A Fita Branca e o Nazismo

Haneke nos brinda com mais um filme instigante, como havia sido “A professora de Piano” e “Caché”. Longo, sem ser arrastado, em P&B sem ser descolorido, soberbo na fotografia, mas sem abusar de tomadas esdrúxulas, grandioso no objetivo, porém meticuloso com os detalhes. A ponto de fazer a crítica Isabela Boscov, de Veja, lembrar Vermeer, o grande mestre Holandês da pintura do instante. É fácil entender o ponto de vista de Isabela, a partir de certas cenas que parecem mesmo pinturas, como a da imagem acima, e que devem ter sido treinadas à exaustão.
Haneke, entretanto, nos dá mais do que reproduzir pintura em 24 quadros por segundo. Ele desenvolve uma estória que vai nos capturando devagar, a medida em que os eventos “extraordinários” que começam a tumultuar o vilarejo em que a estória se passa vão se sucedendo. Tudo gira em torno de violência, que, embora nunca explícita, vai nos sendo oferecida em dosagens cada vez mais ásperas. O recado chega com exatidão. Pela voz em off do professor da escolinha do lugar, que nos narra a estória em flashback, vamos desvendando os tais horrores. Que não são praticados só com crianças, como muitos poderiam pensar, mas entre adultos também. Uma das maiores violências pode-se resumir na sina das mulheres submissas que o filme nos brinda. Igualmente impressionante é o retrato de dominação de Patrões sobre empregados: a estes últimos sempre cabe odebecer, cumprir tarefas à exaustão e só. As festas religiosas da aldeia são o único momento de lazer e regojizo.

Enfim, como resume uma personagem: O lugar vai se infestando de Maldade, Inveja e Brutalidade até o limite. A caixa de pandora da Humanidade bem alí, sendo aberta na nossa frente. E, ainda que nos deixe sem todas as respostas, Haneke sugere bem claramente o impensável como resposta aos misteriosos crimes. Bom, muito bom.

Por fim, cabe comentar uma certa polêmica envolvendo a fita. Muitas mídias veem divulgando que Haneke teria declarado que, através do microcosmos deste pequeno vilarejo, ele queria falar das condições que fomentaram o Nazismo e o Estado Autoritário Alemão que descambou nas atrocidades que todos conhecemos. O diretor na verdade afirmou que as condições retratadas no vilarejo não foram exclusivas da Alemanha do período pré- e entre-guerras. A ética protestante de apego ao trabalho árduo, devoção religiosa, assim como a presença do patriarcarlismo eram moeda corrente em praticamente toda a civilização ocidental. Abusos contra menores era, e ainda é, algo ainda mais universal, infelizmente. O que o diretor na verdade afirmou foi que o filme retrata um cenário de concepção de autoritarismo dogmático e que poderia ser embrião tanto do nazi-fascismo, como de qualquer outro tipo de terror político e religioso. É ótimo saber que Haneke não caiu no jogo fácil e simplista de querer definir apenas por uma faceta o surgimento do nazismo.

É isso aí,

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s