Woody Allen, mestre das ilusões

Woody Allen in concert in New York City.
Image via Wikipedia

Eu vou a todos os lançamentos de filmes do Woody Allen.  Um por ano, todo ano. Pode ser que você pense que eu sei o que vou encontrar. Muitos dizem, Woody sempre faz o mesmo filme, para que ver mais um?  Bem, para mim, é como dizer que ver o Pelé jogar uma vez, fazer um gol, um único gol, basta. Não, não basta. Você sempre quer ver o Pelé jogar. Você sempre quer ver um novo gol do Pelé. Vai ser sempre a mesma coisa, claro, um show de bola. Mas cada show de bola é um outro show de bola. E ver show de bola é bom.

Isto posto, porem ainda antes de entrarmos no filme em si, que ‘e o que interessa, deixemos esta bobagem de lado e olhemos outra. Que título ridículo em português! E somado ao fato de como a distribuidora anda vendendo o filme, é um verdadeiro acinte. Alô, alô, Paris Filmes, Woody não faz comédia romântica. O filme pode parecer levinho, mas não é. Quem vai ver o filme, fisgado pelas chamadas idealizadas por vocês, e fica só querendo saber quem vai ficar com quem, está, honestamente, perdendo tempo e dinheiro. Melhor ir ver alguma outra película mais mainstream.

Bem, eu fui ver, como já antecipei, “Você vai encontrar o homem dos seus sonhos“. E, como esperado, foi show de bola.  O buraco é mais embaixo. Woody, usando mecanismos simples, como os pequenos romances, as crises conjugais e a chegada da velhice, te faz pensar, toca em questões chave, discute a Existência e a Essência. Logo no começo do filme, o narrador anuncia, em alto e bom tom, citando MacBeth: “A vida é Som e Fúria, e não significa nada”. Um intróito e tanto para uma “comédia romântica”, não acham?

Paris Filmes, foi mal. Vocês fizeram uma estratégia que talvez possa fazer o filme arrecadar uns trocados a mais. Mas que não tem nada a ver, não tem.

Vamos ao que interessa, finalmente. Woody segue sua exitosa fase européia. O local é Londres, como em Match Point. Os personagens são críveis, viabilizados por um elenco acima da média, principalmente a parte mais “senior” encabeçada por Anthony Hopkins e Gemma Jones.  O enredo, bastante verossímel, ainda que sem o mesmo requinte do filme que lhe rendeu a última indicação ao Oscar, nos mantém envolvidos na trama.  É um prazer acompanhar a discussão que Woody põe para rodar:

O que é melhor, deixar-se levar por esperanças, por ilusões e pela fé, ou submeter-se à  lógica da razão?

Combater o desconhecido, o improvável, o inesperado, ou juntar-se a ele?

O bando de londrinos típicos vai se enredando em suas confusões rocambolescas, entrando e saindo de relacionamentos fadados ao fracasso e vamos vendo o aprofundamento de cada um deles em suas convicções. Mas Woody não deixa barato e provoca algumas reviravoltas interessantes na trama.

E é curioso como ele joga com seus personagens, quase todos detentores de uma ética muito peculiar, uma ética de prateleira, que é usada quando convém. Há apenas uma honrosa exceção entre os personagens. Descobrir qual põe a chave do filme na sua mão.

Altamente recomendável.

P.S. > Woody pode não ser o Pelé da Telona, mas ao menos um Di Stefano, um Messi, um Cruyff o cara é.

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