Duas fábulas argentinas

Dois grandes exemplos da vitalidade do cinema dos Hermanos lá de baixo: os filmes Medianeras e Um Conto Chinês. O primeiro é impregnado de modernidade, retratando em belas imagens a vida de jovens desajustados,  viciados em iPods, iMacs, iPhones e tudo mais com o i na frente, por intermédio dos quais eles encontram quase sempre seu único caminho de expressão social.  A desordem urbana de Buenos Aires, retratada sem dó em toda sua feiúra (as laterais “mortas” dos prédios – as tais medianeras –  e o emaranhado sem fim de cabos e fios a cobrir o céu ) é usada como espelho das tonterias do país.  O filme desenrola um delicioso jogo de esconde-esconde dos dois personagens principais (cujas estórias são narradas em paralelo) até o encontro anunciado.  É sólido, bem escrito, com vozes em off que geram um bom efeito narrativo e com um olhar extremamente crítico para a sociedade portenha. Muito bom, em que pese o final um tanto piegas.

Já Um Conto Chinês tem Ricardo Darín como Roberto, um sujeito arredio e igualmente desajustado. Dono de uma loja de ferragens que parou no tempo, ele nunca viu nada com o i na frente, a exceção dos idiotas, que é como ele considera os seus fregueses, dos imbecis da embaixada chinesa, que não o ajudam a resolver o caso do imigrante que acaba hospedado por acaso em sua casa, e das incredulidades que ele coleciona dos jornais. A busca do desesperado chinês que não esboça uma palavra em castelhano acaba se tornando um enorme fardo para Roberto, que, alma boa que é, não vê escapatória a não ser ajudar ao pobre rapaz. O que Roberto não sabe é aquilo que todo espectador já viu: uma de suas estórias incríveis de jornal está bem diante dele, como que para assombrá-lo, expiá-lo dos horrores por quais passou.

Dois filmes a principio tão dispares, porém, no fundo, muito iguais. É de busca que estamos falando, de buscas incessantes por respostas, por satisfação, por justificativas para a existência. O Chinês, Roberto e os macmaníacos de Medianeras todos querem encontrar seu Wallys.

É isso aí,

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