Vejo Ítaca ao longe

O Tempo é perene, o Vento passa.

Coisas ruins passam, os teus valores são como o Tempo, perenes.

Temos o Tempo para cultivar os nossos propósitos, mesmo que em outras paragens. Propósitos perenes, mesmo que bata um ventinho indigesto de vez em quando.

Os desrespeitosos sucumbem, as tuas habilidades só crescem e serão nutridas ao teu Tempo. Para a perenidade.

Atitudes não éticas podem demorar para emergir, mas emergem. As tuas fortalezas idem. E as últimas o Tempo eterniza, as primeiras o Vento mesmo varre.

A tua credibilidade é para durar todo o Tempo que permitires.

Certifica-te de que tens processos bem robustos e uma estratégia flexível, que te acompanharão ao longo do Tempo. Os ventos até poderão vergá-los, mas somente para que incorporem mais energia para revidar a contento.

A crise, como o Vento, pode até te dar um friozinho na barriga, mas o Tempo,  o Tempo meu caro, tu sabes que ele está ao teu lado.

Quem está obcecado pelo curto-prazo, está preocupado com o Vento, o Tempo é para os que veem ao longe. E para quem te responder que não existe longo prazo sem o curto primeiro, responda que, sob a perspectiva do Tempo, quem não existe é este ventinho tolo.

E o que é um Ventinho, para quem mira Ítaca ao longe?

Expectativa

Não previa nada, mas tudo esperava
Confiava, curiosa do destino que se lhe impunha a Previdência
nunca iludida, apenas suspendida no ar
pairando sobre a vida
em sentinela, `a espreita
arguta, resoluta, sempre com muitos olhos
prospectando, escrutinando, acariciando o futuro
com expectativa incansável,
com esperança infinita
sem temer a esquina, a dobra da rua
ansiando pela dobra do tempo, pelo novo espaço
em vigilia, aguardando
o auxilio de Cronos, o abraço de algum deus.

A sombra e a luz, fábula em um ato.

A sombra e a luz
Passeava a luz alegremente pela floresta quando se depara com uma arvore frondosa, de galhos amplos, de cujas folhas pendiam muito frutos de aparência saborosa.
A luz decide descansar e se acomoda sob a arvore, encostando-se no tronco. Ao adormercer, se apaga por um instante.
Nisso vem a sombra, e a tudo engole e a todos remete a uma escuridão terrível.
Diz a arvore: levanta-te, luz, devolva-nos o dia, a vida, a alegria!
A luz, inabalável, retruca:
Eu não, cansei de tudo iluminar, de ser radiante, quero o ostracismo
A sombra, embora ninguém possa ver, sorri à larga.
A arvore indigna-se e grita, exasperada:
Mas feneceremos todos neste breu, neste mar sem fim de negrume inóspito!
Cala-te ente, o mundo precisa de um pouco de Nada agora. 99% do universo é assim, breu total. Já escutaste alguém reclamando disto?
E a árvore, apelativa: Mas somos nós, este 1%, que fazemos a diferença! Luz: volte por favor!
Esqueça. Detesto minorias, quero me juntar ao grande e democrático Nada Total. Vamos! Ao breu!
Não consta que o Universo tenha reclamado de agregar o ultimo bastião de resistência.

Minicontos

  1. Tira o teu da reta, sai da frente do cara. – Não. Deixo o meu na reta. O que nasce torto nunca se endireita. Tô seguro.
  2. De pequenas e efêmeras circunstâncias surgem duradouras consequências. Do furo no látex, por exemplo.
  3. Entra em cena o albatroz. Curioso animal, me circunda do alto, como que atônito com o meu deslizar sôfrego sobre a areia fofa.
  4. Entro pelo algoritmo, me hospedo na nuvem. Oráculo portal não me virtualiza. E não há app para existencializar. Não pio.
  5. Adentrou o bar e viu o alvo junto ao banheiro. Sem vontade, simulou se aliviar. Mão no zíper, sentiu a lâmina fria no pescoço.
  6. A todos igualava na baixeza dos tratos. Pensava-se o maior. O que não tem igual, o Um. Mas pereceu diante de Algo Novo.
  • Todos preparados com no máximo 140 caracteres para entrar na disputa do #saraunoar, promovido pelo Marcelino Freire, via Twitter.  Ótima experiência.

Versão nova

Estou espantado com esse modelo que chegou hoje. Ele já vem com identificador de cinismo à distância, regulagem automática do pacienciômetro contra chatos e malucos em geral e um compartimento extra de suporte ao sofrimento em escadas, lombas e qualquer coisa íngreme e pesada que se ponha à sua frente.

Tem resistência avançada também a esperas em aeroportos, incluindo alta tolerância a downgrades de cartões de milhagens. Alta adaptabilidade a choques térmicos e incrível capacidade de apreciar coisas diferentes. Pode apreciar desde um quiabo frito até sopa de cérebro de lagostim. Não se surpreende com nada, nem com os chapéus mais bizarros que circulam em casamentos por aí.

Bacana que esta versão chegou bem no dia 1 do Novo Mundo, (AO – after Obama, digo Osama). Talvez já tenha todas as adaptações necessárias para a vida que seguirá diferente agora, dizem. Sim, porque o último modelo que eu estava usando demorou para se acostumar com as novidades, tipo o botão de curtir e até aprender que era esparramando os dedos em telas touchscreen que as imagens se alargavam foi um sufoco!

Tem alguns probleminhas, porém. Acho que o controle emocional veio desregulado, chora em desenho animado e começa a espumar de raiva ao primeiro minuto de um engarrafamento, por exemplo. Também não entendo os pneus extras e o enorme air bag que está se formando ao redor do umbigo. Os pêlos certamente preciso mandar para recall: estão sumindo do topo e aparecendo nos lugares mais estranhos, como nos dispositivos escutadores. Vai entender, mas de maneira geral até que é um 4.6 bem confiável e direitinho. Vou usar com moderação.

Vou te contar…Stieg Larsson

Da série “encontros impossíveis

Stieg encontra James, passeando tranqüilo, os cabelos com o topete inenarrável:
Oi Stieg, tudo bem? Quer um cigarro?
Obrigado. Tudo legal. Aqui não é tão ruim assim, não é? Você está ótimo, James.
Sei, isso o que dá, morrer jovem…….sabe das novas?
Não, quais?
Tão dizendo que você tinha 320 páginas do quarto livro…
Verdade. Canadá, bem ao norte, depois do círculo polar ártico.
Uau…mais frio que a Suécia, não? James acende um cigarro e dá uma tragada histórica. Se pudesse ser fotografada, daria poster de filme.
Pois é, mas talvez os corações sejam mais quentes…. Seria Millennium 4….Stieg escapa da baforada por um triz.

Falando em calor, nos EUA, estão chamando este verão de “verão Stieg”
Hummm, melhor seria “a lis-summer night’s dream”..
Ah ah , boa! Ela é o máximo, cara. Uma verdadeira “rebelde com causa” ….Se eu estivesse lá, seria fãzaço dela. .
Verdade.
Aliás, se eu estivesse lá, eu iria querer fazer o Bloomkvist.
Humm…você teria quase 70 anos!
É…mas se a Marilia Gabriela tem aquela pele, eu também não estaria mal…E o Clint, então?
Pode ser….mas o outro James, o Bond, já pegou o papel.
Uch! James passa a mão nos cabelos, certificando-se de que estão levantados na direção correta.Tô fora! E a Lis, já escolheram?
Já. Uma novata. Não sei não….
A Noomi mandou super bem.
Nisso chega Charles, barbudíssimo, e se junta à conversa.
Sabia que você é o primeiro cara a vender mais de um milhão de cópias no Kindle?, diz James. Charles alça a sobrancelha, curioso.

Eu vi. Sem falar nas pirateadas….
Tens razão! O que não se pirateia hoje me dia?

Um cara na Grã-Bretanha escreveu que um em cada dez britânicos já leu você, acredita?
Que legal, devo estar logo atrás de você, caro Charles, e de Jane, se contarmos as versões zombie dos livros dela…
Charles, muito sóbrio, diagnostica:
Vc tá sarcástico, colega.
Eu sou a Suécia. Eu sou sarcástico até na alma. Obrigado pelo colega.
Tá bom, explicado. E quem hoje quer ler estórias de integridade? contos de natal ? Sem eco. Aliás, vi que no natal vai sair um box set seu, com os três livros, edição capa dura, e mais alguns ensaios sobre você, por U$99,00.
Cool. Eles depois deveriam fazer um box set dos DVD´s também.
Claro!
Qual seria a razão deste sucesso todo?
Eu não sei…quando escrevi, não podia imaginar tudo isso..
Carl, que a tudo escutava, como que oniciente, intervém:
Todos já queriam a sua estória, Stieg, ela já estava contada, na mente das pessoas. No fundo, no fundo, você só expressou o que todos queriam e sentiam…
Como assim?
Vejo que você parece um INTJ…mas posso te explicar com calma. Que tal todas às terças, às 9.00? Minha hora tem 50 minutos, vou avisando para você não achar estranho depois.
Charles se lembra de algo:
Mas no Brasil, o sucesso dos teus livros não se repetiu nos filmes: os millennium 2 e 3 vão sair direto em DVD….
O Brasil é muito estranho, os livros até que venderam bem……
James, reflexivo: No meu tempo tinha aquela moça…
Carmem Miranda?
Não, não sou tão velho assim….
Quem?
Leila Diniz…
Ah! Me lembro, lançou moda.
Isso. Barrigão à mostra.
Brazil….os trópicos.
Tristes trópicos…
(Claude, que passava ao longe, faz menção de se aproximar, mas desiste. Segue em direção a uma fila enorme que se formou mais ao longe)
Já pensou a Lis lá?
Como assim?
Na operação Sathiagraha, por exemplo….
Sei…
Ou neste novo caso da Receita….virava a eleição!
Hummmm, me fala…
O quê Stieg?
Vc já cruzou com aquele brasileiro do cabelo estranho?
Qual?
Aquele que manda coisas lá para baixo…
O Chico?
Isso!
Ta vendo aquele fila lá? Ele tá lá atrás, pensativo, com a mão na testa, com os óculos negros…e o pessoal tá esperando para “fazer contato”.
Sei. Acho que tive uma idéia……James, Charles, cuidem-se. Stieg corre para a fila.
James propõe uma partida de poquer. Charles e Carl topam, às brinca.

Vou te contar…Inter bicampeão da Libertadores

Botei a Vermelha no peito e saí para uma voltinha pela Grande Metrópole. As reverências começaram logo na padaria, onde o Seu Luis já não fez questão de me pedir os centavos tão exatos. Pãozinho mais barato, bônus de campeão. Lentamente iam surgindo os olhares, curiosos, invejosos, pegajosos, mas todos, sem exceção, indubitavelmente, olhares bons. Nenhuma dúvida, nada de esnobismo. A vermelha impunha respeito. Ao primeiro cruzamento testei o seu poder. Mal pisei no asfalto e os carros me permitiram a passagem. Fui calmo, atravessei a rua desfilando. Não buzinaram, acho que até cheguei a ver um Vectra dar sinal de luz simpático para mim, mas pode ter sido uma alucinação. Como a que tive com a Taça, virando a esquina. Era um poste. São Paulo estava virando a minha Macondo.

Mais à frente, um executivo já esbaforido, e eram apenas oito da manhã, falava ao celular quando cruzou por mim, e meneou a cabeça em sinal de aprovação, e seguiu falando ao telefone, puxa, o Sóbis comemorando sozinho, em atitude constrita, ele consigo mesmo, que bacana foi aquilo. Ouvi claramente. Uma velhinha que passeava com seu cachorrinho sorriu. Bem, o cachorrinho também sorriu, e latiu: Abu Abu, acho que era isso. O pessoal que tomava café da manhã em um bar me contemplou com as respectivas xícaras parando a meio caminho da boca, alguns também com um pedaço de pão na outra. Vi a cena em câmara lenta. São Paulo estava virando minha Matrix.

Na academia, ovação geral e aplausos. Os aparelhos me eram oferecidos, sem hesitação. Cumprimentos, acenos. Uma pessoa deitou os halteres no chão para me abraçar efusivamente. Eles desceram rápido, pareceu o tirombaço do Damião, furando as mãos do arqueiro, estropiando a rede. Estrondo alucinante. São Paulo estava virando minha Roma, e eu, o gladiador imortal. Não, eu, Spartacus. Não, eu, César, César, Ave César! Ele também tinha um manto vermelho.

De volta para casa, uma pessoa que varria o chão da frente do prédio fez um esforço adicional para limpar bem o espaço que eu cruzaria em instantes. Minhas passadas eram altivas, soberanas ele limpou rápido, mais ou menos como Giuliano limpou a área antes do arremate final, com um toque sutil da vassoura tirando a última folha e jogando por cima de um montinho de resíduos, que não tinham noção de onde estavam, como a zaga adversária. Quase o vi se debruçando na grade do prédio, como se fosse o alambrado de um estádio.

São Paulo virou minha Pasárgada.