Vou te contar…

Encontrei a fonte ideal para minhas crônicas em uma mesa de bar. Era Orestes, um tipo não muito esperto, mas com aquele ar bonachão que alguns bêbados sempre têm. Eu passei a financiar seus tragos, depois que presenciei a primeira lufada de lucidez que ele teve, logo que tomou umas e outras ao meu lado. Elas aumentavam à medida que mais ébrio ele ia ficando. Era incrível como ele precisava sair de seu estado de torpor através da bebida para destravar as sinapses. Que vinham como relâmpagos no seu cérebro, concatenando seus pobres neurônios em um verdadeiro blitzkrieg mental. Ao menor gotejar de álcool nas entranhas já se produzia o efeito miraculoso. O problema era o bafo que sempre  acompanhava o enunciado tão esperado. Eu procurava me manter um pouco afastado, a uma distancia conveniente, de onde podia tanto captar a essência de suas idéias brilhantes quanto evitar me molhar. O tipo produzia frases cada vez mais inóspitas, assim que subia o teor alcoólico no seu sangue. Orestes era um poço de teses. “O mundo não conhece seu passado, mas sabe o seu destino”. Profético. Poderia usar em uma conferência cientifica qualquer. Pensei no Al Gore. A vantagem de torná-lo este emérito pensador era que depois ele não se lembrava de nada. Podia usar sem dó suas frases, podia plagiar sem medo. O fato de que eu pagava a conta me tranqüilizava. Se eu pagava, não era roubo. Uma vez, após o segundo Bloody Mary, proferiu: “Estancado o sangue, aí começará a catástrofe.” Magistral, belo e simples ao mesmo tempo. Útil para diversas ocasiões. Anotei no meu Moleskine. José Fernando, escreve aí, dizia ele, quase tombando da cadeira: “Qual a primeira SMS de um ludita? P-e-r-d-i”, completava ele, e ria sozinho.  Irônico. Poderia funcionar em uma convenção de nerds. Quando passava do ponto, como que desfalecia. Por isso, era fundamental controlar muito bem a dosagem que eu lhe ministrava. Um pastel ou uma coxinha ajudava a mantê-lo em êxtase criativo por um tempo maior. Um dia, depois vim a saber, me surpreendeu com seu último aforismo: “O bêbado que divaga é duplo fardo: bafo e bobagens.” Bem, convenhamos, já estava ficando fraco. Soube que se enfiou em uma reabilitação e saiu abstêmio. Nunca mais recaiu. Já eu sinto-me em um eclipse de idéias. Envolto em um apagão eterno. Preciso definitivamente apreender a beber por conta própria.

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