Filosofando com Flash Forward

Nunca vi Lost. Nem um capitulozinho. Foi na época em que eu estava dedicado a outras coisas. A última série de ficção que me lembro é Arquivo X. Ou seja, talvez minhas referências estejam um pouco defasadas. Mas que a nova série da AXN é daquelas coisas que fazem sacudir a cachola, ah isso é. Além de muito bem produzida, e com um ótimo time de atores, ela tem aquele algo mais que a coloca em um outro nível. Para mim, é uma grande sacada propor este argumento da “visão coletiva do futuro”. Gradativamente, os personagens estão incorporando a angústia, desconhecida na espécie humana, de saber o seu futuro, ainda que na série, até o momento, este futuro conhecido seja só um momento, um dia daqui a alguns meses. Mas habilmente os roteiros estão desencadeando uma sequência de eventos que vão confirmando a tal visão.

Essa é a parte que me interessa mais, quando a ficção possibilita uma reflexão da condição humana. Então vamos lá:

E como seria, se soubéssemos o nosso futuro? Ainda que fosse um ínfimo momento? No terceiro episódio, exibido em 9 de março, finalmente aparecem os primeiros questionamentos sobre este fato.

O ser humano é o único ser consciente da sua finitude, mas vivemos a vida como se ela nunca fosse acabar, exatamente como os outros animais, que supostamente não sabem que vão morrer, não é mesmo? O inevitável não pode ser combatido. E se tivéssemos consciencia de que sofreríamos um acidente, estivéssemos condenados a ter uma doença grave, ou nos inteirássemos de que iríamos ganhar na loteria, trataríamos da mesma maneira?

Intrigante, não?

Opino que o curso das coisas seria alterado pelas ações que seriam desencadeadas, as quais não faríamos se não soubéssemos do tal “futuro”. E, portanto, aquele futuro esperado já não ocorerria mais….O Destino não seria o que vimos, mas outra coisa. O que vimos então seria reduzido a um simples sonho, como qualquer outro. Pense: o que você faria se soubesse que seria demitido de seu emprego, por exemplo? Provavelmente se esforçaria mais e acabaria não sendo demitido. E se soubesse que desenvolveria uma doença a partir do sedentarismo? Provavelmente agiria para mudar o curso das coisas antes que fosse tarde demais.
E se fosse algo bom, como ganhar na loteria? Provavelmente ficaria tão eufórico que comprometeria todo o prêmio antes mesmo de ganhá-lo, tornando-o irrelevante.
Não há futuro sem as ações que ocorreram no passado e as que ocorrem no presente. O futuro é construído, não nos é dado de brinde. Nós o influenciamos. É como diz o personagem de Joseph Fiennes, no episódio 4:

“Podemos usar o que vimos para impedir o que vimos”

É isso aí,

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House, MD – crítica da 6ª Temporada…até agora

A sexta temporada de House é um choque anafilático direto da TV, sem trocadilhos. Com a parada da exibição de episódios novos neste pequeno recesso de final de ano, dá para tomarmos fôlego e analisar o que vem sendo mostrado, neste que parece ser um momento crítico da série.

Após um começo interessante, com o primeiro episódio do ano tendo o Dr. House como paciente, – inovador, porém longuíssimo e às vezes sem ritmo – a série nos brindou com ótimas sequências na clínica, com o “testa-de-ferrro” Foremann se vendo em apuros e tendo sempre que recorrer ao mestre para salvar os pacientes. Uma das minhas sequências favoritas é quando House não pode falar, e faz uma espécie de “Imagem & Ação” com seus colaboradores. Genial!

A partir da morte do paciente e ditador Dibala, no segundo episódio, a temporada destila uma série de questões éticas primorosas e, pode sim, chocar com brilhantismo. Exemplos? Aos montes: temos a questão de acobertar a causa mortis de Dibala e toda a filosofia sobre se é lícito ou não matar um ditador, porque ele é um assassino que pratica uma chachina étnica em seu país. Eu te encubro, tu me encobres e se ninguém descobre, saímos todos ilesos. A coisa chega até House, que participa da operação salvamento de Chase, porque quer garantir a sua equipe. Mas a própria esposa de Chase o deixa, o que é conveniente para House, que não tem vaga para todos, e precisa trazer 13 de volta. Mas ela o deixa não porque ele matou Dibala, mas porque não se entregou e sucumbiu ao “esquema” do Dr. House…..

Mais a frente, pelo sexto episódio, vemos o foco da trama se deslocar para Wilson (sempre achei este personagem meio apagado) e sua defesa entusiasmada da eutanásia…ótimo momento.

Enfim, não faltaram questões maiúsculas até o momento, morte, conflitos éticos relevantes e tudo o mais. Parece que ao chegar ao sexto ano, a série precisa ousar mais para sustentar-se. Ganha o público.

É isso aí!

HBO Rome

Aproveitando a onda de promoções para séries de TV, acabei finalmente assistindo a Roma, super produção da HBO de alguns anos atrás. Emendei as duas temporadas. O que achei? Bem, é um must, sem dúvida, ainda que a segunda temporada seja menos eficiente ao prender a atenção do espectador ao longo dos seus 10 capítulos. A série vale por um punhado de fatores, entre eles:

1. Humanização: quantas vezes não vimos Roma retratada de uma forma idealizada, a cidade sendo um ícone de limpeza e traços arquitetônicos elegantes, o luxo como uma ubiqüidade? Em Rome da HBO, o que salta aos olhos é a crueza da vida dura do período pré-medieval: a sujeira impera nas ruas, corpos aprodecendo nos rios e bueiros, as casas como verdadeiras pocilgas, exceto, claro, as da nobreza. Prevalece também a apurada pesquisa histórica nas cenas de intervenções médicas, com as “operações” sendo feitas obviamente sem anestesia, e com “instrumentos” elementares, como martelos e pregos.
2. Atores: as escolhas da minissérie foram corretíssimas, principalmente Júlio César na primeira temporada, Servília, Átia e os heróis Pullo e Voreno. Marco Antonio é a encarnação perfeita do cafajeste na segunda fase, e Cleópatra é retratada como uma ninfomaníaca insana e ardilosa.
3. Ousadia: as cenas de sexo e violência foram abordadas com muita ousadia e naturalidade. Como ambas ajudam a compor o cenário histórico da época, não houve gratuidade nem apelação.
4. Reconstituição histórica precisa: Nas roupas, no caos da cidade, na imundície, na pobreza, nas doenças, tudo estava lá. Cabe notar também o apuro com que foi mostrada a religiosidade da Roma-pagã, pré-cristianismo.

Por tudo isso, vale a pena.

É isso aí!

Law and Order : SVU

Ultimamente tenho me dedicado um pouco a alguns seriados de TV. O que se pode apreender assim? Bem, se você estiver diante de algo inteligente, pode render. No caso, trata-se de Law and Order, com o subtítulo, special victims unit. O pessoal mais fanático certamente poderia dar todos os detalhes, mas não é meu caso. Foi por acaso que comecei a ver, e gostei. Vejam só quantos ensinamentos em um só episódio:

a) Sem hipocrisia. O seriado retrata a sociedade americana, e bem. Neste episódio em questão, ao mostrar uma unidade investigatória da polícia em busca de um molestador sexual de crianças, não hesita em acusar padres e rabinos de pedofilia. Ou seja, o time conservador pode ter feito um enorme estrago político por lá, mas daí a concluirmos que a América é um bando de moralistas enrustidos vai um longo caminho. E não protegem os judeus como seria de supor.

b) Auto-crítica. o caso, ao avançar, bate às portas de um questionamento maior da sociedade, e do papel da mídia na socialização. A conclusão é devastadora, ao mostrar o nível de exposição ao indizível a que estão sujeitas nossas crianças.

c) Realidade inescapável. Explorando o caso das comunidades judaicas mais ortodoxas, o episódio também mostrou que a realidade alcança a todos, não há como fugir, mesmo dentro dos altos muros e portões fechados dos condomínios. É melhor, portanto, que o todo fique melhor, para que a vida melhore.

E basta, além de tudo, foi divertido.

Som e Fúria

A melhor coisa da TV aberta nos últimos tempos. Ótimos atores, ótimas sacadas, texto inteligente, montagem expertíssima, piadas deliciosas. Um grande acerto! Quem não pode ver, pelo horário ridículo, compre o DVD. E o bom é que teremos sequência o ano que vem, ao que tudo indica. E quem pode ver as montagens mais recentes de Shakespeare pode apreciar ainda mais, creio. Vejam meus comentários sobre Hamlet e a Megera Domada clicando na categoria teatro aí ao lado.
Dan Stulbach muito bom no papel do Diretor administrativo tolo e invejoso dos papéis mais criativos que ficam sempre reservados para os “outros”. Débora Falabella também ótima (como em A Serpente), muito expressiva. Boa volta de Felipe Camargo, Pedro Paulo Rangel sempre muito bem. Nota detoante para Regina Casé. E o show ficou por conta da Andréa Beltrão. Espetáculo!

É isso aí!