Vou te contar…. – Post #100!

Essa categoria vai se nutrir da minha criação literária, e já temo deixá-la morrer de inanição, mas como de certa forma nos próximos meses me impus o dever de alimentá-la, acho que vale o esforço. E este primeiro texto também se reveste de importância pois coincide com o centéssimo post deste blog (uau!)

Lá vai:
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Corpo que cai

TUM TUM TUM, senti o coração batendo alucinadamente, descompassado e nervoso, como se estivesse à beira de uma explosão; sgzziiichhhhh, pude perceber a unha do dedão arranhando o cimento, querendo grudar-se no pouco de base sólida que tinha sob mim e um arrepio decorrente deste toque da unha na superfície dura percorreu-me a espinha, e me inclinei um tantinho mais para frente, como se ainda fosse possível mover-me ali, sem precipitar todo o meu corpo no vazio.

Fez-se um silêncio do cacete, e de tão avassalador, fui capaz de escutar o glrauhzz, que fez um merda de um garotinho quando abria a sua bala de iogurte de morango, ali na terceira fila do lado esquerdo da arquibancada; a gota de suor que me caiu da fronte fez um ping surdo no cimento, sendo logo absorvida pela superfície porosa.

Era hora, percebi, olhando para o imenso relógio na parede ao fundo, do outro lado do estádio, e via o ponteiro dos minutos fazer mais um movimento decisivo em direção ao 12, e juro que tinha visto duas minúsculas criaturas empurrando com força o ponteiro: 57 tic, 58 tac, 59 tic, 60 tac, respirei uma vez mais como se fosse a última e ziiiimmmm, fui como um bólido na direção do nada, os braços perfilados sob a cabeça, formando um V invertido, as pontas dos meus dedos tocando-se ligeiramente.

E mais nada, nada mesmo; era como se eu repetisse Alice caindo no poço, caindo e caindo e nunca chegando ao fim, e pensei que não poderia levar tanto tempo para chegar na linha d’água e surpreendi-me mesmo com o fato de que eu continuava pensando e pensando e a linha d’água ainda não tinha chegado, e surpreendi-me de novo quando o passei a visualizar aquela velha, com aquela cara enrugada peculiar de toda velha, e bagaceira que só ela, dizendo: “vamos, vamos, filho da puta, entre aí agora com aquela sutileza do caralho, e não solta uma porra de um pingo sequer para fora da piscina, tá bom?”

Quando finalmente toquei a água, a cama estava toda encharcada pelo o suor que escorria, o coração seguia batendo loucamente e foi difícil desenroscar a unha do dedão direito encravada do lençol, e nem sinal do papel de bala.

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