Vou te contar…Inter bicampeão da Libertadores

Botei a Vermelha no peito e saí para uma voltinha pela Grande Metrópole. As reverências começaram logo na padaria, onde o Seu Luis já não fez questão de me pedir os centavos tão exatos. Pãozinho mais barato, bônus de campeão. Lentamente iam surgindo os olhares, curiosos, invejosos, pegajosos, mas todos, sem exceção, indubitavelmente, olhares bons. Nenhuma dúvida, nada de esnobismo. A vermelha impunha respeito. Ao primeiro cruzamento testei o seu poder. Mal pisei no asfalto e os carros me permitiram a passagem. Fui calmo, atravessei a rua desfilando. Não buzinaram, acho que até cheguei a ver um Vectra dar sinal de luz simpático para mim, mas pode ter sido uma alucinação. Como a que tive com a Taça, virando a esquina. Era um poste. São Paulo estava virando a minha Macondo.

Mais à frente, um executivo já esbaforido, e eram apenas oito da manhã, falava ao celular quando cruzou por mim, e meneou a cabeça em sinal de aprovação, e seguiu falando ao telefone, puxa, o Sóbis comemorando sozinho, em atitude constrita, ele consigo mesmo, que bacana foi aquilo. Ouvi claramente. Uma velhinha que passeava com seu cachorrinho sorriu. Bem, o cachorrinho também sorriu, e latiu: Abu Abu, acho que era isso. O pessoal que tomava café da manhã em um bar me contemplou com as respectivas xícaras parando a meio caminho da boca, alguns também com um pedaço de pão na outra. Vi a cena em câmara lenta. São Paulo estava virando minha Matrix.

Na academia, ovação geral e aplausos. Os aparelhos me eram oferecidos, sem hesitação. Cumprimentos, acenos. Uma pessoa deitou os halteres no chão para me abraçar efusivamente. Eles desceram rápido, pareceu o tirombaço do Damião, furando as mãos do arqueiro, estropiando a rede. Estrondo alucinante. São Paulo estava virando minha Roma, e eu, o gladiador imortal. Não, eu, Spartacus. Não, eu, César, César, Ave César! Ele também tinha um manto vermelho.

De volta para casa, uma pessoa que varria o chão da frente do prédio fez um esforço adicional para limpar bem o espaço que eu cruzaria em instantes. Minhas passadas eram altivas, soberanas ele limpou rápido, mais ou menos como Giuliano limpou a área antes do arremate final, com um toque sutil da vassoura tirando a última folha e jogando por cima de um montinho de resíduos, que não tinham noção de onde estavam, como a zaga adversária. Quase o vi se debruçando na grade do prédio, como se fosse o alambrado de um estádio.

São Paulo virou minha Pasárgada.

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