O dia do perfeito idiota brasileiro

Saiu de casa logo cedo, tomou seu carro da garagem e se dirigiu ao aeroporto. Estancou logo de cara em uma grande avenida, onde todos os veículos se espremiam em duas faixas de rolagem, sendo que a terceira era exclusiva para ônibus, onde não passava quase nenhum. Enquanto ia aos trancos e barrancos, tirando da primeira e pondo em ponto morto e depois voltando à primeira, telefonou para a mulher, que deixava o menino na escola. A ligação caiu três vezes em cinco minutos, mas ele conseguiu falar sobre o pagamento do IPVA, enquanto o carro pipocava de buraco em buraco. Não, perdão, às vezes parecia buraco, mas era só a tampa do bueiro em desnível. Melhor parcelar. Deveria levar o carro para alinhamento quando voltasse, pensou. Quando chegou ao destino, não tinha “slot” disponível para a aeronave, então ficou uns trinta minutos em um local ermo do pátio de manobras do aeroporto, apreciando os urubus que removiam o lixão vizinho. A permissão para o charutão acoplar em uma porta nãop veio e saiu do avião em um ônibus, com o qual foi conduzido ao pavilhão de desembarque. Enquanto sua mala não aterrissava na esteira, usou de novo o telefone para falar com um parceiro de negócios na Europa. O cara perguntou se era uma boa vir para a Copa, como estava a infraestrutura do país, coisa e tal. Ele hesitou, mas respondeu que tudo bem, o pessoal havia garantido que seria a Copa das copas,  ele podia vir tranquilo.

Mala extraviada, ligou para a companhia aérea para reclamar. Ouviu que sua ligação era muito importante para nós, ouviu o gerundismo todo, ouvi que não era possível atender a sua solicitação naquele momento, que ele deveria enviar por fax o comprovante do embarque, etc e tal. Deixou passar,  não valeria a pena descobrir onde diabos haveria um fax, por um par de meias e cuecas surradas. Pegou o carro de aluguel e foi para o Shopping almoçar algo rápido, antes de ir para a filial da empresa.  Disputou por 15 minutos algumas vagas de estacionamento com os locais. Perdeu todas e se encaminhou para o valet, que a empresa, obviamente não reembolsaria. Olhou na vitrine aquele videogame que seu garoto queria, em oferta, por quatro mil reais. Sentiu uma coceira na ponta do nariz e deixou para tomar aquela decisão mais tarde. Foi almoçar. Chegou a tempo de participar do final da reunião, onde não se decidiu nada, mas soube que havia sido agraciado com algumas tarefas, coisa simples, para entregar amanhã. No hotel, preparando-se para a longe noite diante do computador, ligou a TV. Propaganda eleitoral gratuita. Assistiu atentamente. Quando anunciaram o inicio de seu programa favorito, um blecaute apagou toda a luz do quarteirão. Ficou às escuras por duas horas, mas tudo bem, com aquela onda de calor, iria tomar um banho gelado mesmo. Não conseguiria fazer as tarefas do trabalho, mas tudo bem, iria negociar com a chefia. Nada que fosse impactar muito na sua próxima 360.

Deitou a cabeça no travesseiro e repousou tranquilo, o dia havia sido muito bom, tirando a turbulência do avião , que o fez derrubar café na camisa, não havia tido nenhum prejuízo excepcional.

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