Vou te contar….

Viração do diabo, exclamei, enquanto me dirigia ao píer. O dia estava ensolarado, mas o vento era constante. Talvez nem precisasse de todo o velame. Ótimo, ia ser rápido para chegar à ilha. E a coceira na virilha diminuía em pg. Excelente.
Quando entrei no barco, senti que tinham vermifugado tudo de novo. Nauseei. Mas tinha de agüentar, aqueles bichos que apareceram eram horríveis, nojentos. Nem descobri ainda o que eram. Melhor evitar que retornassem. Ainda tive de esperar um quarto de hora aquela varapau. Que saco ter de levar aquela menina, que só sabia fazer era vituperar ininterruptamente. Fiquei debruçada no convés, admirando a miríade de barcos que pontilhavam a baía de branco enquanto ela não chegava.
Tudo bem, pensei, levo-a esta última vez e tenho minha recompensa. Mas estava precisando mesmo de uns trocados, para minimizar minhas dívidas. Decidi que este summer job seria o último.

Quando ela chegou, trazia um vazio nos olhos. Triste demais.
– que aconteceu? – fui logo perguntando.
– nada não, respondeu ela.
Deixei por isso mesmo, pois não podia perder tempo. Zarpamos num instante.
No meio da travessia eles apareceram de repente. Não conseguia distinguir de onde vinham, mas pareceu ser do compartimento inferior. Eram muitos.
Gelei. Agora não precisa de um vermífugo e sim de uma espingarda. Situação ridícula!

– ô garota, gritei, venha me ajudar!
Quando ela viu os bichinhos, falou:
– são vombatídeos!
– o que?? Aquilo pareceu grego para mim
– vombatídeos, temos muitos destes marsupiais por aqui..
– ah sei..e como eles morrem?
– não precisará matá-los, eles não te farão mal..

Procurei me concentrar na baía, e encontrar meu caminho para a ilha. Já tinha a Opera House à minha frente, passaria pela ilha goat à direita e entraria no Parramatta. Daí seria moleza deixa-la em Cockatoo.

Uns três dos vombatideos vieram me cheirar as pernas, que saco. Eles tinham um pelo gostoso. Curti o carinho inusitado.

Calculei que levaria ainda meia-hora para ancorar.
Olhei para ela, aquela menina tinha algo esquisito que eu não conseguia decifrar. E o que ela iria fazer naquela ilha deserta? Esses serviços tinham de acabar! Mas era ótimo navegar na baía…em mar aberto, eu marejava facinho, facinho.

Já na proa de Cockatoo, comecei a desinflar as velas. Nessa hora sempre me bate uma angústia danada. É sinal de que o barco vai logo parar. .

Atracamos fácil. De repente, os vombatideos começaram a pular do barco para terra firme, um atrás do outro. Todos se foram.
Olhei para ela, indagativa:

-você……
-é, eles precisavam voltar.
– e você ?, perguntei já adivinhado a resposta
-posso voltar com você?

Deixei para lá. Na minha perna esquerda acabou ficando um vergão que um deles deixou de tanto se enroscar. Lembrança fugidia….como este summer job. Vombatideos…pode?

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