Tempestade

Aquela nuveada toda ia se amontuando de mansinho, detras do morro do Bispo e vinha chegando tal qual louva-deus vai aparecendo devagarzinho por detras de uma pedra. Quando ce ve as perninhas de palito dele, ela já ta babando para te da o bote.

E começou uma barulheira dos inferno, uma trovejeda que parecia que os santos estavam carreteando todas as coisas para mudar o mundo de lugar e tudo trombava feito jegue cego no meio de um estouro de boiada.

E pois que me deu uma coceira no meio das venta, daquelas que so me dá quando o homi la em cima vai mandar lavar toda a terra, de aqui até as quebradas do Nho Tonho, que fica, lá para detrás do morro de onde se avista o riacho que dizem, vai dar no mar, depois de encher o açude dos Macedo.

E de uma hora para outra, que é modo de dizer, pois foi mesmo é de um minuto para outro, desabou um relampido, que só pode ter este nome por que é um estampido com um relho brilhante na ponta. Tinha um cajueiro que ficou mais preto que o Temedeu, o negro retinto do seu Alcebiades.

Me botei a esfolar o Jeremias, para modo de vê se o tonto ia mais velozmente, se se metia a balançar as ferradura, mas o danado preferia se arrastar mais manso que o balofo do seu Ramao vira na rede na hora de sestiar.

E veio o agueiro. Vinha de cima e vinha de baixo, repicando na terra e voltando para cima como que os pingo querendo voltar de donde tinha vindo.

E vinha de lado, pelo volteio da dobra do vento que soprava feito gaita.

De modo que eu e o Jeremias viramo um barro só. Para modo de aproveita aquela barrama eu fui juntando nums montinho que ia tomando forma de tijolo. Resolvi guarda aquilo que me alembrei que tinha de completar o muro de arrimo la do meu sobradinho.

Quando vi passar o Temedeu, correndo para o outro lado, todo amarronzado também, tava que só os fundo dos oio se via

Pois já tinha visto de tudo, menos tempestade de branquear neguinho e pretiá caju. Ô coisa tremenda.

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Para bom Inovador, nem TODAS as idéias bastam

Idéias que surgem em fluxo exorbitante. Uma metralhadora de pensamentos.

Rajadas de planos mirabolantes, às vezes grotescos, para posterior lapidação. Visões vomitadas em lindas sinapses. Não consegue parar, é um depósito sem fundo de futuros possíveis. Inesgotáveis os cenários que desafiavam toda lógica conhecida e que vazam a todo instante de dentro dos bolsões latejantes dos seus hemisférios.

Questiona sem parar, em constante maré alta, inundando os incautos à sua volta. Do alto de seu poder gerador, nada parece improvável, impraticável, impossível, irreal.

Não arrefece. Tudo é apenas questão de tempo e esforço. Se ainda não existe, é porque ainda não fora pensado.

Não conta com barreiras de nenhuma espécie. Aposta na força pura das construções de sua mente. Um celeiro de sementes fortes, fertilíssimas.

O inesperado, o inacreditável, tudo dentro de si. Um homem além da imaginação.

Não criar é morrer se debatendo com as impossibilidades da Imperfeição.

Vai um arzinho aí, patrão?

Existem semáforos que não servem para organizar o trânsito, eles apenas regulam onde você vai continuar parado, se antes ou depois dele. Nestes grandes nós da Urbe-mor, lá estão eles. Os ambulantes, que perambulam lépidos e faceiros por entre os carros, estes verdadeiros imóveis que fumegam, com seus pacotes e mais pacotes daquele chocolate aerado. Eles não têm nenhum outro, só este, o dos inúmeros furinhos de ar. Repito, nenhum outro. Esteja você parado onde estiver, eles só te proporão aquele. O da embalagem vermelha. E eu fico me perguntando por que esta preferência, qual a razão deste monopólio? Por que desprezam tanto os motoristas que anseiam por um outro, digamos, um mais crocante? Ou um outro que amoleça menos rápido? Ou ainda um com recheio de castanhas, passas, o que seja? Não, só te oferecem o do recheio de arzinho.

E é barato, mais barato que no mercado, mais barato que no armazém da esquina, mais barato que em promoção de site de desconto coletivo, mais barato que em qualquer outro lugar. Por que será? Será mais fácil de transportar, sendo mais leve, tendo ar?

Será falso? Terá ar de segunda injetado nele? Ou pior ainda, conterá algum tipo de gás venenoso, letal? Estariam fora do prazo de validade? Derretendo? Provavelmente não, já teriam descoberto a fábrica clandestina há muito tempo. Ninguém pode produzir tanto chocolate impunemente. Seria um ato estratégico de desova da fábrica oficial? Uma tentativa desesperada de livrar-se de um choco-abacaxi? Provavelmente não, o tal furadinho também vende bem nos supermercados, nos botecos e em farmácias. Adicionalmente, quanto mais sobem as commodities, o açúcar, o cacau e etc, melhor vender ar. Aprendi que a densidade do tal areado pode ser a metade da de um chocolate sem furos. Portanto, não há lógica econômica na questão. Mas alguma lógica deve haver, embora eu não consiga encontrá-la.

Só de pirraça, nunca compro o tal do arzinho, nem no semáforo, nem no mercado, embora morra de vontade.

Até o sinal abrir para mim, daria para devorar uns dois.

Dúvida de Mãe

Fez-se Homem muito cedo, criado por Ela como Ela criou a todos os Outros. Não teve regalias, não teve privilégios, mas Ela foi uma boa Mãe, isso não se pode negar. O fez compreender logo cedo que a vida seria difícil. E Ele sofreu intempéries, fugiu de inimigos atrozes, escapou de grandes riscos. “Este Me saiu diferente”, pensava Ela. E Ele soube desbravar o caminho e assim foi evoluindo. Tinha um cérebro privilegiado, aquele Filho. Dotado da capacidade de aprender, inclusive com os erros dos Outros Filhos, mesmo os mais distantes. Mas tudo isso não foi suficiente. Embruteceu-se o Filho pródigo. Talvez porque não tenha guardado lembranças de ternura. Mas Ela foi terna, Ele é que não se lembra, deixemos claro. Embora em alguns momentos Ele A tenha adorado e também aos Seus Parentes. Ele Os cultuou e Os reconheceu como Gente importante, que dominavam coisas que Ele sozinho não podia explicar, apesar de toda Sua sabedoria. Houve um momento em que Ele precisou Se aquecer e a partir deste instante Se mostrou hábil na criação do Novo.  Impetuoso, seguro de Si, a partir deste instante, Ele saiu a procura de mais. Já não bastava sobreviver, era importante fazer daquele lugar um lugar cada vez melhor. Para tal, mudou de hábitos constantemente, esqueceu o Seu passado e construiu vários Futuros, sempre usando o Novo. Hoje, este Homem já resiste a quase tudo, apenas uma ou outra doença o levam à beira da Grande Viagem com frequência. Antes, com baixa resistência, adoecia por qualquer coisinha. Hoje o lugar está melhor, não necesariamente para todos que o compartilham, mas Ele assim o pensa. O Homem com o Novo revolucionou o status quo, não uma nem duas vezes, revolucionou sempre, até dominar céu e terra, água e ar. Ela sempre observando, ora reagindo um pouco aos Seus modos, ora O deixando em paz para que Ele criasse seu próprio Mundo. Não tem sido uma convivência fácil. Como toda Mãe, Ela sofre muito por Ele ser tão independente, tão senhor de Si. No fundo Ela sabe que Ele, apesar de inteligente, é orgulhoso a ponto de perder-Se em Sua confiança desmedida de tudo poder, do Todo Poder. Um dia tudo acabará mal, mas o que Ela pode fazer, senão avisá-Lo, adverti-Lo, tentar orientá-Lo como pode? Como todo Filho, Ele já faz muito não Lhe dá ouvidos. Despreza Suas atitudes e ignora Seus recados. Às vezes até finge que dá atenção a Ela, mas logo esquece Suas vãs promessas de que vai melhorar, de que vai consertar o que tem feito de errado. Mas sempre posterga. Ela sabe que talvez já seja tarde demais. E sofrerá ao ver o próprio Filho extinguir seu futuro. Neste caso, Ela bem sabe, de tão poderoso que Ele se tornou, Ele acabará por extingui-La também. E Ela fica com esta dúvida, que abonima, por ora pensar que pode não ser tão ruim o fato de que em breve não mais poderá gerar Outros como Ele.

Da série: “poesia, aqui me tens de regresso”

O meu silêncio escancara

O que minha fala mascara

A minha topologia não é plana

Mas minha escrita é que te engana

Meu toque assim com desapego

Tira todo teu sossego

Filmo o alvoroço

Dos pelos em teu pescoço

E com um olhar sem critério

Sigo navegando este Império

Nas tuas fendas

Minhas oferendas

Em tuas entranhas

Minhas façanhas

Por teus dotes

Meus pinotes

E preencho de bravuras

Tuas ranhuras

Pulsam artérias

Muito sérias

Sobram sandices

Em tuas planícies

E por entre as brechas

Das tuas mechas

Saio, retirante

Pobre Infante

Versão nova

Estou espantado com esse modelo que chegou hoje. Ele já vem com identificador de cinismo à distância, regulagem automática do pacienciômetro contra chatos e malucos em geral e um compartimento extra de suporte ao sofrimento em escadas, lombas e qualquer coisa íngreme e pesada que se ponha à sua frente.

Tem resistência avançada também a esperas em aeroportos, incluindo alta tolerância a downgrades de cartões de milhagens. Alta adaptabilidade a choques térmicos e incrível capacidade de apreciar coisas diferentes. Pode apreciar desde um quiabo frito até sopa de cérebro de lagostim. Não se surpreende com nada, nem com os chapéus mais bizarros que circulam em casamentos por aí.

Bacana que esta versão chegou bem no dia 1 do Novo Mundo, (AO – after Obama, digo Osama). Talvez já tenha todas as adaptações necessárias para a vida que seguirá diferente agora, dizem. Sim, porque o último modelo que eu estava usando demorou para se acostumar com as novidades, tipo o botão de curtir e até aprender que era esparramando os dedos em telas touchscreen que as imagens se alargavam foi um sufoco!

Tem alguns probleminhas, porém. Acho que o controle emocional veio desregulado, chora em desenho animado e começa a espumar de raiva ao primeiro minuto de um engarrafamento, por exemplo. Também não entendo os pneus extras e o enorme air bag que está se formando ao redor do umbigo. Os pêlos certamente preciso mandar para recall: estão sumindo do topo e aparecendo nos lugares mais estranhos, como nos dispositivos escutadores. Vai entender, mas de maneira geral até que é um 4.6 bem confiável e direitinho. Vou usar com moderação.

Vou te contar…O 29

Meu Tio vinha no 29. Quando eu ia para a escola, esperava no ponto pelo 29, mesmo que demorasse mais, e na volta também o esperava. Outros da minha linha, da mesma viação, passavam e eu ali, estanque. Eu tinha de embarcar no 29. Meu tio liberava a catraca para mim. Era o meu momento de impunidade, de exercício (passivo!) de nepotismo, de abuso de poder. O 29 não era dos melhores, mas e aí? O 29 cumpria o seu objetivo. E meu tio, não sei como, fechava o caixa no final do dia, mesmo sem me cobrar duas vezes. Provavelmente ele não bancava a conta, o salário dele não daria para isso. Nunca perguntei para ele, porque favor não se explica, mas desconfiava que os demais passageiros pagassem a fatura. Eu nem aí. Muitas vezes. ia até o fim da linha com ele, os passageiros iam saltando,  e eu ficando, no fundo do carro, vendo meu tio iniciar os trabalhos de contagem e ensacamento daquela moedama toda…Era uma diversão ir até o fim da linha, ser o último a sair. Nas últimas paradas já não havia movimento algum, e meu tio começava a cochilar, mesmo com aquela trepidação toda das ruas de paralelepípedos. E a moedama tilintando loucamente.
No tempo do meu tio, sem a tecnologia de hoje, era tudo no dinheiro, nada de cartões magnéticos previamente carregados. Os saquinhos de moedas, cheirando a níquel, azulados, eram imensos. Moedas de um, dois, cinco, dez, e cinqüenta centavos. E as enormes moedonas de um cruzeiro. Notas, quase nenhuma. Os bolsos do meu tio estufavam de saquinhos de moeda, pesadíssimos, uma bolsa de naca que ele levava no ombro e caia sobre sua barriga imensa também. Uma vez imaginei meu tio sendo tragado por um imã gigantesco, que alguém içava pela janela de um andar alto de um prédio. Imaginei que o prédio ficaria penso para frente pelo peso de meu tio, subindo grudado ao imã. Peso que eu supunha já ser absurdo com ele nú, quanto mais com os sacos de moedas.

E meu tio vinha com aqueles sacos todos os dias para casa, morava com a gente, que era mais perto para ele sair para o trabalho. Os ônibus largavam cedinho do fim da linha. Daí lá ia meu tio, para o fim da linha, cedinho, a camisa para fora da calça, os botões estourando, a barrigona aparecendo, e ele já suando logo de manhãzinha, uma cinza de cigarro dormindo na curva da pança, outra quase caindo do canto da boca para lhe fazer companhia. Achava que meu tio dormia fumando e com os sacos de moeda nos bolsos. Parecia usar sempre a mesma roupa. Aliás, o estado do 29 parecia combinar com o meu tio. Nem dava para imaginar meu tio no 33, aquele carro novíssimo, com freio a ar, cujo assento do motorista subia e descia com ajuste hidráulico e que tinha um painel era luminoso, anunciando a linha com galhardia. Não, definitivamente, meu tio pertencia ao 29, onde ele sentava de lado para a barriga não encostar na caixa do dinheiro.

E chegava o carro ao destino, e subia o fiscal:

– Fim da linha, salta aí rapaz, ou tá pensando que vais voltar sem pagar?