Vou te contar…O 29

Meu Tio vinha no 29. Quando eu ia para a escola, esperava no ponto pelo 29, mesmo que demorasse mais, e na volta também o esperava. Outros da minha linha, da mesma viação, passavam e eu ali, estanque. Eu tinha de embarcar no 29. Meu tio liberava a catraca para mim. Era o meu momento de impunidade, de exercício (passivo!) de nepotismo, de abuso de poder. O 29 não era dos melhores, mas e aí? O 29 cumpria o seu objetivo. E meu tio, não sei como, fechava o caixa no final do dia, mesmo sem me cobrar duas vezes. Provavelmente ele não bancava a conta, o salário dele não daria para isso. Nunca perguntei para ele, porque favor não se explica, mas desconfiava que os demais passageiros pagassem a fatura. Eu nem aí. Muitas vezes. ia até o fim da linha com ele, os passageiros iam saltando,  e eu ficando, no fundo do carro, vendo meu tio iniciar os trabalhos de contagem e ensacamento daquela moedama toda…Era uma diversão ir até o fim da linha, ser o último a sair. Nas últimas paradas já não havia movimento algum, e meu tio começava a cochilar, mesmo com aquela trepidação toda das ruas de paralelepípedos. E a moedama tilintando loucamente.
No tempo do meu tio, sem a tecnologia de hoje, era tudo no dinheiro, nada de cartões magnéticos previamente carregados. Os saquinhos de moedas, cheirando a níquel, azulados, eram imensos. Moedas de um, dois, cinco, dez, e cinqüenta centavos. E as enormes moedonas de um cruzeiro. Notas, quase nenhuma. Os bolsos do meu tio estufavam de saquinhos de moeda, pesadíssimos, uma bolsa de naca que ele levava no ombro e caia sobre sua barriga imensa também. Uma vez imaginei meu tio sendo tragado por um imã gigantesco, que alguém içava pela janela de um andar alto de um prédio. Imaginei que o prédio ficaria penso para frente pelo peso de meu tio, subindo grudado ao imã. Peso que eu supunha já ser absurdo com ele nú, quanto mais com os sacos de moedas.

E meu tio vinha com aqueles sacos todos os dias para casa, morava com a gente, que era mais perto para ele sair para o trabalho. Os ônibus largavam cedinho do fim da linha. Daí lá ia meu tio, para o fim da linha, cedinho, a camisa para fora da calça, os botões estourando, a barrigona aparecendo, e ele já suando logo de manhãzinha, uma cinza de cigarro dormindo na curva da pança, outra quase caindo do canto da boca para lhe fazer companhia. Achava que meu tio dormia fumando e com os sacos de moeda nos bolsos. Parecia usar sempre a mesma roupa. Aliás, o estado do 29 parecia combinar com o meu tio. Nem dava para imaginar meu tio no 33, aquele carro novíssimo, com freio a ar, cujo assento do motorista subia e descia com ajuste hidráulico e que tinha um painel era luminoso, anunciando a linha com galhardia. Não, definitivamente, meu tio pertencia ao 29, onde ele sentava de lado para a barriga não encostar na caixa do dinheiro.

E chegava o carro ao destino, e subia o fiscal:

– Fim da linha, salta aí rapaz, ou tá pensando que vais voltar sem pagar?

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One thought on “Vou te contar…O 29”

  1. Adorei Marcos. Escrever sobre a infância é mto prazeiroso mesmo. Eu tenho uma história de ônibus. É de vexame. Um dia te conto. Bj.

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