Vou te contar…

Um milhão de vezes. Já havia olhado para aqueles olhos mais de um milhão de vezes. Ou mais, quem faz uma conta dessas? E hoje eles voltavam diante de mim. De novo. Eu os vi já de todo jeito, os vi de todos os tamanhos e de todos os ângulos. Apareciam muito. Sempre. Eram olhos expressivos. Grandes olhos com aquele branco, bastante, muito branco mesmo. Aquele branco que circunda a menina, sabe? Quando me fitavam, inquisidores, me fuzilavam. Tentei me livrar deles, como sempre, mas eles seguiam lá, bem vivinhos, aparecendo. E eu já ficando nervoso. Droga, droga, hoje não queria nada com aqueles olhos chatos. Debati-me, soquei e esperneei, mas eles seguiam lá. Chatos. Emitiam frieza quando estavam assim. E era curioso, pois dos olhos queremos calor, ternura, paixão, acho que é isso que queremos dos olhos. Não frieza e chatice. Mas aqueles olhos, quando inquiriam…bem, aí te lançavam nas geleiras do ártico, nas altitudes mais improváveis, e te deixavam lá, congelando, com o vento fazendo você bater o queixo. Não haveria como escapar deles, pensei. Teria de conviver com eles uma vez mais. Foi ficando tudo mais claro, cada vez mais claro. Uma claridade absurda me cegava. Um tremor esquisito me percorreu o corpo e eu arrepiei a derme nas frestas da coluna, esticada. Na cama fria agora eu me cegava, e apesar disso, eu ainda os via. E agora choravam. E quando choravam, sim porque os vi chorando, muitas vezes já, quando choravam iam ficando pequeninhos, soluçando baixinho, avermelhando-se e diminuindo, diminuindo cada vez mais. Assim não conseguia me ver lá dentro deles, na menina. Isso era chato, muito chato. Não paravam de diminuir e chorar, soluçar, mas não deixavam aqueles rastros ridículos de lágrimas. Não, lágrimas eram poucas, apenas o suficiente para borrar a maquiagem, um pretume esquisito que eu não sabia muito bem onde estava antes do choro. Agora estava lá, se acumulando na bolsinha de tecido adiposo, embaixo dos grandes olhos, enfeiando-os, sujando-os. Apareciam muitas vezes assim, e não era bom. Oh não era bom, não…por quê choravam? Por quem? O que eu tinha de ver com aquilo? Me fazia estas perguntas, aborrecido porque não me podia ver lá na menina deles e senti o suor saindo pelos poros, me emporcalhando, mas que droga! Que noite que se avizinha, outra daquelas brabas. De bruços, de lado, de barriga, não importava o jeito, a posição, eles seguiam lá, tristes e chorosos agora.
Mas logo se recompunham, logo voltavam a brilhar, reluziam. Ah que bom! Sim, era fácil trazê-los de volta, fazê-los sorrir. Uma bobagem qualquer e pronto! Já os tinha de novo alegrinhos, vivos, rosáceos, suspirantes. Às vezes eles apareciam assim, suspirantes. Que era como ficavam quando os tinha, quando os possuía. Ah, como suspiravam, como reviravam, alegres, jubilosos, frenéticos. Reviravam muito, iam e voltavam a me fitar e a me pedir, queriam eram me agarrar, aqueles olhos, e me manter ali, pressionando-os, e os mirando também, juntos trilhando caminhos que se perdiam da vista, olha só que irônico. Sorri, ria a beça agora, gargalhadas soltas, meu riso ecoou no imenso quarto branco e vazio. Mas não os possuía muitas vezes, pena, pena mesmo.
Eles mais apareciam brabos, muito brabos, o cenho franzido, as sobrancelhas arqueadas, ferocidade aparente. Meus Deuses, me ajudem, me ajudem! O que eu tinha feito para aqueles olhos? Não queria saber, tinha muito medo, pavor, um medo louco. Mexi-me tanto que a cama rangia demais, estrilava ao arranhar o piso de pedra. O barulho tornou-se alto, as cobertas já todas no chão. Não enxergava bem, era tudo muito nublado agora, difuso, mas aí vinha aquela imagem alva se formando de novo, se aproximando cada vez mais..sempre que os olhos me obrigavam a fazer barulho, a fazer aquela confusão toda, vinha aquela imagem branca…sinônimo de que logo depois tudo iria ficar bom e calmo outra vez. …ah que bom que a imagem branca estava vindo agora…logo logo os olhos iriam embora….pronto! senti o adormecimento no braço, no peito, já, puxa hoje veio forte e rápido, minha língua, não consigo mexer….já já vai chegar aqui..

Como será que aparecerão amanhã, aqueles olhos?

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