Além do velho Clint

Clint Eastwood at the 2008 Cannes Film Festiva...
Image via Wikipedia

Além da vida (Hereafter) é um ato de fé de Clint.

E começa com uma seqüência tão espetacular que justifica ir ao cinema só para vê-la.  Provavelmente nunca um desastre foi filmado com tanta destreza. Os efeitos especiais estão tão integrados que não somos capazes de nos dar conta que o que estamos vendo não é real. Mais ainda, ajudando na percepção de credibilidade, os efeitos não se sobrepõem àquilo que está sendo contado, são apenas um elemento a mais na cena. O foco é sempre na personagem, até o extremo. Um primor!

Como em Babel, o filme avança logo em seguida para outra estória, aparentemente desconectada desta primeira, mas só aparentemente. Está-se agora em Londres, e Clint nos conta uma emocionante fábula de meninos gêmeos e inseparáveis, com uma mãe imprestável. Com estes elementos, o diretor desarma todos os corações, até os mais empedrados, mas sem jamais cair na pieguice.

E na terceira e última peça do quebra-cabeça, a narrativa nos mostra um médium (Matt Damon) transtornado pelo seu dom, o de “fazer contato” com os mortos. Matt Damon sabe fazer muito bem o papel, contido, resignado, sempre cedendo aos apelos de “leituras” de vizinhos, amigos e afins. Quando ele explica o seu poder, impossível não lembrar de Haley I see dead people Joel Osment, o garotinho de “o sexto sentido”.

Em inglês há um jogo interessante de significados no título, pois hereafter pode tanto querer dizer simplesmente, depois, a partir de agora, no futuro, como querer dizer o Além. E Clint faz o jogo dúbio muito bem, focando sempre nos que ficam e não nos que vão. Quer falar das dores da perda, da desconexão, da sensação de ausência de chão, em suja, do depois, do que daqui para frente dos que ainda seguem aqui, deste lado. Do que acontece com eles, depois de vivenciarem algo tão chocante quanto a visita d’Ela.

Porém, ele deixa claro que tem uma crença. Isto ocorre a partir do momento em que as três estórias se conectam. O que pode parecer bastante improvável, mas não é. Depois do Tsunami, do 9/11, da crise financeira, o que mais não pode acontecer?

Ele toma partido muito claramente. Advoga com unhas e dentes a sua causa. E isso não é necessariamente ruim, não transforma o filme em propaganda religiosa ou qualquer coisa semelhante.

O que mais sobressai, é sua sensibilidade especialíssima. Clint, que já viveu tanto, parece falar com autoridade, com precisão, do alto de sua experiência. Clint não está velho, este é o melhor Clint Eastwood de 80 anos que eu conheço.

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