O chapéu de Vermeer

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O homem é o homem e suas circunstâncias. O pintor é o pintor e o que ele vê. Este livro vai demonstrar isso de maneira brilhante. O autor utiliza cinco telas de Vermeer (A vista de Delft, Oficial e moça sorridente, Leitora na janela, O Geógrafo e Mulher com Balança) para ilustrar o contexto histórico da época em que foram pintadas. É lícito supor que o que Vermeer via e vivenciava nas ruas de Delft, de onde nunca saiu, estão em seus quadros. E já que ele não saia de lá, o mundo veio até Delft, e Vermeer, em sua curta existência (1632 – 1677), presenciou grandes mudanças em seu meio. Provavelmente muito ele se espantou com as novidades que chegavam ao porto de Delft nas grandes embarcações da primeira corporação de atuação global, a famosa Companhia das Indias Orientais. Timothy Brook é um especialista em história da China, e chegou até Vermeer pelo caminho do comércio. A pujança da sociedade holandesa do século XVII explica-se em grande parte pela ousadia de suas interações comerciais com todo o mundo conhecido. As cinco telas em questão do mestre de Delft dispensam olhar de lince, elas são suficientemente belas para chamar a atenção tão somente pela capacidade mágica do artista em trazer à tona, de forma tão brilhante e peculiar, o cotidiano de uma sociedade em processo de enriquecimento lícito. Mas os detalhes que escapariam facilmente a alguém de olhar menos aguçado, não podem ser ocultados de alguém tão afeito às nuances como Brook. Como e porque certas coisas estão lá ? Um chapéu vermelho de pelo de castor do Canadá? Uma porcelana chinesa ? Tudo tem uma explicação consistente e, via de regra, bastante divertida. O autor sabe narrar a História fundindo fragmentos de realidade com enxertos criativos sobre pessoas e lugares, o que é raro de se encontrar. Um  mergulho no século XVII, no início da primeira grande Globalização. Vale a pena.

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Onde estar em 2013 / Where to be in 2013

Segue uma lista muito particular de lugares e datas para acompanhar em 2013.

1.  Caracas, 10 de janeiro :  Sem Chavez ?

Caracas, 1/10. Life after Chavez?

2. Qualquer lugar, 31 de março, desde que em frente a um televisor: estréia da terceira temporada de Game of Thrones.

Anywhere, 3/31, provided you are in front of a tv set. Season 3 of Game of Thrones begins

3. Amsterdam, 13 de Abril : Reabertura do Rijksmuseum

Amsterdam, 4/13. Reopening of the Rijksmuseum

 

4. Paris, 6 de Maio, dia mundial do Orgão, música na Notre-Dame em celebração aos 850 anos da Catedral. Clique aqui para mais informações.

Paris, 5/6, world organ day. Music at the Notre-Dame de Paris in celebration of its 850th anniversary. Click here for more info.

5. Argentina, 7 de junho. Classificação da Argentina para o Mundial de 2014, Argentina vs. Colombia

Argentina, 6/7. Match Argentina vs. Colombia will define that Argentina will take part in the soccer World Cup Brazil 2014

6. Londres, entre 26 de junho e 8 de setembro, exposição Vermeer and Music: The Art of Love and Leisure

London, between 6/26 and 9/8, exposition Vermeer and Music: The art of love and leisure

7.  Dallas, 22 de Novembro, Dealey Plaza. 50 anos do assassinato de JFK pelo covarde Lee Oswald

Dallas, Dealey Plaza, 11/23. 50th anniversary of the assassination of JFK.

É isso aí.

Um Vermeer em São Paulo

WomanInBlueReadingaLetterPara nosso deleite, o quadro “woman in blue reading a letter” será exposto no MASP a partir de 12 de dezembro, dentro do esforço do Rijksmuseum para divulgar a sua reabertura no próximo ano (dia 13 de Abril, mais precisamente). A informação não consta ainda nem do site do MASP, mas o próprio Rijskmuseum confirma a informação.

A tela em questão, restaurada recentemente, já esteve este ano na China durante Outubro e do Brasil irá para os Estados Unidos. É uma oportunidade incrível, pois pelo que consta, nunca um quadro de Vermeer esteve por aqui antes. E “woman in blue reading a letter” é um prato cheio para uma iniciação na magia do grande pintor holandês. A tela é rica no que Vermeer sabia fazer de melhor, que é enfiar o expectador na cena como se ele estivesse ocorrendo naquele exato instante, e conduzir nosso olhar para o ponto focal do que ele quer verdadeiramente mostrar através do jogo de luz.

Na tela em questão, a luz nos conduz para o ventre da mulher (grávida?) que lê uma carta de seu marido (que está viajando, mensagem dada pelo mapa na parede). A notícia parece ser importante, nossa personagem deve ter se levantado subitamente (veja a cadeira jogada para trás no lado direito da tela). Mas mais do que tudo isso, o conjunto da cena é extremamente envolvente, a riqueza dos detalhes, o convite à contemplação. Notem, por exemplo, a dobra superior da carta, um truque singelo, mas de belíssimo efeito. A reprodução aí de cima é do próprio Rijks, em alta resolução. Um show.

Mais sobre Vermeer você encontra aqui.

A exposição Vermeer e a Dutch Golden Age em Roma

A exposição “Vermeer – o século de ouro da arte holandesa” está em cartaz em Roma até 20 de janeiro de 2013. A curadoria, que inclui Walter Liedtke, do MET, fez um excelente trabalho. Liedtke é dos maiores especialistas em Vermeer, tendo publicado inúmeras obras de qualidade a respeito do grande pintor de Delft, que tem oito de seus trinta e seis quadros na mostra. Inúmeras outras peças de autores de grande importância no contexto da Dutch Golden Age e de importância maior ainda para entender a grandeza de Vermeer completam a exposição, cuja grande feito é lograr contextualizar, comparar e evidenciar o gabarito de Vermeer através do contato também com seus pares e co-irmãos.

De Vermeer temos, na ordem sugerida da exposição:
1. The Little Street
2. Saint Praxedis
3. The Girl with the wine glass
4. Girl with the red hat
5. Lute Player
6. Young woman seated at a virginal
7. A young woman standing at a virginal
8. Allegory of the catholic faith

Pode-se argumentar que as grandes obras de Vermeer não estão representadas. As incrivelmente famosas Girl with the Pearl Ring e The Milkmaid, por exemplo, ficaram de fora. Mas as oito peças escolhidas perfazem um panorama brilhante das distintas fases da arte de Vermeer. Os temas religiosos estão presentes, assim como um tronie e as celebradas cenas do cotidiano.
Peter de Hooch e Gabriel Metsu são os outros dois artistas merecidamente realçados. É importante entender o contexto da pintura flamenca na época de Vermeer para que se tenha uma correta compreensão sobre sua obra. Os pintores em questão não são contratados da realeza ou da alta burguesia. Daí os temas mais banais, da vida cotidiano estarem tão presentes. De Hooch e Vermeer conversavam formalmente a respeito de obras e Metsu teve acesso a diversos quadros de Vermeer. Metsu, em pelo menos duas obras, ombreia com Vermeer. Em “A woman writing a letter” e A man writing a letter”, temos duas obras-primas. Os temas e padrões se comunicam, não só no caso de De Hooch, Metsu e Vermeer, mas também em relação a vários outros artistas, como Fabritius, tido por muitos como mestre de Vermeer.
É na comparação com todos eles que vemos porque Vermeer se destaca, ao elevar a pintura de gênero a patamares nunca vistos. Emblemática é a comparação da Saint Praxedis de Vermeer com sua homônima de um pintor italiano. A cópia é quase literal, mas deixa claro as preferências de Vermeer pela luz, pela intensidade do momento.

A diminuta tela da pequena rua de Delft nos exige um esforço adicional para admirar os inúmeros detalhes, e por isso talvez desperte tanto entusiasmo.

O que dizer de “The girl with the wine glass”? Brilhante nos refinamentos, como na taça de vinho, onde Vermeer “pinta” a transparência de um modo incrível.

A imagem escolhida para ilustrar a exposição, a moça do chapéu vermelho, enigmática, sedutora ao mesmo tempo em que de beleza questionável. Um tronie interessantíssimo.

Três cenas já clássicas de mulheres em cenas com instrumentos musicais compõem um interessante recanto da exposição, que fecha com uma obra de motivos religiosos, a alegoria da fé.

De agora até janeiro você pode até ir a Roma e não o Papa, mas você tem de ver Vermeer.

O Geógrafo não perdoa: Erros de “Encontro Explosivo”

Sempre atento!

É uma bela diversão o filme “Encontro Explosivo”, com Tom Cruise e Cameron Diaz. Excelentes cenas de ação e ritmo bem desenvolvido, bons diálogos que proporcionam risadas soltas. Mas os meus olhos não ficam isentos. Eu não consigo deixar de mencionar duas, digamos, “licenças” da produção:

1. Quando a ação se desloca para a Espanha, a cidade escolhida é Sevilla, e há uma espetacular cena de perseguição nas ruas estreitas da cidade. Mas resolveram dizer que era dia de San Fermin e colocaram uma corrida de touros pela ruas da cidade andaluza. Os touros, é certo, correm à solta na rua no Dia de San Fermin…. em Pamplona. Vejam neste link a fúria dos sevilianos com esta licença poética:

2. Agora estamos no Chile, em uma cena de praia. Os protagonistas rumam para o Cabo de Hornos (a legendagem brasileira não se dá ao trabalho de traduzir, deixa “Cape Horn” mesmo). Na placa, duas distâncias:
Santiago 1200km
Cape Horn 3275km

Ora, O Cabo de Hornos está na última ilha do continente americano, na direção da Antártida, após a Bahia Nassau, sendo impossível o acesso por terra. Somando-se as milhas naúticas da passagem desde Puerto Williams, pode-se estimar que o Cabo está a 3800km, mais ou menos, de Santiago. É, portanto, imposível estar a 1200km de Santiago e a 3275km do Cabo. Supondo que o filme queira situar os protagonistas entre as duas cidades, isso equivaleria a uma distância de 4475km. O Geográfo não perdoa, quer exatidão total.

Cortesia de http://www.patagonia-chile.com

Vermeer: Chegue bem perto

A mim sempre interessou mais a floresta do que a árvore, mas Vermeer acaba de mudar isto. Sim, porque quando nos deparamos com os quadros de Vermeer….bem o detalhe é muuuito importante. O mestre era capaz de pintar o impossível, como a textura do tecido, a luz da janela que não se vê, a transparência do copo e, mais importante que tudo, a fração de segundo que capta ação… É deveras impressionante!

Apesar de pairarem ainda algumas poucas dúvidas, hoje se considera que 36 obras-primas chegaram ao século XXI como sendo inquestionavelmente daquele que assinava como IVM. É pouco e é muito.

Nos impressionistas, com seus, digamos, borrões mágicos, a distância ajuda. Para olhar as enormes telas de Monet na Orangerie você não precisa de óculos, e quanto mais a visão puder captar o todo, melhor. É igualmente fascinante, mas sentimos que a Oragerie fica pequena. Mas Monet é outra história. Em Vermeer, é melhor chegar bem perto. Muito perto. Não só porque a maioria das telas teem formato reduzido, mas principalmente porque o minúsculo diz muito. Uma toque do pincel, que em certos casos parece ter uma ponta, digamos, 0.0001, produz o efeito mágico do pingente do brinco, da borda do copo, da luz atravessando a folha.

Entender a obra de Vermeer é mergulhar em um universo incrível, onde o detalhe é sublime, e a captura do momento é inigualável. Quando Vermeer pinta a personagem de “A Lady writing” olhando para o público, é como se ele captasse o exato instante em que ela se virou. Ainda vemos os cabelos se ajustando, o brinco quase que ainda balançando e a boca semi-aberta expressando a primeira parte da sílaba que será pronunciada. Quando Vermeer pinta “o Geógrafo”, segurando já mais debilmente o compasso e olhando fixo para além do quadro, já desprezando o mapa sob a mesa, é como se ele capturasse o exato instante em que o homem faz a descoberta e racionaliza sobre o que está apreendendo naquele instante.

Deixo aqui estes dois exemplos da maravilhosa obra de IVM.

É isso aí!

(em tempo: estou debruçado sobre todas as 36 peças de Vermeer, e postarei mais a respeito).