2666 – Uma Odisséia (as primeiras duas partes)

Estou lendo a obra póstuma de Bolaño. Inadvertidamente, aceitei o desafio do autor, que, em certo momento da parte 2 de 2666, ao refletir sobre os clássicos, pede para que, se temos a intenção de ler alguém como Dickens, Melville e outros, que leiamos as grandes obras destes mestres, e não suas obras menores, menos densas. Pois bem, eu nunca havia lido Bolaño antes, e começei pelo que todos consideram sua obra master, e ele também, aparentemente.

O título, pelo que sabemos, não quer dizer nada. Como o livro é dividido em 5 partes que originalmente o autor pensava em publicar separadamente, assim também a podemos analisar, por supuesto.

A primeira parte é saborosa, com a estória destes quatro críticos, acadêmicos, que idolatram seu autor de estudo, de quem quase nada ninguém sabe, a não ser pelos livros que escreve. Estará vivo? Onde morará? A caçada por informações sobre o ídolo é o que move os 4 em questão. É curioso que Bolaño tenha vestido estes 4 personagens na pele de um espanhol, uma inglesa, um francês e um italiano e que o autor idolatrado seja um alemão. Coincidência? Acho que não. Mas mais do que isso, essa primeira parte é uma estória plana, linear, tradicional na narrativa, com uma intenção clara de envolver o leitor na trama proposta. Bolaño aqui não escapa de clichês, os personagens são baseados em padrões muito claro, pouco surpreendentes. Em um certo momento, um dos personagens afirma “um médico francês é melhor que um médico espanhol”. Pouco para um revolucionário.

Já muito diferente é a segunda parte, onde Bolaño exercita um discurso mais evasivo, permeado de pequenas estórias independentes, que valem pelo estilo, pela metalinguagem, e não pelo enredo em si. Além disso, nesta parte o autor destila seu conhecimento de filosofia e de cultura como um todo em trechos que soam até demasiado maçantes certas vezes. Mas através do link de um personagem, as duas primeiras partes estão tenuamente conectedas.

Por enquanto é isso, vamos ver como ele se sai nas demais partes e como dá fechamento ao calhamaço de quase 800 páginas.

Comentarei as demais partes oportunamente.

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2 thoughts on “2666 – Uma Odisséia (as primeiras duas partes)”

  1. Ainda estou lendo 2666; justamente, acabei a segunda parte há pouco. Por enquanto, confesso que estou como o farmacêutico “… que preferia claramente, sem discussão, a obra menor à obra maior”. Vou continuar a leitura e, quando digerir o buraco negro que estou percebendo, volto para comentar. Aconteceu com você a sensação de ir do nada para lugar nenhum!?

    1. Achei a obra extremamente inconstante, com alguns trechos aborrecidos. Talvez a ideia original dos 5 livros fosse mais adequada. Nao senti que ia do nada a lugar nenhum porque a primeira parte eh otima. Entao, fui do bom para o pior, com alguns picos e vales no meio do caminho…..

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