Sobre A Suprema Felicidade

(portuguese) O jornalista e cineasta brasileir...
Image via Wikipedia

Nostalgia é doença, coisa de quem se apega ao passado e faz âncora de suas velhas atitudes. Não consegue se içar para o presente por nada. Saudade é virtude, são as lembranças daquilo que nos construiu e que se tornou catapulta para novas atitudes. Essa distinção (do professor Mario Sergio Cortella) é importante para analisarmos A suprema felicidade, o novo filme de Arnaldo Jabor. Já antecipo que o filme não é nostálgico, não sofre de doença alguma, aliás. Na grande colagem que Jabor faz, estão sim reminiscências saborosas de um passado guardado com carinho na memória. É curioso como ele nos dá uma mostra de cada fase da vida neste filme, e em tons fortes e claros: ele pinta a infância como um misto de repressão e ansiedade, com meninos inquietos querendo livrar-se de ambos sentimentos, mas sem êxito. Borda a juventude como uma explosão de sexualidade, temores e mal-entendidos na família. Vemos a todos os jovens afoitos por crescer e ter acesso às coisas de adultos. Mas a fase adulta é complexa e cheia de mesquinharias, e é descrita implacavelmente: a carreira que vai mal e estraçalha a vida do sujeito, as dúvidas mundanas do amor e da paixão que corroem por dentro, o erro da projeção nos filhos, para que estes carreguem os objetivos daquilo que não logramos, as desilusões e desencantos oriundos do confronto entre o muito querer e pouco poder. Retrato melhor é o de uma velhice onde há finalmente paz. A paz da experiência, da calma, da paciência, do tudo entender. Sabemos o que queremos, o que fomos e o que não fomos e já não podemos mais ser. A consciência das minhas impossibilidades me pacifica, parece querer dizer Jabor. Nanini personifica magistralmente esse ser quase mitológico. O recheio do filme tem seus dissabores, é certo. As pequenas estórias não se desenvolvem bem, carecem de emoção. Ficamos com a estranheza de relações mal iniciadas e mal acabadas. Mas a maioria das imagens são muito bem elaboradas, quase que pintadas a mão, e é o que sobressai. A casa das prostitutas é uma torre de Babel dantesca, com os personagens mais fellinianos possíveis de serem feitos por um não-Fellini. Jabor segue nas homenagens por todo o filme. Felliniana também é a carroça dos mortos. Audrey é referência para a prostituta intocável, o jovem conquistador do banheiro do bar é um Brando selvagem da motocicleta, sem motocicleta. Palmas também para o pipoqueiro gozador e o carroceiro de jornais, tipos bem caracterizados. Estranhamente, é quando nosso velhinho-feliz perde a capacidade se lembrar, quando sua memória o trai, que ele entende que A suprema felicidade é poder ir-se com a certeza de que a passagem foi válida, que algo da existência ficou (principalmente no neto que repete suas filosofias) na lembrança do que ainda ficaram sofrendo as dores da vida. É certo que Jabor foca sua narrativa em um extrato da sociedade carioca, e com tons certamente muito autobiográficos. Mas isso não o impede de passar uma mensagem universal. Nem mesmo o Rio de Janeiro idílico é capaz de filtrar as mazelas da alma. A suprema felicidade são dez minutos diante de um bonde, ou a própria vida na memória, ou ainda o sentimento de missão cumprida. Ninguém sabe. E é melhor assim.

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