A última cidade

O mundo é um mundo de cidades e vazios. Não fossem as cidades seria só o Vazio. No começo, aliás, era só Vazio. As primeiras cidades foram os primeiros aglomerados de homens que deixaram de ser caçadores-coletores. Dez mil anos atrás, talvez um pouco mais. De lá para cá, o mundo é cada vez mais cidades e cada vez menos o Vazio. As cidades ocupam. Mesmo para chegar aos vazios mais desejados, você tem de começar por uma cidade. Não existem aeroportos, portos ou qualquer outra forma de chegar ao Vazio, que não esteja em uma cidade. E as cidades se repetem, são todas iguais embora únicas ao mesmo tempo. Poucas vão contra a lógica, mas muitas são absolutamente ilógicas. Outras muito poucas mesmo são as que redefinem a lógica.  As cidades estão onde estão porque onde estão precisam estar. Nós as colocamos nos seus devidos lugares. As cidades são o esteio. As cidades são muitas.

Conheço Cidades-Vivas, que não envelhecem, apenas se modernizam.

Sei das Cidades-Estado, das Cidades-Modelo, das Cidades-Atrocidades.

Passei por Cidades-Versões de outras Cidades.

Vi Cidades-Mega, visitei Megalópoles-Giga, me apavorei com Conurbações-Tera,

Das Cidades-Chauvinistas quero distância, prefiro as Cidades-Calvinistas, as grandes e pequenas Utopias com nomes lindos de magníficas Damas.

Sobrevoei Cidades em baías, Cidades em istmos, Cidades abismos. Atraquei em Cidades-Colo, de tão acolhedoras.

Amo Cidades sem fronteiras, cidades do mundo. Odeio Cidades-Muro, fronteiras criadas e rasgadas por arame, cimento, tijolo.

Quantas são Cidades sem identidade, cidades de baixo IDH.

Mergulhei em Cidades envoltas em poeira, Cidades pura lama.

E as cidades-enclave, as cidades dentro das cidades, ilhas de Cidades sofrendo com a Cidades a sua volta.

E por aí vai. De cidade em cidade. Sempre a mesma Cidade.

Todas são Cidades com gente. Gente que hoje transita, não habita. A massa de gente indiferente ao que a Cidade sente. Gente que pula de cidade em cidade e que não mais sabe qual sua cidade.

E então eu vi a Última-Cidade.

Cheia de gente transeunte, pulante, claudicante, na grande Cidade-Ignorante, extravagante, descompromissada. Cidade-Ignorante que cresce, inunda, ocupa. Cresce ao redor do mundo todo até inundá-lo de Cidade. O mundo, então, todo imundo, cheio da Cidade-Nojo, toda conurbada, fica uma Cidade-Coisa só. E os vazios, já eram, tomados pela Cidade-Imundo-Mundo.

Mas esta Cidade-Tudo, depois que cresce até o fim do mundo, não para de crescer e explode. E vem o Vazio. O grande vazio, como no começo.

Onde ninguém poderá chegar, pois já sem cidades para conectar. Tampouco alguém haverá.

Ninguém.

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