Tempestade

Aquela nuveada toda ia se amontuando de mansinho, detras do morro do Bispo e vinha chegando tal qual louva-deus vai aparecendo devagarzinho por detras de uma pedra. Quando ce ve as perninhas de palito dele, ela já ta babando para te da o bote.

E começou uma barulheira dos inferno, uma trovejeda que parecia que os santos estavam carreteando todas as coisas para mudar o mundo de lugar e tudo trombava feito jegue cego no meio de um estouro de boiada.

E pois que me deu uma coceira no meio das venta, daquelas que so me dá quando o homi la em cima vai mandar lavar toda a terra, de aqui até as quebradas do Nho Tonho, que fica, lá para detrás do morro de onde se avista o riacho que dizem, vai dar no mar, depois de encher o açude dos Macedo.

E de uma hora para outra, que é modo de dizer, pois foi mesmo é de um minuto para outro, desabou um relampido, que só pode ter este nome por que é um estampido com um relho brilhante na ponta. Tinha um cajueiro que ficou mais preto que o Temedeu, o negro retinto do seu Alcebiades.

Me botei a esfolar o Jeremias, para modo de vê se o tonto ia mais velozmente, se se metia a balançar as ferradura, mas o danado preferia se arrastar mais manso que o balofo do seu Ramao vira na rede na hora de sestiar.

E veio o agueiro. Vinha de cima e vinha de baixo, repicando na terra e voltando para cima como que os pingo querendo voltar de donde tinha vindo.

E vinha de lado, pelo volteio da dobra do vento que soprava feito gaita.

De modo que eu e o Jeremias viramo um barro só. Para modo de aproveita aquela barrama eu fui juntando nums montinho que ia tomando forma de tijolo. Resolvi guarda aquilo que me alembrei que tinha de completar o muro de arrimo la do meu sobradinho.

Quando vi passar o Temedeu, correndo para o outro lado, todo amarronzado também, tava que só os fundo dos oio se via

Pois já tinha visto de tudo, menos tempestade de branquear neguinho e pretiá caju. Ô coisa tremenda.

A sombra e a luz, fábula em um ato.

A sombra e a luz
Passeava a luz alegremente pela floresta quando se depara com uma arvore frondosa, de galhos amplos, de cujas folhas pendiam muito frutos de aparência saborosa.
A luz decide descansar e se acomoda sob a arvore, encostando-se no tronco. Ao adormercer, se apaga por um instante.
Nisso vem a sombra, e a tudo engole e a todos remete a uma escuridão terrível.
Diz a arvore: levanta-te, luz, devolva-nos o dia, a vida, a alegria!
A luz, inabalável, retruca:
Eu não, cansei de tudo iluminar, de ser radiante, quero o ostracismo
A sombra, embora ninguém possa ver, sorri à larga.
A arvore indigna-se e grita, exasperada:
Mas feneceremos todos neste breu, neste mar sem fim de negrume inóspito!
Cala-te ente, o mundo precisa de um pouco de Nada agora. 99% do universo é assim, breu total. Já escutaste alguém reclamando disto?
E a árvore, apelativa: Mas somos nós, este 1%, que fazemos a diferença! Luz: volte por favor!
Esqueça. Detesto minorias, quero me juntar ao grande e democrático Nada Total. Vamos! Ao breu!
Não consta que o Universo tenha reclamado de agregar o ultimo bastião de resistência.

Minicontos

  1. Tira o teu da reta, sai da frente do cara. – Não. Deixo o meu na reta. O que nasce torto nunca se endireita. Tô seguro.
  2. De pequenas e efêmeras circunstâncias surgem duradouras consequências. Do furo no látex, por exemplo.
  3. Entra em cena o albatroz. Curioso animal, me circunda do alto, como que atônito com o meu deslizar sôfrego sobre a areia fofa.
  4. Entro pelo algoritmo, me hospedo na nuvem. Oráculo portal não me virtualiza. E não há app para existencializar. Não pio.
  5. Adentrou o bar e viu o alvo junto ao banheiro. Sem vontade, simulou se aliviar. Mão no zíper, sentiu a lâmina fria no pescoço.
  6. A todos igualava na baixeza dos tratos. Pensava-se o maior. O que não tem igual, o Um. Mas pereceu diante de Algo Novo.
  • Todos preparados com no máximo 140 caracteres para entrar na disputa do #saraunoar, promovido pelo Marcelino Freire, via Twitter.  Ótima experiência.

Amuleto

Aksar Dratov adentrou o bar e em três milissegundos mapeou o terreno. Sua visão aperfeiçoada era de grande auxilio quando precisa executar missões como aquela. Identificou o alvo em uma mesa próxima a entrada do banheiro masculino. Dratov simulou que precisava ir até o mesmo somente para passar bem em frente àquele que em breve sofreria a sua fúria. Ao passar calmamente em frente ao homem, sua mão direita foi ao bolso da calça, em busca de seu amuleto. A certeza de que ele estava lá o tranquilizou. Dratov nunca executava uma missão sem ele.
O estranho é que ao adentrar o banheiro ele realmente teve necessidade de se aliviar. Acomodou-se em frente a um mictório livre, e pôs-se a urinar calmamente.  Quando começou a fechar o zíper da calça, sentiu a lâmina fria junto ao lado esquerdo do seu pescoço.
Era a sua vitima.

Antes que pudesse reagir Dratov viu, pelo espelho, o amuleto indo parar na mão do homem.

Inovo, logo crio o que existe.

Fiz este texto para homenagear a um amigo e colega. Mas preciso dividir com todos vocês.

Motivados pelo Novo, seguimos o caminho como Veículos do Inexistente. Esperançosos virais de hipóteses a serem comprovadas. Instigadores do inédito. Rejeitamos a acomodação, refutamos crer que não se possa fazer melhor, quer pelo simplesmente diferente, quer através do inusitado. Adoramos respostas que abrem mais perguntas, como a luz passando pelo prisma e abrindo mais alternativas. Olhamos o passado para apreender, mas mais ainda, cerramos os olhos para tentar enxergar o que está além do horizonte. Escutamos a voz da experiência, mas aguçamos nossos ouvidos de vez para um som cujo timbre só o mais profundo silêncio pode nos permitir escutar: a voz interior que nos impele a fazer o que ainda não foi tentado. Sentimos na pele todas as coisas boas e também todas as agruras, mas nos arrepiamos mesmo é com o frisson das perspectivas do que ainda não pode ser tocado. O mau cheiro daquilo que fenece, que se vai, não nos incomoda porque sabemos que logo, logo o que recém floresce trará aromas indescritíveis. E, mesmo que tenhamos tido que engolir alguns indigestos sapões ao longo da luta, seu gosto arrefece diante do que realmente nos faz salivar.

A Inovação como Norte não é como agarrar-se a uma tábua de salvação, ou a uma Esperança apenas alicerçada na Fé. Tábuas de salvação e Esperança estão para os que se deixam levar, para os apóstolos do Acaso, do fortuito, dos Deterministas. A Inovação como Norte é terra de bravos, dos destemidos, dos que moldam a sinapses o que virá, o que será, o que iluminará. Há algum espaço para improviso, e os erros são partes do acerto maior. Mas, finalmente, o que garante o êxito da empreitada é este meu, teu, nosso Indomável Espírito do Buscador.

Mudança

De saber-se um crápula exalava com precisão os maiores impropérios. De achar-se um divino executava as maiores imprudências. De ter subjugado a todos mantinha os olhos fixos no nada.

A tudo e a todos igualava na baixeza dos tratos, na imundície dos pensamentos, na agressividade dos gestos. Pensava-se o maior. Aquele que não tem nem nunca tivera nenhum igual, a referência, o Um.

Foi quando se sentiu apunhalado vigorosamente, a espada cravando-lhe o coração bem no meio. Da horda de seguidores surgira aquele vergalhão imenso. Da multidão disforme havia se sobressaído Algo Novo, ganhado altitude e força e sobre o Um lançou-se como um bólido de videogame. O atingiu e se foi. De relance, Um viu Algo Novo voltando a se imiscuir entre todos, mas não sem antes poder perguntar:  “Como te chamas”. Algo Novo,  já percebendo a vitória iminente, responde, altivo: “Sou a mudança,  o que ainda não vês, mas que já te rondava havia muito. Fostes demasiado obtuso, o teu riso sempre presente, e não te destes conta, o poder te fragilizou”. O que antes era o impiedoso Um se desmantela diante de Algo Novo. “Incorpore-se a mim, implorou o Um,  juntos seremos ainda maiores e imbatíveis”. Algo Novo contesta: “Não percebes que já estás caído. Logo, logo te farei arder, já não podes mais. Resigna-te”.

E o Um fenece. Um que antes era tudo, já nada. E resplandece Algo Novo. Instantes depois, porém,  já se percebe neste os mesmos certos sinais que eram tão comuns em Um, os lábios vão se aproximando das orelhas lentamente, o que com certeza surge é um sorriso.

Na multidão, candidatos já se agitam. Algo Ainda Mais Novo já desponta célere e começa a sobressair da horda de seguidores com uma faca afiada na bainha.

237

Éramos sóis, éramos felizes, éramos a eira e a beira. Da grande teia, ninguém, um minúsculo fio. 
Éramos assim, éramos assado, éramos o queríamos ser. Na veia, só sangue bom. 
Éramos muitos, éramos nada, éramos a grande virada. Na corrente, porém, o elo fraco. 
Éramos demais, éramos o enigma, éramos a esfinge. Mas não nos decifraram. 
Éramos a solução, éramos o padrão, éramos o que ninguém mais era. Mas não nos escutaram.
Éramos erráticos, éramos volúveis, éramos frágeis. 
Somos poeira das estrelas.