Dois contos breves

1. Fera Domada

As unhas arrancadas ele escondia com um par de luvas. Eram de pele humana, roubada de um centro de pesquisas. Não era implante por medo de rejeição. Mantinha-as sempre amarradas nas mangas, que usava sempre compridas, com qualquer tempo.

O olho de vidro era muito bom, imperceptível. E produzia o efeito necessário nas suas vítimas, que era o de deixa-las em dúvidas por um quarto de segundo. O tempo suficiente para ele desferir o ataque.

A língua geográfica menos ainda era um problema. Era a única que tinha conseguido arrancar fácil da presa, em substituição a sua, perdida quando foi quase estrangulado. Agora tirava incríveis benefícios de suas ranhuras, das quais se gabava com moderação.

Resolveu a cicatriz na altura da garganta com uma tatuagem maravilhosa. Desenhou um pequeno dragão descendo por sua traqueia, com o bicho com uma expressão de estar desesperado para sair. Como se estivesse sendo engolido vivo. Quando tirava a camisa, o coração do bicho estava bem sobre o seu próprio órgão vital.

Debatia-se agora sobre como esconder o escalpo. Tinha os dois hemisférios cerebrais expostos. A luta havia sido feroz, mas ele saíra vencedor.

Achou o chapéu perfeito em um museu de cera. Era um pouco mais que uma peruca, cabelo revolto, muito adequado. Era também o limite do tolerável. Mais uma ação daquelas e ele não poderia mais esconder a verdade. Desistiu da próxima vítima. Abriu a geladeira e refestelou-se com as sobras de suas últimas presas. Ajeitou bem o chapéu para esconder de vez a massa cinzenta e foi recostar-se no sofá para a digestão. Hora de voltar a ser Homem. Ligou a TV e desligou o modo fera.

2. Álibi agudo

Cabelo engomado, roupas de dândi, abotoaduras de ouro. Lenço no bolso da lapela. Colete por debaixo do paletó. Sapatos com cadarço. Meias escocesas. A elegância triunfante, sobressaindo-se na multidão. Era dos meus. Abordei-o incontinenti. Ótimo perfume. Sacou do bolso interno do casaco uma moleskine vermelha. Anotou o meu endereço com caneta-tinteiro. Não deixou borrar. Tinha gestos suaves, mal deslocava o ar ao seu redor. Falava em si bemol, era preciso ter ouvidos bem apurados para escutá-lo e não perder nada. Convidou-me para um chá em sua residência, sábado, cinco e meia. Adorei. Devo levar algo, perguntei ansiosa. Agulhas de tricô, sussurrou em resposta, já subindo em seu veículo. O motorista prontamente fecha a porta e começa a dar a volta no carro, para assumir seu posto. Enquanto o carro é acionado, ele abaixa o vidro e vejo seu sorriso enigmático. Vamos tricotar, pergunto. Não, ele diz. E o carro zarpa.

No sábado, ele me seduz, não leva quase nada para atingir seu objetivo. Passamos a tarde os dois, muito à vontade. Na hora de nos despedir, ele me recomenda falar com seu ajudante. Pergunto-lhe por que. Ele vai lhe entregar uma roupinha de tricô, inacabada. Seu álibi. Você trouxe as agulhas, certo ?

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