O chapéu de Vermeer

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O homem é o homem e suas circunstâncias. O pintor é o pintor e o que ele vê. Este livro vai demonstrar isso de maneira brilhante. O autor utiliza cinco telas de Vermeer (A vista de Delft, Oficial e moça sorridente, Leitora na janela, O Geógrafo e Mulher com Balança) para ilustrar o contexto histórico da época em que foram pintadas. É lícito supor que o que Vermeer via e vivenciava nas ruas de Delft, de onde nunca saiu, estão em seus quadros. E já que ele não saia de lá, o mundo veio até Delft, e Vermeer, em sua curta existência (1632 – 1677), presenciou grandes mudanças em seu meio. Provavelmente muito ele se espantou com as novidades que chegavam ao porto de Delft nas grandes embarcações da primeira corporação de atuação global, a famosa Companhia das Indias Orientais. Timothy Brook é um especialista em história da China, e chegou até Vermeer pelo caminho do comércio. A pujança da sociedade holandesa do século XVII explica-se em grande parte pela ousadia de suas interações comerciais com todo o mundo conhecido. As cinco telas em questão do mestre de Delft dispensam olhar de lince, elas são suficientemente belas para chamar a atenção tão somente pela capacidade mágica do artista em trazer à tona, de forma tão brilhante e peculiar, o cotidiano de uma sociedade em processo de enriquecimento lícito. Mas os detalhes que escapariam facilmente a alguém de olhar menos aguçado, não podem ser ocultados de alguém tão afeito às nuances como Brook. Como e porque certas coisas estão lá ? Um chapéu vermelho de pelo de castor do Canadá? Uma porcelana chinesa ? Tudo tem uma explicação consistente e, via de regra, bastante divertida. O autor sabe narrar a História fundindo fragmentos de realidade com enxertos criativos sobre pessoas e lugares, o que é raro de se encontrar. Um  mergulho no século XVII, no início da primeira grande Globalização. Vale a pena.

Um Vermeer em São Paulo

WomanInBlueReadingaLetterPara nosso deleite, o quadro “woman in blue reading a letter” será exposto no MASP a partir de 12 de dezembro, dentro do esforço do Rijksmuseum para divulgar a sua reabertura no próximo ano (dia 13 de Abril, mais precisamente). A informação não consta ainda nem do site do MASP, mas o próprio Rijskmuseum confirma a informação.

A tela em questão, restaurada recentemente, já esteve este ano na China durante Outubro e do Brasil irá para os Estados Unidos. É uma oportunidade incrível, pois pelo que consta, nunca um quadro de Vermeer esteve por aqui antes. E “woman in blue reading a letter” é um prato cheio para uma iniciação na magia do grande pintor holandês. A tela é rica no que Vermeer sabia fazer de melhor, que é enfiar o expectador na cena como se ele estivesse ocorrendo naquele exato instante, e conduzir nosso olhar para o ponto focal do que ele quer verdadeiramente mostrar através do jogo de luz.

Na tela em questão, a luz nos conduz para o ventre da mulher (grávida?) que lê uma carta de seu marido (que está viajando, mensagem dada pelo mapa na parede). A notícia parece ser importante, nossa personagem deve ter se levantado subitamente (veja a cadeira jogada para trás no lado direito da tela). Mas mais do que tudo isso, o conjunto da cena é extremamente envolvente, a riqueza dos detalhes, o convite à contemplação. Notem, por exemplo, a dobra superior da carta, um truque singelo, mas de belíssimo efeito. A reprodução aí de cima é do próprio Rijks, em alta resolução. Um show.

Mais sobre Vermeer você encontra aqui.

A exposição Vermeer e a Dutch Golden Age em Roma

A exposição “Vermeer – o século de ouro da arte holandesa” está em cartaz em Roma até 20 de janeiro de 2013. A curadoria, que inclui Walter Liedtke, do MET, fez um excelente trabalho. Liedtke é dos maiores especialistas em Vermeer, tendo publicado inúmeras obras de qualidade a respeito do grande pintor de Delft, que tem oito de seus trinta e seis quadros na mostra. Inúmeras outras peças de autores de grande importância no contexto da Dutch Golden Age e de importância maior ainda para entender a grandeza de Vermeer completam a exposição, cuja grande feito é lograr contextualizar, comparar e evidenciar o gabarito de Vermeer através do contato também com seus pares e co-irmãos.

De Vermeer temos, na ordem sugerida da exposição:
1. The Little Street
2. Saint Praxedis
3. The Girl with the wine glass
4. Girl with the red hat
5. Lute Player
6. Young woman seated at a virginal
7. A young woman standing at a virginal
8. Allegory of the catholic faith

Pode-se argumentar que as grandes obras de Vermeer não estão representadas. As incrivelmente famosas Girl with the Pearl Ring e The Milkmaid, por exemplo, ficaram de fora. Mas as oito peças escolhidas perfazem um panorama brilhante das distintas fases da arte de Vermeer. Os temas religiosos estão presentes, assim como um tronie e as celebradas cenas do cotidiano.
Peter de Hooch e Gabriel Metsu são os outros dois artistas merecidamente realçados. É importante entender o contexto da pintura flamenca na época de Vermeer para que se tenha uma correta compreensão sobre sua obra. Os pintores em questão não são contratados da realeza ou da alta burguesia. Daí os temas mais banais, da vida cotidiano estarem tão presentes. De Hooch e Vermeer conversavam formalmente a respeito de obras e Metsu teve acesso a diversos quadros de Vermeer. Metsu, em pelo menos duas obras, ombreia com Vermeer. Em “A woman writing a letter” e A man writing a letter”, temos duas obras-primas. Os temas e padrões se comunicam, não só no caso de De Hooch, Metsu e Vermeer, mas também em relação a vários outros artistas, como Fabritius, tido por muitos como mestre de Vermeer.
É na comparação com todos eles que vemos porque Vermeer se destaca, ao elevar a pintura de gênero a patamares nunca vistos. Emblemática é a comparação da Saint Praxedis de Vermeer com sua homônima de um pintor italiano. A cópia é quase literal, mas deixa claro as preferências de Vermeer pela luz, pela intensidade do momento.

A diminuta tela da pequena rua de Delft nos exige um esforço adicional para admirar os inúmeros detalhes, e por isso talvez desperte tanto entusiasmo.

O que dizer de “The girl with the wine glass”? Brilhante nos refinamentos, como na taça de vinho, onde Vermeer “pinta” a transparência de um modo incrível.

A imagem escolhida para ilustrar a exposição, a moça do chapéu vermelho, enigmática, sedutora ao mesmo tempo em que de beleza questionável. Um tronie interessantíssimo.

Três cenas já clássicas de mulheres em cenas com instrumentos musicais compõem um interessante recanto da exposição, que fecha com uma obra de motivos religiosos, a alegoria da fé.

De agora até janeiro você pode até ir a Roma e não o Papa, mas você tem de ver Vermeer.

Sunday Vid – Views on Vermeer

Sempre é bom discutir Vermeer.

PforPHOTO - The Art of Photography - by Marcel Everts

Above a few samples of the documentary Views on Vermeer. Some famous and very great photographers talk about the Dutch painter Johannes Vermeer. And how he uses light. Among the photographers: Steve McCurry, Erwin Olaf, Philip-Lorca diCorcia, Chuck Close and others. A must see documentary. So if you have the time please look it up and be inspired.

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O Geógrafo não perdoa: Erros de “Encontro Explosivo”

Sempre atento!

É uma bela diversão o filme “Encontro Explosivo”, com Tom Cruise e Cameron Diaz. Excelentes cenas de ação e ritmo bem desenvolvido, bons diálogos que proporcionam risadas soltas. Mas os meus olhos não ficam isentos. Eu não consigo deixar de mencionar duas, digamos, “licenças” da produção:

1. Quando a ação se desloca para a Espanha, a cidade escolhida é Sevilla, e há uma espetacular cena de perseguição nas ruas estreitas da cidade. Mas resolveram dizer que era dia de San Fermin e colocaram uma corrida de touros pela ruas da cidade andaluza. Os touros, é certo, correm à solta na rua no Dia de San Fermin…. em Pamplona. Vejam neste link a fúria dos sevilianos com esta licença poética:

2. Agora estamos no Chile, em uma cena de praia. Os protagonistas rumam para o Cabo de Hornos (a legendagem brasileira não se dá ao trabalho de traduzir, deixa “Cape Horn” mesmo). Na placa, duas distâncias:
Santiago 1200km
Cape Horn 3275km

Ora, O Cabo de Hornos está na última ilha do continente americano, na direção da Antártida, após a Bahia Nassau, sendo impossível o acesso por terra. Somando-se as milhas naúticas da passagem desde Puerto Williams, pode-se estimar que o Cabo está a 3800km, mais ou menos, de Santiago. É, portanto, imposível estar a 1200km de Santiago e a 3275km do Cabo. Supondo que o filme queira situar os protagonistas entre as duas cidades, isso equivaleria a uma distância de 4475km. O Geográfo não perdoa, quer exatidão total.

Cortesia de http://www.patagonia-chile.com

Mais Vermeer: Análise de mensagens

Como prometido em um post anterior, trago aqui um pouco mais de Vermeer. Fui motivado pelo título de um curso que estava sendo oferecido na Casa do Saber, em SP, “como ver um quadro“.

Não deu para assistir, mas resolvi publicar aqui uma idéia de como é “ver um quadro”. Tomemos o exemplo de “Mulher com a balança”, de Vermeer, o mestre da captura do momento, do instante único. No quadro, pintado entre 1662 e 1665 e que reproduzo abaixo, temos aparentemente uma mulher pesando jóias.

Um olhar mais atento vai nos possibilitar descobrir que ela apenas estava aferindo a balança, uma vez que não há nada ainda nos recipientes.

E partir daí, nossa visão pode ser treinada para captar todas as mensagens que o grande mestre, muito provavelmente, quis passar. Senão, vejamos: Se apurarmos o olhar mais para o alto do quadro, à esquerda, veremos a moldura de um espelho. O Espelho, para muitos, tido como símbolo de vaidade, egoísmo. O ato de pesar jóias diante de um espelho, portanto.

Mais ainda, há ainda a polêmica acerca da provável gravidez da moça (veja o detalhe da parte amarela da vestimenta, na primeira imagem). Se ele estiver grávida, o ato de estar prestes a pesar as jóias, reveste-se de um caráter mais dramático, pois pode indicar a necessidade de vender os bens para fazer frente às despesas com um nome membro na família.

Bem atrás da mulher, finalmente, temos de dedicar nossa atenção ao quadro na parede. A pintura dentro da pintura. Neste caso, temos uma representação do juízo final. Não sabemos se Vermeer tomou emprestado um quadro existente e o reproduziu, ou se ele mesmo criou, direto na sua tela, este quadro dentro do quadro. Como sabemos, a Balança também é considerada um símbolo de Justiça, de ponderação. O Juízo final é um momento, segundo a religião, de acerto de contas.

Tudo isso levado em consideração, o nos quis dizer Vermeer?
É consenso entre os estudiosos, que a mensagem principal do quadro é que devemos conduzir a vida com temperança e justiça. Devemos cuidar bem ao tomarmos qualquer decisão na vida. Devemos ser responsável pelos nossos atos. A alegoria do Juízo Final, a balança, o espelho, tudo diz mais do que originalmente poderíamos pensar.

É isso ai!