Uma loucura este Janeiro!

Estamos de volta e isso é bom. Um ótimo janeiro anda por aí, com muitas atrações culturais. Uma boa dobradinha é ver “sete vidas” o novo filme com o Will Smith, e Calígula, a montagem da peça de Camus no Sesc pinheiros, com o Thiago Lacerda. Explico:

Difícil para quem é da minha geração não associar o nome Calígula a mais completa loucura. O cara sempre foi retratado nas artes como o rei da devassidão, da tirania exemplar e do escárnio, esculacho mesmo. Já as críticas do filme Sete Vidas recomendavam: levem seus estoques de lenços, porque o homem sabe fazer chorar como cebola crua sendo descascada bem de pertinho. E deveria emocionar porque retratava o esforço de um homem bom, papel, aliás, que meio que repete, ou dá seguimento, ao de “A procura da felicidade”.

Mas o efeito que esta dobradinha produziu neste que vos escreve foi exatamente o oposto: nenhuma lágrima por Will e muita admiração pelo tal Louco do parágrafo anterior.

Explico de novo: a personagem de Will é mostrada o tempo todo procurando vítimas do sistema e oferecendo ajuda, ainda de um modo muito peculiar, logo percebemos que o pouco de dúvida que havia sobre o caráter do cara é mandado para o espaço, pois ele ajuda, ajuda e se esforça muito para ajudar mais. Faz coisas incríveis, como livrar pessoas de hospitais decrépitos, tira imigrantes suspeitos do alvo da Receita e por aí vai. Por que tanta santidade? Porque ele tem remorso, e não consegue lidar com a culpa. É tão atormentado com a sua culpa, que vai às raias da total insanidade contra si próprio para se livrar dela. Brinca de Deus, na sua infeliz presunção de querer definir quem é suficientemente bom para merecer suas benesses. Enfim, um louco de carteirinha!

 

Já o César da vez, faz coisas que afrontam a moral e os bons costumes da época. Define a vida e a morte dos súditos de forma arbitrária e exercita ao máximo a capacidade de fazer o inesperado, o improvável. Ele quer a lua para ele, esnoba os Deuses, pois incapazes de mudar o curso das coisas.  Calígula/Camus na verdade filosofa o tempo todo, buscando entender o impossível. Não se conforma jamais, e essa, sem dúvida é uma virtude. A peça não é tão empolgante, mas o texto de Camus, um show.

 

O que é a loucura senão o ato irracional, naqueles que deveriam ser programados pela Razão? Mas o racional não está definido pelo paradigma em que estamos inseridos? Certamente! Para quantos não foram Galileu, Darwin e tantos outros os maiores doidos varridos? E não era só porque estes senhores questionavam a ordem vigente? Camus nos mostra que Calígula procurava fazer o mesmo, de certa maneira. Exercitando os limites da liberdade, puxando todos ao redor para seu redemoinho (palavra interessantíssima, não é mesmo?). Matéria-prima da genialidade.

 

Foi assim que eu vi. “Will” louco e Calígula douto. 

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