Nós

Pintava um problema, lá ia o Márcio buscar o novelão de lã no fundo da gaveta. Era de um fio bem grosso, azul, e tinha o tamanho de um melão. Era realmente enorme, ele julgava que se o desenrolasse completamente, teria um linhão de mais um menos uns cinco quilômetros de extensão.

A coisa funcionava. Márcio sacava o novelo, sentava-se à cama e começava a desenrolar, até encontrar um nó. Ao desfazer o nó, pronto! – ele achava a solução para o seu problema. E tornava a enrolar a parte que havia antes do nó. Tinha na verdade duas bolas de lã separadas por um pequeno pedaço de linha. A parte já denodada e a parte ainda a denodar.

Aquilo foi sua toada por anos a fio, sem trocadilho.  

O último grande problema ocorreu faz uns dois meses e Márcio sofreu para desatar o bendito nó que tinha pela frente. Foi quando se deu conta que o novelo estava completamente liso agora. E se pintasse um novo problema, como ele faria agora?

Aquilo o encheu de preocupação. Buscou soluções as mais estapafúrdias. Ele tinha de ter nós para desatar! Temia pelo pior, por problemas insolúveis que ficariam o atormentando dias e dias. Uma noite, a insônia o assolou. Tentava contar carneirinhos, mas o que via eram marinheiros fazendo nós incríveis enquanto pulavam a cerca. Quando finalmente caiu no sono, sonhou com Górdio, um cara com corpo inteirinho de tripa, todo enroscado gritando para ele:

-Desata-me! Desata-me!

Acordou todo suado, desesperado. Assaltou uma loja de informática para provar uma idéia que teve. Abria gavetas cheias de carregadores de celular, de fios de rede, de cabos RCA, conectores USB. Mas denodava tudo muito rapidamente, antes de solucionar seus problemas. Esta não seria a solução.

Teve finalmente a resposta assistindo a um documentário na televisão. Fez uma encomenda e aguardou ansiosamente a chegada de seu pacote pelo correio. Um belo dia deixaram uma caixa enorme na porta de seu apartamento. O remetente era uma loja londrina.

Marcio agarrou aquilo e correu para a cama. Desfez a caixa em um assalto e, ao ver as centenas de nós que tinha recebido quase chorou de alegria. Todos azuis, simples, duplos, cruzados.  Calmamente os ordenou no armário que tinha separado para recebê-las. Separou todos, e deixou alguns no fundo da caixa. Aquelas gravatas com nó meio-Windsor só para os problemas muito complexos.                                                                                   

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