há lógica econômica na questão. Mas alguma lógica deve haver, embora eu não consiga encontrá-la.

Só de pirraça, nunca compro o tal do arzinho, nem no semáforo, nem no mercado, embora morra de vontade.

Até o sinal abrir para mim, daria para devorar uns dois.

Dúvida de Mãe

Fez-se Homem muito cedo, criado por Ela como Ela criou a todos os Outros. Não teve regalias, não teve privilégios, mas Ela foi uma boa Mãe, isso não se pode negar. O fez compreender logo cedo que a vida seria difícil. E Ele sofreu intempéries, fugiu de inimigos atrozes, escapou de grandes riscos. “Este Me saiu diferente”, pensava Ela. E Ele soube desbravar o caminho e assim foi evoluindo. Tinha um cérebro privilegiado, aquele Filho. Dotado da capacidade de aprender, inclusive com os erros dos Outros Filhos, mesmo os mais distantes. Mas tudo isso não foi suficiente. Embruteceu-se o Filho pródigo. Talvez porque não tenha guardado lembranças de ternura. Mas Ela foi terna, Ele é que não se lembra, deixemos claro. Embora em alguns momentos Ele A tenha adorado e também aos Seus Parentes. Ele Os cultuou e Os reconheceu como Gente importante, que dominavam coisas que Ele sozinho não podia explicar, apesar de toda Sua sabedoria. Houve um momento em que Ele precisou Se aquecer e a partir deste instante Se mostrou hábil na criação do Novo.  Impetuoso, seguro de Si, a partir deste instante, Ele saiu a procura de mais. Já não bastava sobreviver, era importante fazer daquele lugar um lugar cada vez melhor. Para tal, mudou de hábitos constantemente, esqueceu o Seu passado e construiu vários Futuros, sempre usando o Novo. Hoje, este Homem já resiste a quase tudo, apenas uma ou outra doença o levam à beira da Grande Viagem com frequência. Antes, com baixa resistência, adoecia por qualquer coisinha. Hoje o lugar está melhor, não necesariamente para todos que o compartilham, mas Ele assim o pensa. O Homem com o Novo revolucionou o status quo, não uma nem duas vezes, revolucionou sempre, até dominar céu e terra, água e ar. Ela sempre observando, ora reagindo um pouco aos Seus modos, ora O deixando em paz para que Ele criasse seu próprio Mundo. Não tem sido uma convivência fácil. Como toda Mãe, Ela sofre muito por Ele ser tão independente, tão senhor de Si. No fundo Ela sabe que Ele, apesar de inteligente, é orgulhoso a ponto de perder-Se em Sua confiança desmedida de tudo poder, do Todo Poder. Um dia tudo acabará mal, mas o que Ela pode fazer, senão avisá-Lo, adverti-Lo, tentar orientá-Lo como pode? Como todo Filho, Ele já faz muito não Lhe dá ouvidos. Despreza Suas atitudes e ignora Seus recados. Às vezes até finge que dá atenção a Ela, mas logo esquece Suas vãs promessas de que vai melhorar, de que vai consertar o que tem feito de errado. Mas sempre posterga. Ela sabe que talvez já seja tarde demais. E sofrerá ao ver o próprio Filho extinguir seu futuro. Neste caso, Ela bem sabe, de tão poderoso que Ele se tornou, Ele acabará por extingui-La também. E Ela fica com esta dúvida, que abonima, por ora pensar que pode não ser tão ruim o fato de que em breve não mais poderá gerar Outros como Ele.

O homem sem cafundó

Era um menino quieto, de fala mansa. Obsequioso com os mais velhos, tímido com os maiores e das meninas tinha verdadeiro pavor. Não sabia fazer muitas amizades, acho que desde sempre tive medo de perder o que era querido. Restava-me a reclusão. Refugiava-me, sempre que possível, em meu cafundozinho, lá onde minha cidade acabava e começava o mato. Mas antes do matagal havia uma vasta área desmatada, esperando o progresso que estava chegando. Algumas vezes, eu lá quieto, pensando e matutando sobre o tudo e o nada, e já vinham elas, as máquinas, terraplanando e removendo entulho ao longe. Cada vez que passava por lá, sentia que elas chegavam mais perto. No fundo eu sabia que meu refúgio seria destruído em breve. Eu me sentava em um morrinho do terreno e observava a mata ao fundo, mastigando invariavelmente um pedaço de capim. Aprendi ali que pensar é penoso. Meu cafundó foi onde lapidei a capacidade de refletir. Pensei, planejei toda a minha vida nele. Às vezes, estava a tempestade se armando, mas eu não arredava pé. Continuava pensando, continuava lá. As máquinas, afinal, também ficavam trabalhando, desafiando a tormenta que se aproximava rápido. Certo dia, cheguei à casa todo molhado, encharcado da chuva. E minha avó perguntou, com aquele ar mistura de indignação e dúvida:
– mas menino, onde é que tu andavas?
E eu, inadvertidamente honesto, dizia:
– ah vó, lá nos cafundó.

Mudei-me e não acompanhei a destruição do meu cafundó. Então, um dia, anos depois, em uma visita ao acaso, passei pelo emaranhado de prédios e lembrei-me de que ele ficava alí, bem debaixo da entrada principal do shopping center.

Constatei que agora sou um homem sem seu cafundó. E um homem sem cafundó é um homem sem âncora. Só quero agora me iludir pensando que tudo o que lá passou pela minha cabeça, tudo o que eu lá planejei ainda navega perdido em recônditos inexpugnáveis de minha memória. Recuso-me a acreditar que tenha sido destruído junto com o meu cafundó.

Dalí in Wonderland

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Salvador Dalí, em 1969 ilustrou uma edição especial de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. Nada mais apropriado. As imagens finalmente foram digitalizadas  e estão agora disponíveis na web. Veja no slideshow acima todas as ilustrações. Para tudo sobre Alice no País das Maravilhas clique na tag aí ao lado.

Resumo (mesmo! ) de férias

Gene Kelly dancing while singing the title son...
Image via Wikipedia

Filmes:

Os doze condenados (12 Angry Men) – nunca deixe de expressar sua opinião

A viagem de chihiro – alguém pode me explicar ?

Esposa troféu (Potiche) – genial, Ozon! Luchini é um furação na tela.

Dançando na chuva (Singin’ In The Rain) – bom de rever

A outra (Another Woman) – Um Woody mais pesado, fase Bergman, para fazer contra-ponto com seus filmes mais leves atuais

Um dia de cão (Dog Day Afternoon) – Pacino, Pacino!

Minha versão do amor (Barney’s Version) – Imperdível, Paul Giamati dá um show e ótima ponta de Dustin Hofmann

The Adjustment Bureau – Se algum dia você fez um Plano, você vai gostar.

Cisne Negro (Black Swan) – bom, intenso.

Livros :

Our Choice – o ebook alçado a um outro patamar.

Liberdade (Freedom) – sigo a leitura no pós-férias, half way thru

Expo:

6 bilhões de outros – curioso, agora Yann Arthur tem a visão do todo e do individual. Parece que ele leu Lispector, ” a impessoalidade absoluta do mundo versus a minha individualidade como pessoa”

Kubrick em Paris, na Cinemateque > Muito bom, toda a filmografia do cara, inclusive os filmes que ele não fez.

Tv:

Guerra dos tronos (Game of Thrones)  > até agora, não chegou lá. A Terra Média segue imbatível.

Irã, não te odeio mais

Cover of "Persepolis"
Cover of Persepolis

A idéia de Irã hoje é muito reduzida pelos problemas que achamos são mais ou menos comuns a todos os países e povos daquela região do Globo.  Agravada pela liderança maluca do Ahmadinejad, o Ira é tido por muitos como uma aberração.  Ler Persepolis revela uma elite persa que foi surpreendida pela Revolução Islâmica de 1979, que culminou com a queda do Xá e com o fim do estado laico naquele país. A história de uma jovem que viveu sua adolescência no meio destes acontecimentos, que viu seus familiares perseguidos e que acaba por emigrar para a Áustria, é contada nesta HQ de forma muito sensível por Marjane Satrapi. Ler Persepolis lembra ao geógrafo aqui a velha Pérsia de Dario, do país progressista de antes da revolução e de como os interesses das grandes nações ocidentais acabaram por afetar o destino do Irã moderno. As tirinhas são visualmente agradáveis, poéticas e comunicativas. Altamente recomendável, embora, é preciso dizer, muitas a leitura suscite duvidas quanto aos reais interesses da tal elite progressista de Teerã. Será mesmo que eles queriam ajudar o seu país ou estavam apenas usando a resistência como argumento para manutenção de seus privilégios e futilidades?

Persepolis virou também um aclamado filme de animação. A ver. Já deixei de odiar, com o filme, talvez possa até a gostar do Irã.

é isso ai,