A Feira

A Feira. Os livros ali, expostos debaixo daquelas barraquinhas improvisadas, tomando de assalto a praça. Quando a conheci, já devia ter mais de 30 anos de existência. Era uma tradição. Eu tomava o ônibus e descia na praça XV e ia caminhado até a outra praça, a da Alfândega, mais adiante, lá no fundo.  À medida em que me aproximava, ia o coração em disparada. O cheiro, o burburinho, a visão que começa a se formar da imensidão de tendas e pessoas formigando por todo o lado, tudo era motivo de excitação. Olhava curioso para as sacolas dos que já iam saindo com suas novas maravilhas. Então eu dava o sprint final e adentrava o espaço sagrado.

Havia livros de todo tipo. Os novos e os usados. Os baús com as promoções. Os sebos. Os gibis. Adorava ler os nomes dos autores, e os mais estranhos, me fascinavam. Que nomes! Como Truman Capote. Esse nome era o mais intrigante. Tinha de ser engendrado, um pseudônimo. Que coisa!

Aprendi a fazer escolhas na feira, tantos os livros que eu queria em comparação com meus escassos recursos. Teoria das restrições. Estava obrigado a ser extremamente seletivo. Borges ou Leminski? Quintana ou Paulo Mendes Campos? Stendhal ou Proust? Sofre o homem que aspira.

Quando chovia, era melhor ainda. Você tinha de se amontoar debaixo dos toldos, bem juntinho a eles. Mas jamais roubar o seu espaço. Se não houvesse jeito, era melhor você se molhar do que deixa-los sofrer. Muitas vezes acomodei aquelas mesinhas sem tampa onde os livros eram amontoados, evitando que qualquer gota desabasse sobre eles.

Faz tempo que não vou à Feira agora. Não sei como ela está, se virou uma megaevento ou se continua mais quietinha, jeitosa e harmônica. Espero que não tenha perdido suas características. Vou deixá-la na memória daquele jeito que a conheci, assim é que fazemos com as melhores coisas que passam por nossas vidas, não é mesmo? Não as maculamos.

Um dia foi à Feira para uma missão. Faltava-me dinheiro. Enchi a sacola com todos os meus livros e fui procurar uma forma de vendê-los. Achei um comprador de um sebo que me deu uns trocados pela minha coleção. Eram mais ou menos uns 50 livros, alguns poucos bem esbugalhados, mas a maioria ainda em ótimo estado. O que auferi foi suficiente para liquidar uma dívida que eu tinha. Os livros me salvaram, mas sempre que eu penso nisso me dá uma dó danada. Seria melhor não ter feito este troca infame, ter tido a convicção de que aqueles eram meus companheiros inseparáveis. A dívida que se danasse! Hoje tenho uma dívida muito maior, impagável, com esta minha memória triste, que não consigo apagar.

Mas decidi que vou resolver isso. Um dia volto na Feira, compro todos os livros que eu quiser. Nem que eu tenha de me endividar.

Ah, e sigo procurando meu nome. Gosto de Marc Barda, mas enquanto não me decidir não publico nada. A Feira que aguarde.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s