O negrume dos pelicanos-marrons envoltos em densa fuligem

Uma certa coincidência me pôs em contato com duas das últimas grandes tragédias da Terra, em menos de quarenta dias. Voei ao lado das cinzas do vulcão islandês, logo no primeiro dia de reabertura do espaço aéreo europeu, em 20 de abril, e voei sobre a mancha de oléo do Golfo, na semana passada. Não vi nada e vi tudo. Tudo estava lá, bem debaixo, ou bem ao lado do meu nariz. Bem debaixo mesmo, pois estava fazendo a rota Orlando – Cidade do México, sobre aquele oléo todo. Alguns dos bichinhos enlameados que momentos depois seriam capturados e usados nos telejornais da noite deveriam estar chegando à praia, sofregamente, bem no instante em que meu avião passava. E bem ao lado mesmo, daquela fuligem e pedaços de lava quente que pairavam sobre meia Europa, quando fiz a rota Frankfurt – Nova York. Apesar de todo o volume cuspido pelo furúnculo islandês, a Europa vivia dias ensolarados e primaveris. Exceto aqueles afetados diretamente pelo fato de estarem em viagem, a população disfrutava alegremente dos belos dias azuis.

As cinzas do vulcão impronunciável causaram danos econômicos, mas só. A grande mancha negra da BP está causando danos econômicos e ambientais, certamente. Mas mesmo com toda a onda sustentável, não impedirá novas catástrofes. Há uma certa indignação no ar, mas o que de concreto mudará? Nada, quase nada. Seguiremos nossa marcha. Não há espaço para ludismo. Schumpeter impera, viva a destruição criativa. Os aviões aprenderão a contornar a sujeira do centro da terra lançada ao espaço e a perfuração de oléo em águas profundas vai logo logo chegar aos 10 mil metros. Ou seja, se tiver petróleo na fossa das Marianas, a gente vai dar um jeito de extraí-lo de lá. Quando foi a última vez que o progresso foi detido?

Também tenho certeza de que nossas edificações seguirão subindo para os mil metros, desafiando a escala Richter.

Somos todos James Cameron, atordoados na era onde tudo é possível e tudo se destrói, usando a tecnologia a nosso favor e ao mesmo tempo questionando-a. No fundo, quem está sujo de lama até a espinha e envolto em densa fuligem é o Homem, mas Ele, o Homem, sabe que não há outro jeito. Sob uma ótica evolutiva, estamos avançando para não morrer, para não sermos tragados por aquilo que não conhecemos e que sempre nos ameaça alcançar.

É isso aí, sociedade alternativa, só na velha e boa música do Raul.

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