Tuas idéias não correspondem aos fatos

Em “brilho eterno de uma mente sem lembranças“, de Michel Gondry, ótimo cara aliás, Jim Carrey era um atormentado que precisava livrar-se das lembranças de sua namorada, interpretada por Kate Winslet. O remédio era uma máquina maluca que “apagava” partes da memória do sujeito, como se estivesse lendo e deletando arquivos de computador. Pois em uma das últimas Veja saiu uma reportagem que me lembrou a estória do filme, ao mencionar as recentes descobertas da neurociência a respeito de como funciona a memória em nosso cérebro. O mais fascinante é que em dois estudos recentes, um inclusive brasileiro, da PUC-RS, demonstrou a possibilidade de se “apagar” lembranças, desde que uma dosagem de uma droga especifica seja ministrada em até 12hs após ocorrido o “fato” que não se quer reter.
É muito instigante, talvez uma janela mais ampla para “brincarmos de Deus” do que a manipulação genética.
O que nos dá continuidade e coesão como seres humanos é justamente a nossa percepção de que aquilo que trazemos na memória é nosso mesmo, não foi colocado alí sem termos realmente vivido e nem pode ser sacado de nós.

Em um livro igualmente provocativo, O porco filosófico, Julian Baggini propõe desafios filosóficos os mais variados, e alguns deles tem tudo a ver com a esta grande dúvida. O que nos respalda como seres humanos? O Corpo? A Mente?
Baggini usa a estória da Metamorfose de Kafka para nos dar sua opinião: O inseto ainda é o Homem, o corpo é outro mas a mente é a mesma.

Ainda não está convencido? Então, lanço mão do the killer argument , para usar um jargão muito em voga. De um clássico de David Hume, o Tratado da Natureza Humana, onde ele nos desafia na busca por nós mesmos:

” Você pode tentar isto em casa ou em qualquer lugar. Pode fechar com os olhos abertos ou fechados, em um quarto silencioso ou em uma rua barulhenta. tudo o que precisa é: identificar-se.
Não estou dizendo para se levantar e dizer seu nome. Estou dizendo agarre-se ao que você é, em vez de apenas as coisas que você faz ou experimenta. Para fazer isso, concentre sua atenção em si mesmo. Tente localizar em sua própria consciência o “eu” que é você, a pessoa que sente frio ou calor, pensa seus pensamentos, escuta os sons ao seu redor e por aí vai. Não estou pedindo que você localize seus sentimentos, sensações ou pensamentos, mas a pessoa, o eu que os tem.
Devia ser fácil. Afinal, o que é mais certo neste mundo do que o fato de você existir? Mesmo que tudo ao seu redor seja um sonho, você deve existir para ter este sonho. Então se voltar sua mente para o interior e tentar ter consciência apenas de si, não deve demorar para encontrar. Vai, tente uma vez….”

E Baggini conclui, brilhantemente:

O Eu não passa da soma de todas as experiencias unidas. O Eu não é uma coisa e sem dúvida não é reconhecível para si mesmo. Nós não temos consciência do que somos, apenas do que experimentamos.

Cazuza já sabia:

A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas idéias não correspondem aos fatos
O tempo não pára

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára

É isso aí!

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4 thoughts on “Tuas idéias não correspondem aos fatos”

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