Ridículo?

Dostoevsky

Fui ver “Sonho de um homem ridículo”, em cartaz em SP no teatro Ágora, que é uma nada ridícula empreitada do Celso Frateschi. O monólogo é brilhantemente interpretado pelo ator e o acanhado espaço do ágora em uma noite quente de verão ajudou a deixar tudo sufocante e exasperante ao extremo. Mas me interessa mais o texto de Dostoyevski: nele temos o desespero de um homem acometido pelo desejo de acabar com a vida. Desiludido com a natureza humana. Em seu sonho, temos a figura do bom selvagem, na imagem do planeta de pessoas puras, sem vergonhas, medos e inveja, que são “pervertidas” pelo homem civilizado, pela ciência. Aí está o supra-sumo da verdade absoluta da Tábula Rasa: o homem é bom, essencialmente bom e a mente pode ser construída inteiramente pelas experiências, pela formação. Essa crença, sabemos, perspassa a Cultura Ocidental desde Descartes e vinga por todo o Iluminismo e chega até os nossos dias. Há quem só veja em Levi-Strauss, por exemplo, erroneamente, esta visão também, e aí já adentramos o século XX. Mas eis que a Genética Moderna surge e nos coloca de volta no prumo..Ora, ora, incrivelemente, Dostoyevski escreveu o “sonho” em 1877 e apenas quatro anos depois, em 1881, em “Os Irmãos Karamazov”, temos este trecho esclarecedor:

“Imagine: dentro, os nervos, na cabeça –isto é, esses nervos estão lá na cabeça…(malditos sejam!) há uma espécie de rabichos, os rabichos desses nervo, e assim que começam a tremular…quer dizer, eu olho para alguma coisa com meus olhos e quando começam a tremular, esses rabichos…e quando tremulam aparece uma imagem…não de imediato, passado um instante, um segundo..e então algo como um momento aparece: quer dizer, não um momento – ao diabo com o momento!-, mas uma imagem, isto é, um objeto, ou uma ação, droga! É por isso que vejo e então penso, por causa destes rabichos, e não porque eu tenha uma alma nem porque eu seja alguma espécie de imagem e semelhança. Tudo isso é bobagem! É magnífica essa ciência! Um novo homem está surgindo – isso eu entendo…mas lamento perder Deus”.

Curiosa passagem da “Tabula Rasa” para o geneticismo absoluto. Mas não deixem de ver o Celso, é teatro da melhor qualidade.

É isso aí!

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