A África de Clint vs. A África de Coetzee

Você sai de Invictus com aquele entusiasmo que proporcianam as coisas justas, com aquela sensação de que sempre há uma saída por piores as vicissitudes do momento. Resiliência é o que se precisa. Clint faz um retrato muito poético da saída da Africa do Sul do apartheid. E sublima tudo com a vitória no esporte, com o espírito olímpico, de Coubertin. Não há derrota que não possa conter uma lição, não há vitória que não possa se converter em fracasso.  O poema de Henley que dá título ao filme é belo, mas romântico ao extremo, literariamente falando.  E Clint, mais do que glorificar a persona de Mandela, ainda sugere que todos os problemas advindos dos 16 anos de vigência do regime de segregação seriam resolvidos em questões de dias. A unidade nacional seria alcançada pela identificação com símbolos vencedores, como a seleção de Rúgbi.

Daí você se depara com Coetzee e seu “Desonra” (Disgrace, no original). Tem o filme também, mas preferi ler o livro, afinal, a intenção era, além de saborear este escritor interessante, ver como ele narraria a sua pátria,  a partir do momento quase em que Clint a deixa.  E vem o choque. Coetzee baseia sua narrativa em figuras mais comuns, principalmente em um professor universitário às portas da meia-idade. O caminho que este personagem percorre a partir do ponto em que o conhecemos é uma via de mão única rumo ao ostracismo, recheada de episódios trágicos que pontificam com extrema clareza as grandes e profundas cicratizes que ainda estão presentes no país. Não há alento nenhum no livro. Não há nenhum personagem conciliador, há sim personagens desesperançosos, cheios de culpa pelo fardo da História. O estilo de Coetzee é sintético, vai sempre direto ao ponto, o que me agrada e contribui para que a leitura flua intensa. É ótima leitura, e um constraste e tanto para o quase ufanismo de Invictus. Mas não me entendam mal, Invictus é ótimo filme, mas como filme, não como lição de História.

Ao contemplarmos estas duas obras, podemos refletir sobre a real África do Sul, que será enormemente explorada na mídia nos próximos meses, com a iminência da Copa. Resta esperar para ver qual dos dois países nos será apresentado pela mídia. Deixo com vocês algumas imagens impressionantes deste país de contrastes, à semelhança do nosso. Na primeira, vista parcial de Cape Town, na segunda, condomínio de luxo em Midrand e a terceira, o Gueto de Alexandra (ao redor do edifício, o lixo acumulado que é despejado pelos moradores direto das janelas)

E para não dizer que não falei de flores, aí vai a versão original de “Invictus”.

Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll.
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

É isso aí,

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