Vejo Ítaca ao longe

O Tempo é perene, o Vento passa.

Coisas ruins passam, os teus valores são como o Tempo, perenes.

Temos o Tempo para cultivar os nossos propósitos, mesmo que em outras paragens. Propósitos perenes, mesmo que bata um ventinho indigesto de vez em quando.

Os desrespeitosos sucumbem, as tuas habilidades só crescem e serão nutridas ao teu Tempo. Para a perenidade.

Atitudes não éticas podem demorar para emergir, mas emergem. As tuas fortalezas idem. E as últimas o Tempo eterniza, as primeiras o Vento mesmo varre.

A tua credibilidade é para durar todo o Tempo que permitires.

Certifica-te de que tens processos bem robustos e uma estratégia flexível, que te acompanharão ao longo do Tempo. Os ventos até poderão vergá-los, mas somente para que incorporem mais energia para revidar a contento.

A crise, como o Vento, pode até te dar um friozinho na barriga, mas o Tempo,  o Tempo meu caro, tu sabes que ele está ao teu lado.

Quem está obcecado pelo curto-prazo, está preocupado com o Vento, o Tempo é para os que veem ao longe. E para quem te responder que não existe longo prazo sem o curto primeiro, responda que, sob a perspectiva do Tempo, quem não existe é este ventinho tolo.

E o que é um Ventinho, para quem mira Ítaca ao longe?

40 razões para comemorar 50

  1. 50 é o novo 40, e a vida começa aos 40
  2. Você pode dizer: Do alto deste último tufo de cabelos que pontua (sim, pois parece uma virgula) minha careca, meio século vos contemplam
  3. Você pode se considerar o ultimo dos baby boomers e o primeiro rebelde sem causa
  4. 50 é ótimo para nos tornarmos quem verdadeiramente somos. Se ainda não somos. Mas é melhor correr agora
  5. você pode exultar de alegria quando te chamam de tio, e não de vovô
  6. A maturidade é a mãe de todos os consolos
  7. Voce pode achar ótimo que ainda faltam 10 anos para você poder usar vagas de idoso em estacionamento
  8. Quase todas as tuas bandas de rock favoritas ainda estão na estrada, tocando, ao passo que as bandas dos teus filhos, alunos, sobrinhos, já estão se desmantelando
  9. O tio sukita certamente tinha mais de 50, não é ?
  1. você nunca teve uma crise de identidade. Antes, um conservador, agora um reaça de marca maior.
  2. Os teus tabus se foram. O que era ilícito, virou remédio.
  3. Você sabe o que é bom para a tosse. Enquanto uns vão de Christian Grey, você ataca de Dorian Gray.
  4. Alguns dos teus heróis morreram de overdose, é certo, mas nenhum pediu para sair.
  5. Agora pinta aquela sensação de flutuar, pois você já não pertence mais a este tempo. Pode dizer sem medo, “no meu tempo isso, no meu tempo aquilo”.
  6. Como uma geração se define pela espaço de 25 anos, você já não pertence mais a geração passada, mas sim, a geração retrasada. Você é de antes, muito antes.
  7. Relativamente você não esta ficando tão velho assim, pois a partir de agora, o acréscimo de 1 ano em 50 nao representara nem 2% de sua idade total. Você esta fadado a para todo sempre crescer só um pibinho.
  8. As pessoas mais idosas do planeta chegam a 116, 117 anos. Woody Allen e Clint Eastwood ainda pode fazer mais uns 35 filmes. E você poderá vê-los.
  9. Aos vinte tudo é futuro, aos trinta você ainda pode recorrer ao esforço, aos 40 voce ainda quer desafiar a tua maturidade, mas aos 50 voce se rende. Você é mesmo esse cara.
  10. É um ótimo momento para reafirmar que qualidade supera quantidade
  11. chegou o momento onde você não acha mais ridícula aquela propaganda do Gressin 2000
  12. porque aliás o único lugar onde pode haver cinqüenta tons de cinza é em uma cabeleira grisalha
  13. bem cuidada, essa nova idade será a sua melhor opção neste ano
  14. você confia muito em Wilde, e portanto, querendo recuperar a juventude basta cometer as mesmas loucuras
  15. os pré-socraticos vieram (também!) depois de Sócrates, os pré-rafaelistas depois de Rafael, então ainda há tempo para os pré-bardagianos
  16. é a idade que não define nada. Aos 20 voce é um jovenzimho, aos 30, o típico adulto, aos 40 voce está no seu auge produtivo, aos 60 voce é um jovem idoso. Aproveite e conceitue-se você mesmo.
  17. A minha chance de eu me tornar um Homem Virtuoso (é Aristotélico isso) é cada vez maior
  18. se a inteligência é vetorial e a burrice é escalar, a velhice é que não será exponencial
  19. ainda não cheguei a Ítaca, mas sei cada vez mais apreciar o caminho
  20. tenho ainda 12 anos para atingir a idade de Tolkien quando ele publicou O senhor do Anéis
  21. você não é mais arrogante: um jovem de vinte senhor de si é um jovem arrogante, um jovem adulto de 30 senhor de si é um jovem adulto arrogante, um adulto maduro de 40 senhor de si é um adulto maduro arrogante, um senhor de 50 anos senhor de si é um senhor.
  22. Você cada vez mais pode exercer a pratica da tolerância, pois você cada vez mais odeia mais coisas
  23. agora voce tem um grande airbag formado ao redor do umbigo. Privilegio. Vou usar com moderação.
  24. a partir de agora, você se deveria ser obrigado a somente dirigir automóveis alemães, desde que não fosse um Trabbi. Toleram-se suecos também.
  25. Você pode finalmente aceitar a alcunha de “Oldie but Goldie”
  26. Kafka disse que na luta entre o mundo e você, aposte no mundo, mas eu me delicio que o jogo já foi para o segundo tempo e ainda está empatado. E eu já ameacei marcar várias vezes
  27. a partir de agora você está liberado para cantar “Life is a highway” com um entusiasmo nunca visto
  28. você pode dar um largo sorriso, pois faz parte do grupo que mais cresce na população. Em 2030 seremos 42 milhoes de brasileiros com mais de 60.
  29. Você tem a certeza de que, se inventarem um campeonato novo, o Inter ganha também.
  30. Já me sinto a personagem de Murakami: “Na sua fisionomia havia uma confiança calma e discreta que alguns homens desta idade possuem”.
  31. porque acaba de dar no new York times: idoso agora é aos 70.

A magia de Oscar Wilde – The Magic of Oscar Wilde

“I believe that If one man were to live out his life fully and completely, were to give form to every feeling, expression to every thought, reality to every dream, the world would gain such a fresh impulse of joy that we would forget all the maladies of mediaevalism, and return to the Hellenic ideal. But the bravest man amongst us is afraid of himself.”

“We are punsihed for our denials. Every impulse that we strive to strangle broods in the mind and poisons us.”

“To get back to one’s youth, one has merely to repeat one’s follies. Nowadays people die of a sort of creeping common sense and discover when it’s too late that the one thing one neer regrets are one’s mistakes.”

“The people who loved only once in their lives are shallow. What they call loyalty and fidelity I call lethargy and lack of imagination.”

“It is personalities, not principles that moves the age”

“No life is spoiled but one whose growth is arrested”

Pleasure is the only thing worth having a theory about. Pleasure is nature’s test. When we are happy we are always good, but when we are good, we are not always happy” 

“There is a luxury in self reproach. When we blame ourselves, we feel that no one else has a right to blame us. It is the confession, not the priest, that gives us absolution.”

“In her dealings with men, Destiny never close its accounts.”

“Every effect that one produces gives us a ennemy. To be popular one must be mediocrity.”

“The books that the world calls immoral are the books that show the world its own shame.”

“Nowadays people knows the price of everything and the value of nothing.”

“We live in a age when unnecessary things are the only necessities.”

“Men marry because they are tired, women marry because they are curious. Both are disappointed.”

All quotes from The Picture of Dorian Gray.

Inspirada por Lenine, para o Brasil

se está ruim, arrume,

se saiu do rumo, aprume,

se caducou, renove,

se deteriorou, inove.

se desgovernou, endireite,

se complicou, ajeite,

se se perdeu, engaje,

se mal armou, desmanche,

se perdeu, revanche,

se mixou, engaje,

se furou, emende,

se é crise, gere,

se é o país, lidere!

O ano do Contra Fluxo

Neste novo ano, busque o fracasso, seja ocioso, aumente sua ignorância, discuta muito, perca produtividade, sinta-se desconfortável, desapegue-se de sucessos.

Busque mais fracassos, pois quanto mais fracassar, mais terá trilhado caminhos inóspitos, que lhe farão aprender. Isto é o que engrandece.

Amplie seu tempo de ócio, aquele tempo de qualidade para pensar, refletir, estruturar, criar.

Faça crescer sua ignorância, desbravando campos de estudos novos, conceitos que não conheça, e deslumbre-se com a constatação que ainda tem muito que aprender.

Discuta mais, ao se entregar ao debate com quem não concorda com você. Os pontos de vista deles lhe ajudarão a solidificar, ou mudar, os seus. Com isso, evoluirá. E, de quebra, pode ajudar outros a evoluir também.

Queira o desconforto, zona de conforto é para não aprender nada. No desconforto temos de buscar soluções.

Esqueça sucessos. Aquilo que inebria, prejudica.

E abra mão de produtividade. Quem disse que a vida é melhor quando se faz mais com menos? Eu acho que a vida é melhor quando se desfruta com menos pressa tudo o que nos agrada demais.

Enfim, desvie de manadas cegas, de correntezas avassaladoras, de tsunamis de obviedades. Viva o contra fluxo.

#HomemNoContraFluxo

O Brasil mereceu perder de 7

É preciso que nos indignemos, mas não é preciso nos vitimizar. Não foi uma fatalidade, um ato do acaso ou um dia ruim de Deus. Foi a consequência de nossos próprios atos, de nossa própria delinquência. Se não assumirmos isso, não daremos o primeiro passo para corrigir nossos erros. Portanto, chega de nhem, nhem, nhem. Merecemos tomar uma lavada histórica, sim senhor. Quando foi a ultima vez que inovamos no futebol, que deixamos de nos inebriar pela historia, glorias passadas, êxitos antigos? É uma competição, e em qualquer ambiente competitivo vale a mesma regra. Mude, mude sempre, para estar à frente, para surpreender o adversário. O Brasil, sua mídia, sua ‘inteligentsia” futebolística só usa o discurso surrado do peso da camiseta, do fator local, da garra de nossa gente….ora bolas! Mostrem-me inovação!

A Holanda fez o futebol total, a Espanha trouxe o toque-toque, outros desenvolvem o velocismo ao extremo, outros têm goleiros-liberos. E nós? A última coisa que inventamos no futebol foi a “pedalada”. Poupem-me.

Merecemos este massacre para acordar. Para varrer nossas ineficiências. Façamos a revolução! Por que não miscigenamos no futebol, coisa que fazemos tão bem em outras áreas. Todos têm jogadores naturalizados, menos nós. Vejam que ironia. Os arianos do futebol, levam 7 de uma Alemanha meio-branca, meio negra, meio muçulmana. Comecemos importando um técnico, pelo menos.

Do nosso complexo de vira-lata já havíamos nos livrado. Agora temos de nos livrar do ufanismo complacente.

Fora este calendário ridículo, esse desprezo pelo planejamento, essa coisa de jeitinho. Não dá mais certo, gente. Deu para entender agora?

Merecemos este massacre, para realizar o novo, depois de limpar os escombros. Derrubem o Minerão, destruam a CBF e vamos começar de novo, com humildade, com sabedoria e usando as armas que estão à disposição de todos. Senão, na próxima Copa veremos outro desastre: nem iremos, talvez.

O Brasil merece o melhor futebol, o futebol merece o Brasil. Hora da reconciliação. Mas temos de começar aceitando que produzimos nosso próprio desastre.

Skyfall e A Sociedade dos Heróis Mortos

Quando tudo vira só uma tênue esperança, é usual nos agarramos ao inesperado, ao mágico, ao sobrenatural. E aos heróis, sejam eles precedidos ou não do prefixo super. Estamos talhados para isso desde nossos primórdios, é nossa formação. A capacidade Humana de gerar inovações neste novo Milênio só parece poder ser superada para nossa igualmente voraz capacidade de gerar crises, cataclismos e catástrofes. E não importa que cada vez mais saibamos mais sobre tudo. O problema é que o Tudo insiste em se expandir inconteste, gerando novos problemas, estes ainda mais complexos que os anteriores, atingindo fronteiras antes impensáveis. Ok, achamos o Bóson de Higgins, e agora?

Como ensinou Jean Monnet, “só aceitamos a mudança na necessidade e só vemos a necessidade na crise”. A crise está por toda parte e, conseqüência natural, as mudanças que ela causa. A nova moda é a descrença na crença. Assolados pelas inúmeras catástrofes, exógenas ou auto impostas, passamos a  duvidar de nossa própria imaginação e potencial de resposta.  A Humanidade poucas vezes teve tantas possibilidades de dar errado como Raça. Colapso climático, superpulação, choque de asteróides, falta de água, hecatombe nuclear, mega-giga-tera bactérias, terrorismo desenfreado, explosão zumbi, you name it. Parece não haver saída. 

O Homem, então, revisita seus símbolos e se questiona se sairá vivo desta. Há um fortíssimo núcleo de desesperançados correndo solto por aí, tomando de assalto a liderança e provocando a mudança. No cinema, eles fazem nossos heróis sucumbir inapelavelmente.

Webb já havia humanizado o Homem-Aranha e Chris Nolan matou Batman sem dó nem piedade, transformando-o em um impotente contra o Mal avassalador que vem das Sombras. O último Batman de sua trilogia é um inflamado discurso nesta direção. Batman tenta, ressurge depois de oito anos na obscuridade, mas é cada menos o Salvador. É estoico, mas sabe que é falível. E as sombras penetraram fundo na alma de Gotham.

As mesmas sombras estão muito presentes em Skyfall, a 23ª aventura de James Bond, onde Sam Mendes assume o papel de iconoclasta da vez.  O inimigo vem de dentro do próprio MI-6, bastião da honra e da retidão. Não há escapatória. Tanto que M, papel de Judi Dench, a certa altura da trama, revela: “não sabemos quem são nossos inimigos, eles estão nas Sombras. Vocês se sentem seguros?”

Bond não se sente. Sucumbe. Daniel Craig é o Bond mais viril, truculento e carismático, ombreando Sean Connery, sem dúvida alguma. Mas Mendes descaracteriza o herói por completo, tirando-lhe mulheres, gadgets e os martinis, e lhe entregando um efeminado Javier Bardem como alvo. Bardem longe de seu melhor, aliás. E mesmo este Bond viril ao extremo não termina bem suas lutas. Não finaliza com precisão, hesita, erra. Quem é Bond agora? Um Highlander dos grotões da Escócia, defendendo a mãezinha, ajudado por um menino imberbe. O Mito cai. Bond é um Humano comum.

O filme é instigante e tem todos os méritos ao repensar o personagem, um dos mais emblemáticos e longevos da indústria do entretenimento. O Mundo sem Esperança precisava de um novo tipo de Bond. Mendes, Sam Mendes faz o serviço e entrega este Bond duro, leal e rude. Sua grande estratégia é o constrate com o Bond idealizado. Em uma cena emblemática, os espectros de Bond e um de seus algozes lutam com um grande telão do assombroso skyline de Shanghai como pano de fundo. O brilhante mundo novo com velhos heróis foscos a lhe fazer apenas sombra.

Bond, James Bond. Fui um bom herói, mas não sirvo para os novos tempos. Estou envelhecendo. Falho como qualquer outro. Preciso de muita  ajuda para o combate e de trapaças para voltar à ativa.

A tela flui rápida e duas horas e vinte minutos depois a sensação é agradável, todos entregam muito, o filme tem elenco e não apenas Craig. Ralph Fiennes parece ser uma ótima aquisição para a série.

Mendes inova muito. Q encontra Bond diante de uma tela de Turner e faz M, de novo, ter o momento mais ímpar do filme, ao recitar Tennyson e resumir tudo (embora ainda deixando uma última gota de esperança):

We are not now that strength which in old days

Moved earth and heaven; that which we are, we are;

One equal temper of heroic hearts,

Made weak by time and fate, but strong in will

To strive, to seek, to find, and not to yield.

Será?

Nosso heróis ainda não morrem de overdose, mas falta pouco.