Um livro: A Trégua, de Mario Benedetti

Mario Benedetti morreu o ano passado, e como que rendendo-lhe uma homenagem, fui ler A Trégua. Mas acabou sendo muito mais que uma homenagem, foi a descoberta de um autor espetacular. Nesta narrativa, de um homem próximo de se aposentar que acaba encontrando um novo amor, deliciei-me com a prosa fácil, ligiera, e, acima de tudo, com sua habilidade na leitura dos sentimentos masculinos. Martín, o personagem principal e narrador da história, é muito denso, inteiro, verossímel. É um homem comum, com uma vida marcada pela tragédia e impotente para mudar o que quer que seja. É tão insignificante que sua única missão parece ser a busca por mais ócio, e, obviamente, apenas para constatar que não saberá o que fazer com ele. Não sabe o que fazer com a Vida. Benedetti usa um estilo peculiar, faz a narrativa como se estivesse escrevendo um diário. Quando Martín recebe uma baforada do Destino, e tem um hiato nobre em sua existência apagada, a marca registrada do livro passa a ser o corte abrupto de cenas, deixando o leitor ávido por mais, tal como Martín. Mas no dia seguinte do diário, ele já está tratando de outra coisa. É uma forma inteligente de jogar com nossa participação na estória, diversas vezes fiquei eu mesmo preenchendo as lacunas. Hábil. Como um bonus para o pessoal do mundo corporativo, as ácidas observações sobre o cotidiano da empresa onde Martín é um contador, são pérolas que poderiam ainda estar sendo ditas nos cafezinhos de muitas empresas ditas modernas. Ressalva: Benedetti escreveu isto em 1959, há cinquenta anos.

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