Vou te contar…

Pareceu-me um tipo bonachão, tinha aquelas covinhas nas bochechas que o deixavam com a cara sempre sorridente, como um Curinga do bem. Encontrei-o por força do ofício, no balcão de check-in de uma companhia aérea. Nosso vôo tinha sido cancelado. Fomos encaminhados a uma sala VIP para esperar pelo próximo.

Quando falou, eclodiram trovões. Era temperamental, áspero, vociferava como quem disparava uma metralhadora. Mostrava uma tensão além do normal, nunca deixava de ter uma parte de si em movimento. Exasperava-se com rapidez, e a cada cinco minutos ia ao balcão falar com a atendente da companhia aérea. Parecia muito nervoso. Tinha de aliviar o nó da gravata regularmente, aparentemente para que os impropérios que soltava contra ela saltassem da garganta com mais ressonância.

Tinha trejeitos curiosos. Ora piscava muito os grandes olhos enquanto falava, ora tinha um olhar catatônico, os grandes glóbulos mirando o nada, por segundos a fio. Quando se sentou novamente, deu para ver uma gotícula de suor brotando na sua fronte e começando a trafegar até os primeiros restos de barba mal feita. Passou a cuidar copiosamente das unhas com os dentes. Devia ter incisivos de castor, pois a cada movimento, plec, lá voava um pedaço.

Nenhuma resposta da companhia e ele seguia catalizando a atenção de todos, que já esperavam pelo próximo surto. Mas, à medida que ia ficando claro que nenhum esforço dele seria compensado, ele ia relaxando cada vez mais, usando a poltrona inteira, e se esparramando como uma gelatina flácida ganhando a superfície do prato em que é derramada.

Quando se desinteressou totalmente pela evolução dos fatos, apanhou um bloco da mesinha à sua frente e passou a desenhar forte, traços grossos, geométricos que nada representavam a primeira vista. Lembrei-me de uma “remene” qualquer, (reunião de merda nenhuma), pois a sensação de perda de tempo era a mesma.

Foi quando o tipo passou a chupar gulosamente as balinhas que estavam oferecidas no centro da mesa, em ritmo impressionante. O Rolex era estendido bem debaixo de meu nariz constantemente. Mordia-as com vigor, grunch, guerck, smork, pois certamente não tinha paciência para deixá-las derreter na boca suavemente.

Um de seus dentes não resistiu à pressão mandibular, e quebrou-se em três pedaços, ou melhor, dois pedaços de dente e mais a obturação que veio inteira, cinza, brilhante.

Hummm, ahhhrgh, mmmaahhumm. Após grunhir desesperado por alguns segundos, sem saber o que fazer com o conjunto da obra revirando na boca, o homem fez uma concha com a mão, e despejou ali seu dente em pedaços, junto com uma grande quantidade de baba e meia bala, os restos mortais da batalha recém encerrada.

Armou-se o rebuliço. Um dos presentes tentou ajudar, mas o nojo o impedia de fazer qualquer avanço. Outra emulou aquele rosto de Munch. O horror, o horror. Quase todos se levantaram em gesto de apoio, mas muito mais não fizeram. O homem finalmente solta tudo em cima da mesa e começa a tentar limpar a mão no paletó. Tomou um gole de água e recompôs-se na cadeira. Um garotinho ali perto imediatamente cuspiu a bala que tinha na boca, desolado, mandado pelo pai.

Voltamos a esperar pacientemente o tão famigerado vôo salvador, mas a sala não podia evitar contemplar aquela obra. Até o final, pares de olhos sempre convergiam na direção daquele montinho tenebroso.

Já não bastava o avião atrasado, agora a moça da limpeza, também não chegava?

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