Uma análise do filme “Os homens que não amavam as mulheres”

A transcrição da primeira parte de Millennium para as telas é impregnada pelo cuidado com a fidelidade à obra literária que a originou, e isso fica claro logo na primeira cena, uma tradução quase que literal. O diretor Niels porém, soube depurar o essencial, e o roteiro faz escolhas corretas dentro da oferta do calhamaço que é o primeiro livro de Stieg Larsson. A morosidade das primeiras 150 páginas, por exemplo, é deixada de lado rapidamente e vai-se direto ao cerne da trama: a investigação do assassinato de Harriet Vanger, a filha do magnata Henrik Vanger (papel desempenhado magistralmente, diga-se) e a relação de Mikael Bloomkvist e Lisbeth Salander, os responsáveis pela retomada das pesquisas sobre o referido crime.

Personagens até certo ponto importantes para Stieg, com Érika Berger, a editora-chefe da revista Millennium, onde trabalha Mikael, e Armanjski, o chefe da empresa de segurança onde trabalha Lisbeth, são praticamente esquecidos na tela, e vários outros são meros figurantes na trama em celulóide. Praga, no entanto, um tipo mais estranho e estereotipado, e consequentemente mais “visual”, ganha espaço.

Niels, embora filme uma Suécia na maioria das vezes escura, fria e um tanto desleixada, deixa de fora boa parte da grande crítica ao welfare-state que faz Stieg. A sociedade tão organizada, tão meticulosamente zelosa do bem-estar comum, falha no individual, pois Lisbeth é tratada como uma ignóbil, ao invés de como alguém que precise de cuidados. Também o panfletismo contra o capitalismo selvagem é arrefecido no filme.

Bloomkvist e Lisbeth, o incomum casal, cada um a seu modo, são elétrons livres desta sociedade elevada, vivem sós e são totalmente egocentrados, mas o processo investigativo os une, ainda que por interesses bem diversos. Na tela, a busca pelo assassino de Harriet é bem ritmada, as descobertas dos dois são bem embasadas e dão credibilidade à narrativa. A reconstituição da cidade fictícia de Hedestad é um primor. Em relação ao livro, Mikael Bloomkvist perde a sua aura de Don Juan e super-herói, tornando-se um homem mais comum, o que é bom. Já Lisbeth Salander é uma personagem incorporada por Noomi Rapace de uma forma espetacular, mas percebe-se uma perda de densidade na sua personalidade. Ela fica muito mais hacker do que qualquer outra coisa e fica difícil para quem não leu o livro entender a complexidade de sua personalidade, embora esta primeira parte já antecipe alguns pontos que na trilogia só são revelados no segundo tomo. Um recurso para tornar as coisas mais simples para o espectador que desconhece os livros.

Outro ponto forte está na trilha sonora, que sustenta muito bem a trama e o suspense. No mais, os 153 minutos passam rápidos, prendem a atenção, despertam a curiosidade do espectador. Com apenas ligeiras alterações em relação ao livro, o desfecho deste primeiro capítulo é muito bom e chega a emocionar.

Vai ser difícil Hollywood superar este com sua já anunciada refilmagem. Corremos o risco de ver mais uma versão americana que fica muito aquém do original, como em tantos outros casos (alguém aí lembra de Nikita?). Mas, por enquanto, é ótimo poder curtir o original. E vai ser curioso ver o puritanismo americano ter de lidar com as fortes cenas imaginadas por Stieg e que neste filme são tratadas dignamente. Toda a crueza do universo duro de Stieg Larsson é exposta sem sequer tangenciar o vulgar.

É isso aí,

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