Vejo Ítaca ao longe

O Tempo é perene, o Vento passa.

Coisas ruins passam, os teus valores são como o Tempo, perenes.

Temos o Tempo para cultivar os nossos propósitos, mesmo que em outras paragens. Propósitos perenes, mesmo que bata um ventinho indigesto de vez em quando.

Os desrespeitosos sucumbem, as tuas habilidades só crescem e serão nutridas ao teu Tempo. Para a perenidade.

Atitudes não éticas podem demorar para emergir, mas emergem. As tuas fortalezas idem. E as últimas o Tempo eterniza, as primeiras o Vento mesmo varre.

A tua credibilidade é para durar todo o Tempo que permitires.

Certifica-te de que tens processos bem robustos e uma estratégia flexível, que te acompanharão ao longo do Tempo. Os ventos até poderão vergá-los, mas somente para que incorporem mais energia para revidar a contento.

A crise, como o Vento, pode até te dar um friozinho na barriga, mas o Tempo,  o Tempo meu caro, tu sabes que ele está ao teu lado.

Quem está obcecado pelo curto-prazo, está preocupado com o Vento, o Tempo é para os que veem ao longe. E para quem te responder que não existe longo prazo sem o curto primeiro, responda que, sob a perspectiva do Tempo, quem não existe é este ventinho tolo.

E o que é um Ventinho, para quem mira Ítaca ao longe?

Expectativa

Não previa nada, mas tudo esperava
Confiava, curiosa do destino que se lhe impunha a Previdência
nunca iludida, apenas suspendida no ar
pairando sobre a vida
em sentinela, `a espreita
arguta, resoluta, sempre com muitos olhos
prospectando, escrutinando, acariciando o futuro
com expectativa incansável,
com esperança infinita
sem temer a esquina, a dobra da rua
ansiando pela dobra do tempo, pelo novo espaço
em vigilia, aguardando
o auxilio de Cronos, o abraço de algum deus.

Tempestade

Aquela nuveada toda ia se amontuando de mansinho, detras do morro do Bispo e vinha chegando tal qual louva-deus vai aparecendo devagarzinho por detras de uma pedra. Quando ce ve as perninhas de palito dele, ela já ta babando para te da o bote.

E começou uma barulheira dos inferno, uma trovejeda que parecia que os santos estavam carreteando todas as coisas para mudar o mundo de lugar e tudo trombava feito jegue cego no meio de um estouro de boiada.

E pois que me deu uma coceira no meio das venta, daquelas que so me dá quando o homi la em cima vai mandar lavar toda a terra, de aqui até as quebradas do Nho Tonho, que fica, lá para detrás do morro de onde se avista o riacho que dizem, vai dar no mar, depois de encher o açude dos Macedo.

E de uma hora para outra, que é modo de dizer, pois foi mesmo é de um minuto para outro, desabou um relampido, que só pode ter este nome por que é um estampido com um relho brilhante na ponta. Tinha um cajueiro que ficou mais preto que o Temedeu, o negro retinto do seu Alcebiades.

Me botei a esfolar o Jeremias, para modo de vê se o tonto ia mais velozmente, se se metia a balançar as ferradura, mas o danado preferia se arrastar mais manso que o balofo do seu Ramao vira na rede na hora de sestiar.

E veio o agueiro. Vinha de cima e vinha de baixo, repicando na terra e voltando para cima como que os pingo querendo voltar de donde tinha vindo.

E vinha de lado, pelo volteio da dobra do vento que soprava feito gaita.

De modo que eu e o Jeremias viramo um barro só. Para modo de aproveita aquela barrama eu fui juntando nums montinho que ia tomando forma de tijolo. Resolvi guarda aquilo que me alembrei que tinha de completar o muro de arrimo la do meu sobradinho.

Quando vi passar o Temedeu, correndo para o outro lado, todo amarronzado também, tava que só os fundo dos oio se via

Pois já tinha visto de tudo, menos tempestade de branquear neguinho e pretiá caju. Ô coisa tremenda.

Charlie n’est plus là

Charlie écoute de la musique

Ça peut-être tragique

Charlie vient du bureau

Donne-moi un morceau

De ta tristesse?

Charlie sort de l’école

A quelle vitesse?

Charlie va au cinema

Mais qu’est-ce qu’il y a?

Pas grave, Charlie

On a tué ta maladie

Charlie

N’est plus là

Où il faudra

On fait un dessin

Sur le chagrin

Beije-me

O beijo secava, como se sua boca estivesse provando um vinho de taninos altíssimos.

Tirava a sua capacidade de salivar, exigia que engolisse o ar para ver se recuperava algo de umidade de dentro de teus pulmões.

Mas ao mesmo tempo em que a secura se estabelecia, produzia-se algo de inesperado em outras partes do corpo. Suava pela cabeça, como quando comia algo apimentado. Teve de tirar o lenço do bolso e enxugar o couro cabeludo algumas vezes. As pernas tremiam, como quando tinha calafrios.  Os olhos, estes sim, ficavam úmidos, chorando devagarzinho pelos cantos. Aproveitou uma lágrima e a puxou com a língua, que instantaneamente foi sugada por aquela boca que tudo tomava para si. Entrou em um círculo vicioso, chorava para umidificar-se e continuar beijando e quanto mais beijava, mais secava por dentro e mais precisava chorar. Parou também de enxugar a cabeça, queria que o suor descesse por sua fronte e suas bochechas e chegasse à sua boca, para aliviar a secura. E beijava, e secava, e beijava e secava. E suava e tremia, suava e tremia.

Achou que aquilo não iria acabar bem, tentou se desvencilhar daquela boca, mas não conseguiu descolar os lábios. Empurrou-a todo o que pode com as mãos, mas sua língua estava retida entre os lábios daquela boca. Tentou chutá-la, mas ela bailava bem, se distanciava dos golpes com facilidade. Não havia saída. Implorou com gestos para que ela parasse com aquilo, o estava matando. Ela não dava ouvidos e seguia beijando e sugando tudo, todo o seu ser.

E assim seguiu até, de uma hora para outra, ela desistiu. Largou-o ali, sem o beijo, sem o suor, sem as lágrimas, sem a tremura. Ele relaxou, respirou e recuperou a umidade. Mas assim mesmo definhou.

A sombra e a luz, fábula em um ato.

A sombra e a luz
Passeava a luz alegremente pela floresta quando se depara com uma arvore frondosa, de galhos amplos, de cujas folhas pendiam muito frutos de aparência saborosa.
A luz decide descansar e se acomoda sob a arvore, encostando-se no tronco. Ao adormercer, se apaga por um instante.
Nisso vem a sombra, e a tudo engole e a todos remete a uma escuridão terrível.
Diz a arvore: levanta-te, luz, devolva-nos o dia, a vida, a alegria!
A luz, inabalável, retruca:
Eu não, cansei de tudo iluminar, de ser radiante, quero o ostracismo
A sombra, embora ninguém possa ver, sorri à larga.
A arvore indigna-se e grita, exasperada:
Mas feneceremos todos neste breu, neste mar sem fim de negrume inóspito!
Cala-te ente, o mundo precisa de um pouco de Nada agora. 99% do universo é assim, breu total. Já escutaste alguém reclamando disto?
E a árvore, apelativa: Mas somos nós, este 1%, que fazemos a diferença! Luz: volte por favor!
Esqueça. Detesto minorias, quero me juntar ao grande e democrático Nada Total. Vamos! Ao breu!
Não consta que o Universo tenha reclamado de agregar o ultimo bastião de resistência.

Minicontos

  1. Tira o teu da reta, sai da frente do cara. – Não. Deixo o meu na reta. O que nasce torto nunca se endireita. Tô seguro.
  2. De pequenas e efêmeras circunstâncias surgem duradouras consequências. Do furo no látex, por exemplo.
  3. Entra em cena o albatroz. Curioso animal, me circunda do alto, como que atônito com o meu deslizar sôfrego sobre a areia fofa.
  4. Entro pelo algoritmo, me hospedo na nuvem. Oráculo portal não me virtualiza. E não há app para existencializar. Não pio.
  5. Adentrou o bar e viu o alvo junto ao banheiro. Sem vontade, simulou se aliviar. Mão no zíper, sentiu a lâmina fria no pescoço.
  6. A todos igualava na baixeza dos tratos. Pensava-se o maior. O que não tem igual, o Um. Mas pereceu diante de Algo Novo.
  • Todos preparados com no máximo 140 caracteres para entrar na disputa do #saraunoar, promovido pelo Marcelino Freire, via Twitter.  Ótima experiência.