Outra Meia-noite em Paris

Meia-noite e eu estou contemplando “O tocador de Pífaro”:

Foi quando vi um senhor se aproximar pelas minhas costas. Ele me aborda, gentil, com um ar meio satisfeito, mas ao mesmo tempo demonstrando curiosidade por eu estar ali, como que querendo invadir a tela:

Quando fiz “dejeuner sur l’herbe”, aquilo sim causou, meu rapaz.

Éduard! Mas, mas..

Sim, sim, eu sei. Fomos todos parar no Salão dos Rejeitados.

Aquilo foi uma injustiça, Éduard. Todos sabem disto.

Sob a luz de hoje, talvez…mas na época, o que fazíamos era uma revolução!

E você foi o patriarca!

Mas muito indigesto. Lembra do que Maxime Du Camp, da “Revue des Deux Mondes” falou?

De cor e salteado: “Estas obras de uma nulidade absoluta, provam de quais singulares aberrações pode se nutrir o espirito humano”.

Ele volta-se para o quadro, parecendo examiná-lo como se quisesse alterar alguma coisa. Deixo-o remoendo suas lembranças e vou para diante das “Régates”.

Fico ali, olhando aquela paisagem disforme,  como se houvesse uma neblina diante do quadro. É quando sinto uma grande barba branca chegando ao meu lado..

Mmmhhhnn…..Claude!

Meu rapaz..sim, sou eu mesmo.

Puxa, Claude, você também por aqui? Que bacana…você foi bárbaro….um dos maiores. A forma como você usou a luz na água nestas “Régates“…

A Luz era uma obsessão naquela época. Mas você já viu a Gare Saint-Lazare?

Sim, claro. E os descarregadores de carvão também. Você pintou o que era Novo!

Meu rapaz, lembra da abertura das Olimpíadas?  Pois é, no mesmo tempo em que aquelas grandes chaminés surgiam do nada e começaram a trazer a modernidade, nós estávamos nas ruas também, pintando tudo. Hoje tudo parece tão velho e sem sentido…por isso prefiro minha ninféias.

Muitos preferem, Claude. Acabo de ver uma moça passando com algumas estampadas em uma sacola de grife.

Hoje estamos por toda parte. Já me vi em calendários baratos, em capas de discos bregas,vi Vincent em um cartaz de filme. Viramos ícones pop tão poderosos como a língua para fora dos Stones ou a latinha de sopa do Warhol.

E dez entre dez candidatas a miss qualquer coisa dirão que você é o pintor favorito delas!

Humpf.

Deixo Claude coçando a grande barba e me desloco para diante de uma série de pontinhos que formavam uma figura magnífica:

Sinto outra enorme barba chegar.

Camille!

Gosta disso, meu rapaz?

Do Pontilhismo? Sim…sim.

Até que éramos uma dissidência bem legal.

Mas você fez outras coisas bacanas também, antes da dissidência.

É verdade, eu gosto muito desta aqui…“Les toits rouges, coin de village, effet d’hiver “.

Eu também!

A realidade não precisava mais ser pintada. Para isso estava surgindo a fotografia.

Preciso te falar Camille, hoje a fotografia já não espelha a realidade. Hoje tem um negócio chama Instag…

O quê?

Nisso sou interpelado por uma voz vindo de um homem alto e esguio:

Meu jovem, você quer realidade? Já viu meus retratos?

Au..Au..Auguste! Você também por aqui?

Eu pintava a realidade pura! Este menino, por exemplo, Fernand Halpern, acho que é um dos meus melhores…

Sem dúvida!

O dia já vai amanhecendo, vejo a fila enorme de gente lá fora querendo entrar. Mas não quero acordar. Vejo um homem com uma espécie de sarongue parece absorto em memórias, mais adiante. Vou até ele.

Você é o Paul, vou logo falando..

Está vendo este? Me dá uma saudades do Taiti….

Sei…cores, cores.

Barulho de música. Alegres violinos e muitas pessoas dançando, felizes. Um sujeito com chapéu esquisito está à espreita, olhando seu próprio quadro na parede.

Vincent, é você?

Que foi rapaz, só porque estou sem uma orelha já está me estranhando?

Não…é que…reconheço seu estilo…tem um filme de que gosto muito, cujo cartaz é inspirado em uma tela sua, com um céu de uma noite estrelada muito louca….agora entendo!

Foram estes barbudos que me inspiraram….quando comecei, eu fazia outras coisas, como este salão de dança em Arles…

Deixo o salão do atordoado. Não muito consciente, na saída dou uma trombada em um sujeito loiro, que acaba de sair de um táxi estranho, um carro realmente velho.

Desculpe, eu estava distraído…

Tudo bem.

Ei, aquele motorista do táxi não era…

Hemingway..estamos voltando de um baile onde dançamos com Josephine Baker, acredita?

Você não é…

Gil Pender, escritor de Hollywood, muito prazer.  E você quem é?

Eu sou todos eles, digo, apontando para o prédio de onde saía. Todos estão em mim. Entre, você vai gostar.

Táxi!

Para onde, senhor?

Ao Moulin de la Galette!

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O que havia de tão revolucionária na pintura destes gênios? A grande maioria dos especialistas aponta alguns fatores, como a fuga dos temas ditos clássicos, o uso singular da luz e da cor, a apropriação da realidade da época como cenário, o uso de pessoas comuns. Para mim, a genialidade está intuição de que era preciso algo novo e de que todos eles estavam vivendo um momento único. Traçando um paralelo difícil, mas ainda assim válido, quem hoje pinta a Revolução do Conhecimento, da Sociedade da Informação? O Novo Mundo surge diante dos nossos olhos mas não temos a capacidade de imortalizá-lo como aqueles senhores fizeram na sua época. Impressionante.

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