Fui ao Futuro e não gostei

A moda agora é falar que o Brasil não é mais o país do futuro. Nosso tão aguardado futuro teria chegado. Agora é se desfrutar, correr para o abraço. O mundo se curva diante do gigante recém acordado do Sul.

Será?  

Pois eu olhei, vasculhei, e não vi futuro algum.  

Todas as mazelas sociais estão aí para se ver. Desnecessário listar o descalabro geral, mas cito apenas um dado incrível: apenas 55,4% dos 57,3 milhões de domicílios estavam ligados à rede geral de esgoto em 2011. Então alô classe média emergente: as vossas novas babás paraguaias ficarão doentes também.

Não resolvemos nenhum dos problemas crônicos nacionais. Não fizemos nenhuma reforma (política, fiscal, previdenciária), não solucionamos nada. Apenas fomos capazes de eliminar a aberração da hiperinflação e colocar a locomotiva nos trilhos minimamente alinhados para crescer de maneira mais constante e firme. Isso equivale a entrar no jardim de infância sendo que o objetivo é fazer uma graduação em nível superior. E os 2,7% do crescimento do PIB ano passado já põe bastante em dúvida nossa capacidade de sequer sermos alfabetizados, digamos assim.

Crescimento este longe de ser sustentável. Fica muito abaixo do potencial, pois temos os mais incríveis gargalos de infra-estrutura. Aeroportos-lixo, portos ineficientes, estradas-buraco, obras intermináveis e burras. Não temos política industrial e em nossa pauta de exportação, oito produtos geram metade da receita. O nível de globalização de nossa economia é baixíssimo e mal as importações aumentam um pouquinho, lá veem medidas protecionistas.

Todo verão os mesmos desastres naturais são causados sempre por chuvas “nunca vistas neste país” e nunca por falta de planejamento, isto sim algo “nunca visto neste país”.

Em pouco tempo, a janela demográfica vai acabar e teremos de confrontar o fato de que por volta de 2030 cada trabalhador na ativa terá de financiar 1 aposentado. Na década de 70 eram 4 para cada 1, hoje já são  menos de 2.

Na educação, não saímos dos últimos lugares no PISA, com qualquer outro paiseco, com o perdão do trocadilho, pisando na nossa cabeça.

Insistimos em não querer aprender com ninguém. Repudiamos os modelos de êxito, sejam asiáticos, europeus, africanos, sempre queremos criar as nossas jabuticabas, as nossas tomadas genuinamente nacionais. Continuamos atravancando exemplarmente qualquer iniciativa empreendedora, seja por impostos, seja por burocracia. Nos últimos 30 anos fomos ultrapassados por Coréia do Sul e outros países em diversos quesitos. Ficamos como uma carroça à beira da estrada olhando os bólidos passar. Para quais países perderemos a corrida nos próximos 20 / 30 anos? Romênia, Bulgária, Cazaquistão, Bósnia? (Ops, todos estes já tem melhor IDH que o Brasil). E lá vem o vietnã, logo alí atrás, dobrando a curva já e nos colocando na alça de mira…

Para terminar, como mudar? Não sei. Só sei que é preciso haver vontade e determinação. Elevar a capacidade de planejamento, alterar prioridades, privilegiar a inovação. Tudo isso pressupõe que pessoas capazes e altruístas estejam à frente do processo, liderando a sociedade. Na democracia, isso se chama votar certo. Cobrar os eleitos e penalizar culpados.

Eu sempre aprendi que futuro é consequência de atos que já ocorreram no passado e dos que estão ocorrendo no presente. Futuro não cai do ceú, é construído. Portanto, vamos parar de acreditar nesta bobagem de futuro que já está aí e mãos à obra!

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