Vou te contar…O Bolo

Desde que o vi me interessei. Assim, à primeira vista, tinha um aspecto ótimo, e literalmente, exalava uma aura super cheirosa. Era, mal comparando, sardentinho, salpicado de pintinhas brancas, passado por uma chuveirada de açúcar como certamente foi e que o teria deixado dulcíssimo na superfície, esta era a expectativa. Era para ficar ali, na forma, intacto, até esfriar um pouco mais. Pena. Aquela tentação olfativa, tinha de ser deixada sem tampa, para evitar que se formasse vapor no interior da forma, vejam só, vapor este que o poderia deformar. O que seria lamentável. Portanto, aberto e exalando o aroma irresistível, assim ele iria nos acompanhar na viagem. Por várias vezes, minhas papilas queriam saltar da língua. Mas fui bravo, heróico até, pois a viagem foi excruciante, com ele ali por perto, perturbadoramente inalcançável. Cheguei tarde, e fui deitar. Mas não o esqueci. Fiquei com ele, me revirando na cama. Dormir seria abdicar do seu aroma, ir para o desconhecido sem a sua companhia. Acordei com um apetite avassalador, como se meu subconsciente, ou o inconsciente mesmo, tivesse se mantido alerta, inebriado pelo desejo. E eis que o vejo ali, um pedaço dele sobre o balcão. Quieto, inerte. Tinha se convertido em uma presa fácil. Conservava a postura galante, firme, retesado, mesmo sendo só um pedaço. Vislumbrei que não seria como aqueles que se esfarelam ao toque da faca. Não, lógico que não. Imagina. Seria um bolo estupendamente correto, agüentaria bravamente que o sacrificássemos na lamina fria da faca. Afinal, para isso que servem os bolos, para serem trucidados em cortes ríspidos e certeiros, para se submeterem aos nossos desejos farináceos os mais torpes. Pois então, rrráaa, o ataquei de súbito e fui logo cortando uma fatia, cobrindo-o com nata, esta outra dádiva láctea inefável, outra hora falamos dela. Aí a coisa ficou inigualável, imbatível, insubstituível. Um belo bolo de fubá com um algo mais (será laranja? Será canela? Serão ambas as coisas? Uma formula secreta?). Não importa. Aquilo foi para a ávida boca e senti como se a umidade relativa do ar estivesse em 100%. Salivei os tubos, poderia ter dado uma enorme contribuição para acalmar o clima seco do Sudeste. Muito hesitei entre mordiscar suavemente, e saborear por mais tempo aquela gostosura, ou deglutir vorazmente pedaços e mais pedaços, para saciar de vez o tesão por aquele bolo. Hummmm. Fiquei com os dois. Ora maltratava a minha Gula, ora sentia as reclamações de minha Glote, que não parava de desviar para dar passagem àquelas maravilhas. Nunca antes nesta boca houve semelhante bolo.

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One thought on “Vou te contar…O Bolo”

  1. Eu escrevi antes. Mas não aparece mesmo…
    Mas que bolo hein?? Merecemos outro. Garfos e facas iriam guerrear, em breve. Trucidaremos um outro bolo. Que esperamos ser igual ao já devorado.
    Muito bom! Bolo e post…

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