Em algum lugar Sofia se perdeu

Elle Fanning, Sofia Coppola, Stephen Dorff
Image by daniela.elle via Flickr

Há uma cena emblemática em “Um lugar qualquer” (Somewhere), o novo filme de Sofia Coppola, vencedor do festival de Veneza em 2010. É quando Sofia nos brinda com a imagem de Johnny Marco (Stephen Dorff),  o mega star de Hollywood que é o protagonista da estória, debaixo de uma máscara branca, na qual alguns maquiadores estão moldando o seu rosto para uma personagem. Sofia filma a face oculta e inerte de Johnny por segundos intermináveis, e tudo o que vemos é aquela imensa massa branca cobrindo o rosto do astro. É como Sofia explicita para nós o que ela vinha tentando demonstrar até aquele momento do filme:  Não há nada aqui, nada, absolutamente nada! Johnny nada vê, nada escuta, nada sente. Quando os maquiadores revelam de volta o seu rosto, vemos um velho enrugado e careca. A mágica do cinema que transformou Johnny Marco no ícone que é, o faz perceber também, ironicamente, que a casca de aparência se perderá, e a vida vai passar.

A partir deste instante, lentamente parece que Johnny quer sair da prisão em que se meteu, sair da vida fútil e desregrada, inútil, embora cheia de sinais exteriores de riqueza. No interior, Johnny é oco.

Sua filha (uma interpretação consistente da garota Elle Fanning, mostrando que o talento está à solta na família) traz um sopro de mudança, mas a casca de Johnny é grossa, muito grossa.

Nao sabemos como  Johnny virou o superstar que é, com direito a mordomias do primeiro time dos artistas, mas assistimos incrédulos aos seus movimentos desconectados, sua incapacidade absoluta de interagir com o mundo ao seu redor. Johnny é apenas uma imagem. Não tem nada a oferecer em troca, apenas suga a tudo e a todos que o circundam.

Muito já se falou sobre o fato de que  Sofia usou elementos autobiográficos para o filme, devido à sua própria experiência em viver em hotéis de artistas e acompanhar o pai famoso no circuito. Mas é desnecessário sabermos disso, Sofia filma uma personagem sem alma, e apenas o cenário que ela utiliza é, por acaso, o do mundo do cinema, como poderia ser qualquer outro.

Porém, com o perdão do trocadilho, em algum lugar qualquer  Sofia perdeu algo, e deixou o seu filme insosso, incompleto. Há momentos de pura poesia e muito na telona é filmado com muita sensibilidade, mas nunca o voo é alçado por completo. Sofia fica bastante aquém do que já nos entregou outrora, como em Encontros e Desencontros (Lost in Translation) ou em Maria Antonieta. É preocupante porque ela não ousou, penas navegou em águas super conhecidas, correndo baixíssimo risco. O problema de fazer mais do mesmo sem qualquer inovação é que o mesmo anterior pode ficar mais saboroso e o novo seja rejeitado.

Sofia parece que nem sequer conseguiu finalizar bem o seu projeto, apenas abandonou-o, e, como Johnny, (spoiler) o deixou à beira da estrada, a esmo. Eu entendo filmes com finais abertos, que deixam perguntas sem respostas, mas não entendo filmes sem nenhum final.

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