Trilogia Millennium: uma análise dos três livros de Stieg Larsson

Que Millennium é, na maior parte do tempo e de suas mais de 1800 páginas, uma leitura prazerosa, vejo como quase incontestável. O sucesso de vendas retrata isso e a profusão de fãs no mundo todo, com a passagem para o cinema, só vêem reforçar ainda mais o fenômeno mundial em que ela se converteu. Muito além do entretenimento proporcionado pela série, porém, findada a leitura do terceiro e último tijolinho da série, é momento de se refletir sobre o interessantíssimo mundo que a imaginação de Stieg Larsson criou, além de trazer à tona bons pontos de discussão na sua peculiar forma de ver por onde andam os Homens neste novo século e na Suécia em particular.

Das coisas interessantes que o microcosmo sueco do livro nos traz, emerge como grande pano de fundo de sua obra, primeiramente, uma grande crítica do welfare-state. A sociedade tão organizada, tão meticulosamente zelosa do bem-estar comum, falha no individual. Falha ao não cuidar bem dos seus entes que mais precisam de cuidado, o que é bem curioso. É o que parece nos querer dizer o autor, ao nos brindar com o aparato do Estado dentro do Estado, representado pela Seção, revelação do segundo livro. Uma instituição criada para o “jeitinho”, para fazer as coisas fora das regras, para subverter a ordem. É o retrato que sobressai também quando vemos o tratamento dispensado a Lisbeth nos hospitais psiquiátricos da Suécia. Todos os tipos estranhos com os quais cruzamos ao longo da trilogia parecem desambientados na sociedade perfeita que é o estereótipo da Suécia para o mundo. Desviados de toda ordem, como o grupo de motoqueiros, os que lucram com a prostituição, os que vendem drogas, os imigrantes, espelham perfeitamente o “lixo da pós-modernidade”, como nos fala Zigmut Baumann. E a Suécia parece cheia dele. O preconceito da polícia contra Lisbeth, a “lésbica satânica” de Faste, é a jóia da coroa deste lixo e a que mais prontamente deve ser eliminada.

Como sabemos que Stieg tem uma tradição jornalística de esquerda, só podemos interpretar isto como uma grande denuncia ao “sistema”. Stieg porém, algumas vezes exagera no panfletismo, e sua visão muito peculiar e deturpada do capitalismo sobressai por exemplo na estória paralela de Bjorslo, e suas privadas de milhares de coroas, feitas com mão-de-obra infantil no Vietnã. Nunca passou pela cabeça de Stieg que o mercado paga o preço que quer pagar pelas privadas ?

Bloomkvist será o alter-ego do autor? Isto importa pouco, mas o personagem é de tal forma sagaz , sexy, inteligente, que é difícil entender de outra forma. E o adjetivo Super-bloomkvist…..pelamordedeus! Mas não deixo de ver na incrível inteligência de Lisbeth Salander também parte do desejo do autor de se vangloriar. Seria ela também a heroína que ele sempre quis ser?

Lisbeth é a melhor contribuição do autor, sem dúvida. Através desta personagem temos a amarração dos três livros e de uma participação quase que coadjuvante no primeiro, ela passa a protagonista no segundo, e “mentora intelectual” no terceiro. A ética de Lisbeth é talvez o mais interessante a se analisar. Parece ser justa, gostar da mãe, mas rouba e viola a lei sem o menor pudor. Contestadora, afronta as regras de convivência sócia e debocha da autoridade. No livro, tudo justificado pelos abusos, mas para quem é tão intelectualmente bem dotada…

A relação de Bloomkvist e Lisbeth é extramente curiosa e cumpre notar que no segundo livro, há apenas um encontro entre os dois personagens, e ele se dá na última página!

Bloomkvist e Lisbeth, cada um a seu modo, são elétrons livres da sociedade, vivem sós e são totalmente egocentrados. Retrato do país?

A Suécia do imaginário coletivo, aliás, implode, restando apenas a liberdade sexual como uma bandeira, quase nenhum personagem tem uma família tradicional, e o casal Berger é o supra-sumo do liberalismo.

Fruto da incrível criatividade de Stieg, que em três livros, nos brinda três roteiros totalmente distintos, ainda que enredados entre si e derivados um do outro. Um show.

O mistério do primeiro livro deslancha a partir da página 150 e fica difícil de largar. O segundo livro tem um desenrolar muito parecido, demorando a engrenar, mas nele não há o mistério impenetrável e aprisionado no passado, e sim uma caçada ao assassino declarado. O final deste, porém, muito cinematográfico, prejudica e tira um pouco da credibilidade da narrativa (claro que é ficção, eu não consigo sair totalmente da realidade ao analisar) . Como esperado, o terceiro volume começa exatamente de onde parou o segundo, mas logo se converte em um outro enredo encantador, embora a profusão de personagens desgaste um pouco. Mas este último volume culmina bem com a elucidação de (quase) todos os mistérios levantados pela trilogia desde o principio e a ótima cena do julgamento. Quase que Stieg resvala de novo para o fantasioso, mas desta vez ele soube dosar melhor o seu apetite pelo hollowoodiano

O uso de alguns casos reais se confunde com a criação de outros, e Stieg chega a usar o nome verdadeiro do primeiro-ministro sueco Falldin e citar casos de corrupção reais. Bem curioso.

Enfim, ótima leitura e porta de entrada para um grande milênio.

É isso aí!

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3 thoughts on “Trilogia Millennium: uma análise dos três livros de Stieg Larsson”

  1. Great read there, even if I had to use a translation engine for a bit of help 🙂 (My Portuguese isn’t particularly sharp 🙂

    Anyway, it’s always cool to see that Millennium has such a great following in the Southern/South-western part of Europe. I’m amazed of some of the big fan groups that I can find on Facebook from Spain and Italy (some of the largest) – even though the books take place in cold, cold Sweden! It must be bc Lis Salander and Blomkvist have something that appeals to pretty much everyone – duh!

    Anyway, good to see one more great blog, this time from Portugal – keep it up. And do drop by some time over at sallysfriends.net

    If you haven’t already …

    Best,

    Chris

    1. Hi Chris,
      I am honoured with your visit and the nice comment, thank you very much. I´ve been to sallysfriends.net already, you guys hav a great material about Millennium. Just one correction, yes, it is Portuguese, but I am writing from Brazil. It is even hotter here, but I think Stieg have created so many credible characters and situations, he talks an universal language. Keep in touch, I will put sallysfriends on my blogroll, so that my public could find you quicker. All the best! Marcos

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